quarta-feira, 24 de junho de 2015

FALTA GOVERNO E FALTA OPOSIÇÃO NO PAÍS



Conversa Afiada reproduz artigo de Luis Nassif, extraído do Jornal GGN:

Publicado em 20/06/2015
O que garante a governabilidade não são apenas as prerrogativas institucionais da presidência, mas a existência de um conjunto coerente de ideias

por Luis Nassif

Tem-se uma quadra complicada na vida do país.

O governo Dilma acabou. Pode ser que renasça mais à frente. Mas, no momento atual, não há comprovação de que os sinais vitais estejam preservados.

Com o esfacelamento do centro de poder, o país tornou-se um salve-se quem puder. Ritos, procedimentos, processos deixam de ser observados, a própria racionalidade é colocada de lado, provocando a ascensão de pequenos tiranetes invadindo todos os poros da vida nacional.

As relações sociais são atropeladas por bandos de trogloditas saindo do baú da inquisição e invadindo as ruas e as instituições.

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Na Câmara Federal, o presidente Eduardo Cunha passou a atropelar os ritos e a impor sua vontade pessoal e a do baixíssimo clero da casa.

No STF (Supremo Tribunal Federal), o Ministro Gilmar Mendes se vale desde o uso da gaveta até procedimentos, que em outras quadras da história, seriam considerados escandalosos: como obter,  para eventos do IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público), de sua propriedade, patrocínios de empresas com extensas demandas no Supremo.

Um procurador lotado no TCU (Tribunal de Contas da União), militante de passeatas pró-impeachment, se vê no direito de opinar sobre a viabilidade de empresas-chave na política industrial do pré-sal.

A imprensa ajuda a demolir os financiamentos de serviços do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) duramente construídos nos governos FHC e Lula.

Em Curitiba, um juiz de primeira instância, procuradores e delegados, distribuem prisões preventivas sem a menor preocupação de legitimá-las.

No Banco Central, um grupo de burocratas define a seu talante o nível das taxas de juros da economia, cria um cenário claramente insustentável para a dívida pública, sem que ninguém se interponha no seu caminho.

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O que garante a governabilidade não são apenas as prerrogativas institucionais da presidência da República, mas a existência de um conjunto coerente de ideias, não só econômicas, mas legitimadoras, capazes de juntar setores dos mais diversos em torno da ideia de nação.

A presidência já não consegue mais estruturar nenhum discurso.

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A segunda âncora deveriam ser os partidos políticos. Mas também não existem programaticamente.

O vácuo de poder e de propostas seria a oportunidade da oposição apresentar-se como verdadeira alternativa de poder. Mas consegue ser ainda pior e menos séria do que a situação que combate.

Hoje em dia, o jogo político consiste na fabricação diuturna de factoides para aparecer na mídia.

O jogo de cena armado por Aécio Neves e troupe na visita à Venezuela seria um episódio vergonhoso em qualquer circunstância, uma mera molecagem de praia, não tivesse sido protagonizado por um candidato à presidência da República e por senadores da República.

Transformam um problema de trânsito – registrado inclusive por jornais de oposição na Venezuela – e meras manifestações de rua em incidente diplomático. E ainda conseguem a solidariedade do líder do PT na Câmara. O outro candidato oposicionista, José Serra, aproveita o vácuo de poder para parcerias de negócio com o presidente do Senado Renan Calheiros.

É uma quadra vergonhosa da história, uma comprovação trágica de que falta governo e falta oposição ao país tornando absolutamente incerto o desenho da saída política da crise.





Dilma no volume morto

É um espelho invertido o gráfico do Datafolha sobre a popularidade de Dilma Rousseff. Em 21 de março de 2013, ela era aprovada por 65% da população e rejeitada por 7%. Pouco mais de dois anos depois, ela é rejeitada por exatos 65% dos eleitores e aprovada por 10%. O índice dos que a consideram “regular” permaneceu quase o mesmo ao longo desses anos: de 30% para 24%.
Amores e ódios, estes sim são osciláveis – e essa talvez seja a maior lição da pesquisa divulgada no último domingo. A variação de humor em relação ao governo Dilma atravessa uma eleição, uma Copa do mundo e, principalmente, os protestos de junho de 2013, quando a popularidade da petista – e de outros gestores públicos – despencou.
Dilma deu início ao seu primeiro mandato na esteira da popularidade do governo Lula, de quem foi a principal gestora. Primeira mulher a abrir a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, ela era o rosto de um país que anos antes havia finalmente decolado, conforme a definição da Economist. Esse país estava prestes a receber dois grandes eventos internacionais: a Copa e a Olimpíada. Havia instituído, na última década, o mais sofisticado programa de inclusão social do planeta. Engrossou as fileiras da classe média, bancou a entrada das classes menos favorecidas na universidade, anunciou programas estruturantes para alargar o gargalo do desenvolvimento. E parecia ter driblado bem, com medidas anticíclicas então ousadas, a crise financeira internacional. O pano de fundo era a certeza de que os pilares da estabilidade democrática estavam fincados em terreno seguro de quaisquer desejos inconfessos.
Em março de 2013, o maior ponto de tensão da administração era a queda de braço sobre o pagamento de royalties entre estados produtores e não-produtores de petróleo. Era um ponto de tensão, mas nem o mais pessimista dos brasileiros (então na lista dos 10% que rejeitavam uma presidenta tão popular) desconfiaria das previsões sobre o futuro – sobretudo da importância da maior empresa do país para a administração de uma riqueza natural por meio da qual jogariam dinheiro e soluções para nossas misérias humanas e orçamentárias.
No pé do noticiário, talvez um leitor mais desconfiado encontrasse uma sombra premonitória na denúncia do Ministério Público Federal contra o ex-presidente da Valec, José Francisco das Neves (o Juquinha) e outros ex-diretores do órgão responsável pelas ferrovias federais. Entre os denunciados estavam ainda integrantes da construtora Odebrecht. Eram acusados de supostos desvios nas obras da Ferrovia Norte-Sul no Tocantins.
De junho de 2013 pra cá, o Brasil entrou na rota de um inferno astral que engoliu o homem mais rico do país, a maior estatal, as principais construtoras, o fiador da política econômica, o presidente mais popular. As derrocadas do técnico mais vitorioso e da seleção pentacampeã de futebol em pleno Mineirão entram no prólogo das coincidências macabras.
No auge da popularidade, Dilma surfava não apenas num momento de euforia presente, mas em uma perspectiva de futuro. Era retratada como a gerente de vassoura na mão que ejetava do Planalto qualquer auxiliar envolvido em suspeitas. As vassouradas pareciam abrir a trilha de uma mata fechada, mas deixaram de servir quando novos impasses se anunciaram – entre eles, o contínuo revisionismo sobre o papel de seu antecessor em nossas glórias e tragédias recentes.
No governo Lula, o pacto entre o setor privado e o Estado indutor do desenvolvimento gerou aberrações agora investigadas na Operação Lava Jato. Esse pacto financiou campanhas, consultorias e engordou as burras de feudos partidiários encravados em diretorias de sua maior estatal. Esse pacto, vale dizer, sempre existiu, mas foi muito bem assimilado pela gestão petista. Uma hora a conta estouraria.
As manifestações de 2013 colocaram as reivindicações populares em um outro patamar. Expuseram a necessidade de mudanças de um outro pacto, este sobre representantes e representados. As respostas dos primeiros foram vacilantes, e o apoio e paciência até então reservados à principal liderança política do país - que naturalmente passou a encarnar as agruras “da” política, não apenas de seu governo ou partido - também mudaram. Este apoio parecia ressurgir graças ao tempo de exposição utilizado na campanha para defender um projeto de país que agora se revela uma miragem.
Somada às revelações da Lava Jato e à desarticulação política, a distância entre o que foi dito na campanha e o que se anunciou da posse em diante fragilizou ainda mais o quadro de apoio da presidenta. Daí a aprovação bater agora a casa dos 10%. A cada dia parece mais distante, na memória do brasileiro, a imagem daquela liderança política que mostrava as credenciais e anseios de um país inteiro na Assembleia da ONU.
A crise secou um reservatório que escondia carcaças de erros econômicos grosseiros, mas a velocidade da deterioração política de um governo até ontem popular assusta qualquer otimista que segue agora na lista dos 10% de teimosos fiéis.
Para entender os efeitos dessa crise identitária na vida real, a declaração de Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz, à repórter Raquel Landim, na Folha de S.Paulo, soa como definidora: “Há dez anos, a inflação estava baixa, as contas públicas equilibradas e nós sabíamos o que viria pela frente. (…) Hoje não há confiança também porque o quadro político é muito complicado. O PSDB vota contra suas crenças e o PT também. Você acha que alguém vai investir nesse cenário?”
A insegurança é traduzida pela percepção dos eleitores segundo quem a situação econômica, a inflação e o desemprego vão piorar. Mais de 60% acham que o ajuste fiscal encaminhado pelo governo atingirá os mais pobres, justamente os que têm definido as últimas eleições em favor dos candidatos petistas.
“Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto e eu estou no volume morto”, desabafou o ex-presidente Lula em encontro com religiosos durante a semana passada. “Aquele gabinete presidencial é uma desgraça. Não entra ninguém pra contar uma notícia boa”.  
A última má notícia veio em forma de pesquisa. Numa eventual disputa pela Presidência, Lula e sua popularidade seriam igualmente tragados pela onda de irritabilidade que atinge seu partido. Se a disputa fosse hoje, ele largaria dez pontos atrás do principal nome da oposição, Aécio Neves (PSDB-MG). A crise não faz estragos apenas na vida real. Atinge também os seus mitos.




quarta-feira, 17 de junho de 2015


Para Renan Calheiros, decisão de TCU sobre Dilma tem de ser 'comemorada'

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), comemorou nesta quarta-feira, 17, a decisão tomada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) de pedir explicações à presidente Dilma Rousseff sobre as chamadas "pedaladas fiscais". Segundo Renan, isso mostra o fortalecimento dos órgãos públicos e dá "oportunidade" para que o governo esclareça o que aconteceu.
"Essa decisão é um avanço consagrado que devemos comemorar. Além disso, cria uma oportunidade para que as informações cobradas sejam prestadas e definitivamente se esclareça a questão", afirmou após se reunião com prefeitos para discutir a reformulação do pacto federativo.
Renan, que tem se afastado do governo e tentado imprimir uma pauta independente no Legislativo, afirmou que o momento é de "ativismo dos Poderes" e que, portanto, "é natural que o Tribunal de Contas também viva esse momento". "Eu acho que os Poderes estão cada vez mais tentando fazer a sua parte, cumprir a sua parte e isso é muito bom para a democracia", disse.
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), por sua vez disse defendeu que o Congresso Nacional passe a analisar as contas do governo federal. "O que precisa ser feito, até para poder emitir uma opinião, é o Congresso fazer o juízo das contas", afirmou.
Na manhã desta quarta-feira, o TCU adiou seu parecer sobre as contas do governo em 2014 e, numa decisão inédita, fixou prazo de 30 dias para que Dilma explique as irregularidades apontadas pela área técnica do tribunal. Uma dessas irregularidades são as chamadas "pedaladas fiscais", que consistiu em não registrar na dívida pública os passivos gerados pelos atrasos nos repasses do Tesouro a bancos e autarquias para bancar programas sociais, como o Bolsa Família.






sábado, 13 de junho de 2015


“Je suis um perigo”

Sou cristão batizado e crismado na igreja. Para onde vou, levo um escapulário e um terço que ganhei de minha avó. Por força e habito, me benzo quando passo em frente a uma igreja. E, como cristão, não me sinto em nada ofendido quando uma atriz realiza uma performance para me lembrar que, 2.000 anos após a crucificação de Cristo, muitos são os crucificados deste mundo. 
Existem muitas igrejas dentro da igreja. E muitos cristãos dentro do cristianismo. Da mesma forma, existem formas e formas de comunicar o sofrimento. Nos últimos dias, o que mais vi nas redes sociais foi uma tentativa abstrata de nomear um suposto mal-estar entre gays e cristãos. Como se numa “ponta” a outra não houvesse nada. Como se minorias fossem sempre e em todo lugar desrespeitosas com a fé alheia. Como se fossem, inclusive, indispostos a ter a sua fé. E como se um cristão não fosse capaz de provocar, ser provocado e decidir, por si, o que ofende e o que não lhe ofende.
Não preciso de líderes, nem políticos nem religiosos, para dizer com o que e como devo me ofender, mas posso dizer por mim. Dias atrás, ao voltar a uma igreja, ouvi um padre dizer, entre galhofas, como devo me comportar em casa. Entre risos, ele ensinava os fiéis homens a não brigarem com as companheiras quando elas pediam o cartão de crédito. Ensinava, aliás, a não brigar de jeito nenhum. A ser fiel a qualquer custo, a explodir por dentro, a orar em silêncio ao menor sinal de conflito. E a elogiar nossas pobres mulheres mesmo quando elas comportam “uns quilinhos a mais”. 
Não sei se, retratadas como figuras interesseiras, incapazes e com prazos de validade, as mulheres daquela igreja que tinham mais a fazer além de pedir o cartão dos maridos se ofenderam com aquela fala. Eu me ofenderia. Como me ofendo ao saber que as transformações do meu corpo são citadas no altar como sintoma de uma decadência que deve, na melhor das hipóteses, ser suportada e empurrada com a barriga. 
Sem querer, o padre me dizia para evitar dizer o que pensamos e sentimos em nome de um pacto. Era a benção para morrermos infelizes, se fosse o caso, mas em paz com nossos conflitos – afinal, se é proibido reclamar, todas as vontades e violências a quatro paredes estavam referendadas. Não é nada disso o que busco quando vou a uma igreja, mas este é assunto para outra crônica. Esse padre, afinal, não era “A igreja”. Era um homem, adulto, que jamais se casou, falando algo sobre o qual desconhece. Faz parte.
Fato é que essa demonização do confronto, comum dentro e fora da sacristia, cria uma falsa sensação de conforto. Mais do que isso, evita o desconforto de ver e a rever as coisas com o olhar e a dor do outro. O desconforto de saber que nosso silêncio não é nada solidário com qualquer dor - esta é tolerada, desde que sofrida longe de nós. 
O combate a essa ideia, quem diria, aprendi na própria igreja. Aprendi ouvindo uma música a caminho da comunhão. Chamava-se “Pão da Igualdade” e dizia o seguinte:
Viemos pra comungar
Com a luta sofrida de um povo que quer ter voz, ter vez, lugar
Comungar é tornar-se um perigo
Viemos pra incomodar
A música fazia todo o sentido quando se falava em paz e acolhimento a partir do exemplo de quem desafiava os poderes e a hipocrisia de seu tempo. A partir dele aprendíamos que não é o alimento que entra no homem o que o torna impuro, mas o que sai de sua boca. 
Hoje muitos até podem se sentir constrangidos por professar a sua fé. Mas não podem dizer que esta fé, ao menos por aqui, não tenha voz, vez ou lugar. Basta ligar a TV. Basta saber que ninguém corre o risco de tomar um golpe de cadeado na cara ou ter a orelha arrancada pelo fato de carregar a Bíblia debaixo do braço ou andar de mãos dadas em direção ao templo. Nem vai ouvir “estou orando para que você mude” quando professar a sua fé. Nem vai ser chamado de “desvio”, “doente”, “decadente”. Nem vai ter de deixar a casa dos pais por vergonha. Nem terá de rezar sozinho em casa com medo de ser recriminado. Não aqui. 
Pelo contrário: as muitas igrejas hoje têm voz, têm vez, têm lugar, têm representação no Congresso, têm vendilhões (autorizados) no templo e têm isenção de César ao que é tributário a César. 
Tamanha presença não parece capaz de abrigar o desconforto de saber que, fora do altar, há quem não tenha voz, vez ou lugar. São calados diariamente pela violência e pelo constrangimento. No Brasil, parte significativa das empresas se nega a empregar trabalhadores gays. Travestis não podem estudar sem sofrer represálias de professores e colegas. Consequentemente, muitos não podem trabalhar. Nem frequentar espaços circunscritos às famílias ditas exemplares. Tipo o supermercado. Mas podem ser espancados e golpeados até a morte quando condenados a viver nas ruas. Tudo sob o nosso mais sacrossanto silêncio.
Comungar é tornar-se um perigo, me lembra a música da comunhão. É incomodar. E não tem nada mais incômodo do que lembrar que nossa devoção e adoração a símbolos sagrados não salva nossas multidões de carne e osso da crucificação. 
Meses atrás, meio mundo se sensibilizou com as mortes dos cartunistas do semanário Charlie Hebdo com a inscrição “Eu sou Charlie”. Agora, confusos entre o que é provocação e o que é intolerância, muitos reaparecem armados de linguagem bélica para dizer o que é e o que não é admissível em uma manifestação.
Nossa busca pelo conforto da alma nos leva à sensação de uma falsa simetria no mundo material: a de que todos têm a mesma chance e a mesma capacidade de destruição. E que todo o resto, inclusive a vulnerabilidade diante da morte e da violência humana, é “opção”.
De vez em quando alguém desce da cruz para nos tirar da zona de conforto e nos lembrar qual é o lado da história que morre. Morre quem decide amar e mudar as coisas. Como morria-se há 2.000 anos. 
Foto: Leo Pinheiro / Fotos Públicas
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5º Congresso do PT: novos impasses, velhos discursos




O PT é muitas vezes achincalhado por determinados setores da mídia, disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O jornalismo marrom de certos veículos deve ser responsabilizado toda vez que falsear ou distorcer fatos para caluniar, injuriar ou difamar. O domínio midiático por alguns grupos econômicos tolhe a democracia, completou o presidente do PT, Rui Falcão. “Eles tentam nos desgastar. É a tentativa de me separar [da gestão Lula], mas como é que eu posso ter conflito comigo mesma?”, finalizou a presidenta Dilma Rousseff.
A sensação de déjà vu ao ler as frases acima é compreensível. Elas fora ditas durante o 4º Congresso do PT realizado em setembro de 2011, em Brasília. Dilma Rousseff tinha oito meses de governo e uma popularidade significativa herdada de Lula, seu antecessor. Ela enfrentava a pressão da direção do partido por “medidas mais ousadas” do Banco Central para acelerar a queda da taxa básica de juros e reduzir a valorização do real frente ao dólar.
Como agora, era notória a diferença de expectativa entre governo e partido, que já falava em “ameaça à economia brasileira”.
O tema principal, porém, era a regulamentação dos meios de comunicação, que o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) jurava estar na pauta do governo.
Quatro anos depois, nada. A proposta seguiu em banho-maria, a taxação de grandes fortunas ficou pra qualquer dia desses, as taxas de juros se aceleraram, mas para cima. Carvalho deixou o governo, parte da cúpula petista foi condenada no STF pelo mensalão, o partido voltou ao centro das páginas policiais, desta vez por irregularidades na Petrobras, uma Copa do Mundo foi realizada, 8 dos 12 estádios têm prejuízo - um não foi sequer pago -, um punhado de obras viárias foi abandonada, os projetos estruturantes minguaram.
Na abertura do 5º Congresso, desta vez realizado em Salvador, Lula voltou a atacar a mídia e fez troça sobre as demissões nos principais veículos do país. “Esses veículos falam tanto do nosso governo, não são capazes de administrar a própria crise sem jogar o peso nas costas dos trabalhadores. E acham que podem ensinar como se governa um país com mais de 200 milhões de habitantes”, disse.
A conversa é a mesma de quatro anos atrás, mas o ambiente é bem outro. A estratégia pode animar a militância: apara dissidências dentro do partido e une suas frentes contra os adversários maiores: a imprensa e a oposição (quem acessou o site do PT pela manhã encontrava uma chamada de artigo com a hashtag#PSDBMassacraTrabalhadores).
Faz parte do jogo político, até porque a má vontade da imprensa com o partido é notória, mas ela não esconde a encruzilhada petista. Dilma, que há quatro anos se queixava das notícias sobre seu distanciamento com o partido e o antecessor, teve de conclamar a militância a sair em defesa do seu governo. Parecem lados distintos, e são: a articulação política está nas mãos do vice Michel Temer, do PMDB, a Fazenda é ocupada por Joaquim Levy, o Ministério da Agricultura, por Katia Abreu, e o das Cidades, por Gilberto Kassab.
Quem acompanhou o último Congresso lembra-se da cara de enfado da senadora Marta Suplicy. Ela puxa a fila de antigos símbolo petistas que deixaram o partido, hoje incapaz de fazer frente à onda conservadora de parlamentares dispostos a encarcerar adolescentes, definir a “cristofobia” como crime hediondo, diminuir a participação política do eleitor, instaurar o Estatuto da Família, precarizar o trabalhador.
“As circunstâncias impõem movimentos táticos para alcançar o objetivo mais estratégico, a transformação do Brasil em uma nação desenvolvida e mais justa”, disse a presidenta desta vez.
O discurso parece correto, mas poderia ter sido levantado na campanha presidencial. O que ela pede agora é o engajamento dos petistas para defender uma política econômica “firme com os fracos” e “frouxa com os fortes”. A definição não é de nenhum editorial de jornal, mas do próprio presidente do partido, Rui Falcão.
Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula




O PT pode recuperar sua popularidade?



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Como todos sabem o PT realiza por estes dias seu 5 Congresso em Salvador. Virou lugar comum dizer que o partido atravessa a pior crise de seus 35 anos de história. Pode ser.
Seja como for, o PT terá grande dificuldade para recuperar sua imagem junto ao público mais amplo, se é que um dia conseguirá. Com seu tesoureiro preso e a sigla exposta já há tempos a uma saraivada de denúncias, o PT como marca política parece irreversivelmente danificada a curto e médio prazos.
Apesar dos pesares, o PT ainda é, entre os partidos, o que tem mais simpatizantes no Brasil. Segundo o Datafolha de abril, 13% dizem preferir o PT, à frente de PSDB (7%) e PMDB (6%). Esse preferência, porém, já foi bem maior. Em 2010, no final de 8 anos de governo Lula, quase um em cada três brasileiros (29%) se diziam simpáticos ao PT.
A preferência ao PT evaporou em 5 anos. A popularidade do partido desabou junto com a popularidade de todo e qualquer partido político: atualmente 66% dos brasileiros rejeitam os partidos (antes eram 51%).
Será a rejeição ao PT ou à política como um todo?
Possivelmente as duas coisas, pois para muita gente, em especial os mais jovens, o PT é sinônimo de governo e de política. Sinônimo, pois, de tudo o que está errado (os serviços públicos ruins, a precariedade da saúde, a educação insuficiente), ao mesmo tempo que encarnação da “política”, essa instituição “maléfica”. Mas não apenas isto. No imediato o PT paga o preço de seu principal erro político: não ter avisado à população, antes da eleição de Dilma, que seria necessário um ajuste na economia.
Mesmo assim, na última eleição 11,8 milhões de pessoas votaram em deputados federais do PT, superando o PMDB (10 milhões) e PSDB (9,1 milhões). Mas esses números também declinam: o partido elegeu menos deputados agora do que em 2010. Pela curva das preferências eleitorais, dificilmente o partido deixará de encolher nas próximas eleições municipais de 2016. 
Com ou sem PT, com ou sem os partidos atuais, os problemas e desafios brasileiros continuarão. Não se resolverão por mágica, muito menos sem conflito de interesses. Quem dará conta? Quem está aí para defender quais interesses? No que diz respeito ao PT, já foi mais fácil responder a esta pergunta. Talvez haja muito a ser recuperado antes da popularidade.
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quarta-feira, 3 de junho de 2015


Comercial de 'O Boticário' cria guerra de opiniões



Fim de linha: Blatter renuncia e convoca nova eleição para Fifa

 
- conteúdo Estadão



O terremoto que sacudiu o futebol mundial acabou derrubando Joseph Blatter: o presidente da Fifa não resistiu ao escândalo de corrupção e renunciou ao cargo nesta terça-feira, anunciando uma nova eleição até março de 2016.
O suíço, de 79 anos, que estava à frente da organização que rege o futebol mundial desde 1998, convocou um congresso extraordinário, para eleição do seu sucessor.
Blatter tinha sido reeleito para um quinto mandato na última sexta-feira, dois dias depois do escândalo estourar, com a prisão, a pedido da justiça americana, de sete altos dirigentes que tinham viajado a Zurique para participar do último congresso, entre eles o brasileiro José Maria Marin, ex-presidente da CBF.
- Príncipe Ali candidato -
Derrotado pelo suíço na eleição, o príncipe Ali Bin al-Hussein já está no páreo novamente, e está até disposto a "assumir a presidência imediatamente, se for solicitado", revelou à AFP o vice-presidente da federação jordaniana, Salah Sabra.
Blatter, que gostava de se comparar a um 'capitão que não abandona o navio', foi vítima de mais uma tempestade.
"Por mais que tenha sido reeleito, parece que não tenho o apoio de todos no mundo do futebol, por isso decidi convocar um congresso extraordinário e colocar meu mandato à disposição", explicou Blatter num discurso pronunciado na sede da entidade.
"Vou continuar a exercer minhas funções até este congresso e me concentrar na realização de reformas ambiciosas", acrescentou o cartola, antes de avisar que "a Fifa precisa de uma profunda renovação diante dos desafios que tem pela frente".
"O próximo congresso ordinário da Fifa estava marcado para o dia 13 de maio de 2016, no México. Esperar tanto tempo só teria empurrado para mais tarde os problemas, por isso pedi a realização de um congresso extraordinário", justificou.
De acordo com Domenico Scala, presidente da comissão de auditoria da Fifa, o novo congresso acontecerá entre dezembro deste ano e março de 2016.
Após o anúncio da renúncia de Blatter, a Procuradoria Geral da suíça afirmou que isso "não tem incidência sobre o processo penal" movido pelo Ministério Público do país.
Segundo o porta-voz da Procuradoria Geral, André Marty, "o presidente da Fifa não será interrogado neste momento" da investigação, mas "poderá ser no futuro, caso seja necessário.
- Platini sauda 'decisão corajosa' -
Opositor ferrenho de Blatter, o presidente da Uefa, Michel Platini, saudou a renúncia do suíço como "uma decisão difícil, corajosa, mas a decisão certa".
O próprio Platini já tinha pedido sua renúncia na véspera da eleição. "Eu pedi que renuncie, já é suficiente. 'Sepp' Blatter me escutou, mas disse que é muito tarde", revelou o ex-craque francês na última quinta-feira.
A renúncia de Blatter ocorre poucas horas depois de o jornal The New York Times acusar o secretário-geral da Fifa, Jerôme Valcke, de ter efetuado o pagamento de propina de 10 milhões dólares numa conta do ex-presidente da Concacaf, Jack Warner, para garantir seu voto na escolha da África do Sul como sede da Copa do Mundo de 2010.
A Fifa negou as acusações, afirmando que Valcke não tem nada a ver com este pagamento, que teria sido realizar para projetos de desenvolvimento do futebol no Caribe.
De acordo com a entidade, o dinheiro teria sido depositado na conta de Warner pelo argentino Julio Grondona, que faleceu no ano passado, e era presidente da comissão de finanças na época.
- Rancor -
Na última quarta-feira, a justiça americana, que pediu a prisão dos sete cartolas (inclusive Warner) anunciou o indiciamento de nove dirigentes da Fifa no total, além de cinco executivos de empresas de marketing parceiras da entidade.
São investigados casos de corrupção que movimentaram mais de 150 milhões de dólares nos últimos 25 anos, num esquema que chegou a ser chamado de "Copa do Mundo da Fraude" por Richard Weber, diretor da Receita Federal americana (IRS).
No mesmo dia, num caso distinto, documentos eletrônicos foram apreendidos na sede da entidade, com suspeitas de "lavagem de dinheiro e gestão desleal" na atribuição das Copas do Mundo de 2018 e 2022 à Rússia e ao Catar, respectivamente.
Apesar do escândalo, Blatter conseguiu se reeleger, e chegou até a insinuar que a investigação era motivada por um rancor dos Estados Unidos e da Inglaterra por ter perdido a disputa para sediar os próximos mundiais.
O suíço, que começou a trabalhar na Fifa em 1975, como diretor de desenvolvimento, tinha atravessado várias tempestades, mas o vento soprou forte demais, e precipitou o naufrágio de um dos cartolas mais poderosos da história do esporte.







Claudio Tognolli

Sigilo no BNDES: Dilma decretou porque, se libera, é acusada de gestão fraudulenta

Vejamos os números: o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) concedeu financiamentos de R$ 2,4 bilhões para as nove empreiteiras investigadas pela operação Lava Jato, entre 2003 e junho de 2014. Ao longo dos anos, foram 2.481 operações realizadas, sendo que 2.471, ou R$ 1,6 bilhão,  “financiamentos indiretos automáticos” (geralmente concedidos às micro, pequenas e médias empresas).
Tais operações não precisam passar por avaliação prévia do BNDES e possuem limite máximo de R$ 20 milhões em crédito. A empreiteira mais beneficiada por este tipo de financiamento foi a Camargo Corrêa, que conquistou R$ 502,5 milhões por meio de 857 operações, ou seja, média de R$ 586,3 mil por empréstimo.
A Odebrecht também conseguiu crédito alto: R$ 449,4 milhões em 412 empréstimos. Se considerada a média por operação, os financiamentos concedidos para a empreiteira foram os mais generosos, de R$ 1,1 milhão. Em seguida, no ranking, estão a Queiroz Galvão – a quem o banco concedeu R$ 401,2 milhões em 619 operações, média de R$ 648,2 mil por operação – e a UTC, que contraiu financiamentos com o banco no valor de R$ 134,2 milhões por meio de 410 operações, média de R$ 327,3 mil.
Concentração: Odebrecht e Embraer
Nos últimos cinco anos, apenas duas empresas concentraram os empréstimos com dinheiro público para financiar suas exportações. A verba vem do BNDES.
São elas a construtora Norberto Odebrecht e a fábrica de aviões Embraer. Sozinhas, as duas ficaram com 81% dos US$ 12,29 bilhões (R$ 27,2 bilhões) emprestados entre 2009 e o primeiro trimestre de 2014.
Esses dados foram investigados pelo jornalista Eduardo Militão, do Congresso em Foco. Segundo Militão, os valores foram desembolsados para financiar vendas de 83 empresas brasileiras no exterior, mas a maioria ficou com valores pequenos em relação às duas gigantes e mais três empreiteiras.
Segundo Militão, a Odebrecht lidera o ranking dos empréstimos captados no período, com US$ 5 bilhões, abocanhando 41% do bolo, para financiar suas exportações a governos e empresas estrangeiras. É seguida da Embraer, com US$ 4,9 bilhões (40%). Atrás, três construtoras: Andrade Gutierrez (US$ 802 milhões, ou 7%), Queiroz Galvão (US$ 254 milhões, ou 2,1%) e Camargo Corrêa (US$ 216 milhões, ou 1,8%).
A mamata
Até 2014, o BNDES amealhou R$ 323 bilhões em seu caixa. Juntados a outros R$ 165 bilhões (gerados do retorno da carteira de contratos) perfazem-se R$ 488 bilhões.
Essa grana vem da taxas de juros, face medidas provisórias, que legitimam o emprego de tilintantes do Tesouro Nacional para financiamentos tuletados pela União.
Como nossa grana foi parar nas mãos de empreiteiras fulminadas pela Lava Jato ?  Porque o decreto nº 6.322, de 21 de dezembro de 2007 teve uma alteraçãozinha: pela qual o BNDES poderia financiar investimentos de empreiteiras brazucas no exterior.
Depois desse ardil, o BNDES emprestou U$ 8,6 bilhões de 2003 a 2013. Dos U$ 8,6 bilhões emprestados pelo BNDES, Angola levou 33%, Argentina 22%, Venezuela 14% e Cuba 7%, perfazendo 76% do montante.
Dilma Roussef mentiu ao dizer que a Odebrecht dá garantias e lastro para essa grana. Por isso ela se nega a mostar publicamente esses dados.
Vou te explicar
No dia 21 passado foi sancionada a lei (13.126/15) que autoriza a União a injetar R$ 30 bi no BNDES. Da norma, oriunda da MP 661/14, foram vetados vários dispositivos, entre eles, o que visava acabar com sigilo das operações do BNDES.
O art. 6º da lei, que alterava a redação do art. 3º-A da lei 12.096/09, dispunha: “não poderá ser alegado sigilo ou definidas como secretas as operações de apoio financeiro do BNDES, ou de suas subsidiárias, qualquer que seja o beneficiário ou interessado, direta ou indiretamente, incluindo nações estrangeiras”.
Na mensagem de veto, a presidente Dilma ressaltou que o BNDES já divulga em transparência ativa diversas informações a respeito de suas operações.
Dilma afirmou que a divulgação ampla e irrestrita das demais informações das operações de apoio financeiro da instituição, conforme previsto no dispositivo, “feriria sigilos bancários e empresarias e prejudicaria a competitividade das empresas brasileiras no mercado global de bens e serviços, já que evidenciaria aspectos privativos e confidenciais da política de preços praticada pelos exportadores brasileiros em seus negócios internacionais”.
Além disso, Dilma afirmou que o referido artigo incorreria ainda em vício de inconstitucionalidade formal, “pois o sigilo das operações de instituições financeiras é matéria de lei complementar”.
Saiba porque Dilma vetou
Porque ela não quer tornar público que as empreiteiras não dão garantias sobre esses emprétimos. Se Dilma torna a operação transparente, ela é derrubada do poder.
Em que parte da lei? No artigo Quarto: 
        Art. 4º Gerir fraudulentamente instituição financeira:
        Pena - Reclusão, de 3 (três) a 12 (doze) anos, e multa.
        Parágrafo único. Se a gestão é temerária:
        Pena - Reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.
Está provado como Dilma faz gestão fraudulenta. Está explicado o sigilo por ela decretado
Post Scriptum: É prevista para esta terça-feira a retirada do selo de “sigiloso” que limita a divulgação de informações em contratos de financiamentos do BNDES a exportações brasileiras de engenharia para Cuba e Angola. Segundo informações do jornal O Estado de S. Paulo, o ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro, é quem deve anunciar a abertura de dados, colocados sob sigilo pelo então ministro Fernando Pimentel, sob a alegação de se tratar de exigência dos países financiados.
Com isso, devem ser disponibilizadas no site do banco de investimento informações restritas de todos os contratos de financiamentos celebrados pela instituição, exceto os chamados repasses automáticos, operados por bancos privados
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O problema não é abrir ou não abrir os contratos desse ou daquele país: é revelar que as construtoras não dão garantias ou lastro sobre os empréstimos tomados ao BNDES!!!