sábado, 27 de junho de 2015


Políticos dizem que repasses foram declarados à Justiça

 
    
 postado em 27/06/2015 08:07
 Agência Estado - EM.COM.BR
Brasília, 27 - A maioria dos políticos a quem Ricardo Pessoa, dono da UTC, diz ter entregado dinheiro nega que tenha havido caixa 2 e afirma que as quantias foram destinadas à campanha eleitoral via doação legal e constam nas prestações de contas apresentadas à Justiça Eleitoral. Advogados dos citados na lista divulgada pela revista

Veja

disseram ainda que não iriam se pronunciar porque não tiveram acesso ao conteúdo da delação premiada.

Em nota, o PT negou ter recebido dinheiro ilegal tanto na campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2006) quanto na da presidente Dilma Rousseff (2010). “A Secretaria de Finanças do PT informa que todas as doações recebidas pelo partido aconteceram estritamente dentro da legislação e foram declaradas à Justiça.”

O senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) afirmou que a quantia mencionada por Pessoa consta na prestação de contas de 2010 e disse não estar preocupado. “Quem tem que estar preocupado foi quem intermediou negócios do Pessoa com a Petrobras. Eu jamais teria condições de intermediar qualquer tipo de negócio dele com a estatal dada minha posição política.”

O senador Benedito de Lira (PP-AL) disse que o diretório do PP repassou à sua campanha a doação da Constran. “Nunca mantive contato com esse povo, o partido que fez a gestão junto às empresas.” Deputado Arthur Lira (PP-AL) afirmou, por meio do seu advogado, Pierpaolo Bottini, que não recebeu doação de Pessoa. Segundo ele, a acusação “não tem fundamento”.

O advogado dos senadores Edison Lobão (PMDB-MA) e Ciro Nogueira (PP-PI), Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, disse que vai pedir ao ministro do Supremo Teori Zavascki acesso à delação. “O País virou um país dos boatos. O Ministério Público diz que precisa refundar a República, mas essa boataria afunda a República.”

Deputado Júlio Delgado (PSB-MG) disse ser “mentira pura” declaração de que ele possa ter recebido propina ou caixa 2. “Nunca peguei dinheiro de caixa 2, a doação da UTC que entrou no caixa do partido foi toda por vias oficiais”, afirmou.

Em nota, o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE) afirmou que “todas as doações de campanha foram oficias e de acordo com a legislação eleitoral”. O senador Fernando Collor (PTB-AL) atendeu a ligação do Estado, mas antes de ouvir a pergunta desejou “um bom final de semana” e desligou. O prefeito Fernando Haddad disse que as doações e despesas de sua campanha foram devidamente declaradas à Justiça Eleitoral. O ex-senador Gim Argello (PTB-DF) e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado não foram localizados. As informações são do jornal

O Estado de S.Paulo

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Depoimento deixa governo sob tensão e Dilma convoca reunião

 
    

 postado em 27/06/2015 08:19 / atualizado em 27/06/2015 10:59
 Agência Estado - EM.COM.BR
Brasília - A presidente Dilma Rousseff convocou nessa sexta-feira à noite, 26, reunião de emergência com ministros, no Palácio da Alvorada, e preparou a estratégia de defesa política para o agravamento da crise após a delação premiada do dono da UTC, Ricardo Pessoa. O governo avalia que perdeu totalmente o controle da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, e teme que a delação de Pessoa acirre o clima de confronto, mas guarda como munição os nomes de adversários citados pelo empresário.

Dilma cobrou respostas rápidas dos ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) - que estava em agenda no Rio quando o escândalo veio à tona -, Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Edinho Silva (Comunicação Social). À noite, os três e o assessor especial Giles Azevedo foram chamados por ela para a reunião no Alvorada, que durou duas horas.

No diagnóstico do governo, o depoimento de Pessoa é mais uma pedra no caminho de Dilma, joga luz sobre o financiamento das campanhas do PT e pode ressuscitar a bandeira do impeachment.

Se isso ocorrer, porém, o Palácio do Planalto já tem o roteiro traçado para o contra-ataque. Ministros vão lembrar que o empresário apresentou uma lista “suprapartidária” de doações. De acordo com reportagem da revista Veja, Pessoa disse que também repassou recursos para campanhas dos senadores Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), Fernando Collor (PTB), Gim Argello (PTB), Edison Lobão (PMDB), Ciro Nogueira (PP) e Benedito de Lira (PP), além de dinheiro para deputados de outros partidos.

Aloizio Mercadante é, hoje, o ministro mais forte de Dilma e Edinho foi o tesoureiro do comitê da reeleição da presidente, no ano passado. Os dois garantem que as doações recebidas foram legais e registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas o governo admite não saber o que vem pela frente nas investigações.

A nova turbulência ocorre num momento delicado, no auge do distanciamento entre Dilma, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT. Além disso, o executivo Marcelo Odebrecht, dono da construtora Odebrecht e também preso, tem ligações com Lula, o que provoca ainda mais apreensão no Planalto.

“Não há saída individual. O problema não é o PT, não é a Dilma. O problema é que querem criminalizar o Lula e nos destruir”, disse o ex-presidente, falando na terceira pessoa. Lula estará na segunda-feira em Brasília, para se reunir com deputados e senadores do PT.

O depoimento de Pessoa causou tanta tensão no Planalto que, ao longo do dia, Dilma acionou várias vezes ministros e advogados. Pediu também para emissários conversarem com a equipe do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki, que homologou a delação premiada de Pessoa.

Nos bastidores, interlocutores da presidente compararam a nova crise a uma batalha sem fim. “É como se estivéssemos numa guerra e não conseguíssemos nem contabilizar os mortos para enterrar”, disse um ministro ao Estado, sob a condição de anonimato.



OAB pede a Moro devolução de arquivos de advogados da Odebrecht

 
    

 postado em 26/06/2015 21:31
 Agência Estado - EM.COM.BR
Curitiba e São Paulo, 26 - A Ordem dos Advogados Brasil, Seccional de São Paulo, comunicou ao juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Operação Lava Jato, que nas buscas realizadas na sede da Odebrecht, advogados da empreiteira 'tiveram seus locais de trabalho acessados pela Polícia Federal'.

A OAB assinala que os advogados da maior empreiteira do País não estão 'na condição de investigados'.

A ação da PF ocorreu na sexta-feira, 19, em meio à deflagração da Erga Omnes, 14.ª fase da Lava Jato, quando foi preso em caráter preventivo o presidente da companhia, Marcelo Odebrecht. A Odebrecht fica em São Paulo. Em petição a Moro, a Comissão de Prerrogativas da OAB/SP argumenta que 'evidentemente não tem a pretensão de se imiscuir nas questões fáticas do processo judicial, objeto da investigação deflagrada, mas não pode compactuar com nenhuma, rigorosamente nenhuma, conduta atentatória ao desimpedido exercício profissional, tutelado em Lei Federal'.

Inquieta a Comissão "notícia de que documentos profissionais relativos ao exercício da advocacia foram acessados e arrecadados na diligência policial'.

A Comissão destaca que no dia das buscas na Odebrecht, o próprio magistrado da Lava Jato 'desautorizou a apreensão de eventuais mensagens e arquivos dos gestores advogados quando pertinentes à relação cliente-advogado, no âmbito do direito de defesa'.

Ainda segundo a ordem de Moro, "para realizar essa tarefa, deve a autoridade policial realizar a extração dos dados no local, com o filtro necessário'.

"A atuação desta Comissão se faz premente em garantia aos direitos profissionais de seus membros, como, aliás, lhe impõe a Lei", diz o advogado Ricardo Toledo Santos Filho.

A Comissão informa Moro que, por volta das 7 horas da manhã do dia 19, recebeu ligação 'dando conta de que agentes da Polícia Federal, no cumprimento de mandados de busca e apreensão estariam tentando acessar os arquivos, físicos e digitais, de alguns advogados que também lá exercem suas funções no departamento jurídico da empresa'.

Um advogado da Comissão, Airton Martins da Costa, assessor plantonista, foi à Odebrecht 'para acompanhar a regularidade do ato e certificar-se de que os direitos e prerrogativas advocatícias seriam preservados'. A Comissão de Prerrogativas relata que, ao chegar à empreiteira, Airton Martins da Costa tomou ciência dos mandados de busca e, como não figurassem os advogados como os verdadeiros investigados da operação deflagrada, manteve contato com o delegado que presidia a diligência, Eduardo Mauat da Silva.

A Comissão destaca que foi informado ao delegado que, embora os advogados Marta Pinto Lima Pacheco, Eduardo Oliveira Gedeon e Guilherme Pacheco de Brito constem como diretores formais de empresas (coligadas da Odebrecht) nos mandados de busca e apreensão, estes efetivamente atuam na função de advogados, exercendo a profissão na assistência jurídica à demanda interna, como também, exercem seu mister advocatício em contato com parceiros de fora do Grupo Odebrecht'.

"Especificamente em relação à advogada Marta Pinto Lima Pacheco e Eduardo Gedeon, a autoridade policial foi avisada ainda de que eles eram os patronos da Odebrecht responsáveis pela representação dos interesses da empresa em alguns procedimentos estratégicos da companhia de caráter judicial, incluindo casos de natureza penal, e, em especial, na Operação Lava Jato, a mesma de onde originou a diligência então em andamento", assinala a Comissão de Prerrogativas. "Mais do que isso, foi ainda o delegado de Polícia Federal certificado de que tais advogados eram as pessoas que mantinham contato com os criminalistas representantes da empresa que cuidavam de seus interesses no mesmo caso judicial, os quais, aliás, estavam presentes naquele ato em andamento."





Ronaldo Caiado diz que delação de Pessoa 'é a prova que faltava'

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 postado em 26/06/2015 21:31 - EM.COM.BR
 Agência Estado
Brasília, 26 - O líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), diz que a delação premiada do ex-presidente da UTC, Ricardo Pessoa, é a "prova" que faltava para que a Câmara dos Deputados abra um pedido de impeachment contra presidente Dilma Rousseff. Em sua avaliação, o conteúdo do depoimento do empreiteiro demonstra que campanhas eleitorais do PT foram financiadas com recursos "nada republicanos".

"Esse depoimento de Ricardo Pessoa é a prova de que as campanhas de Dilma foram irrigadas com dinheiro roubado da Petrobrás e tiveram fontes nada republicanas. Espero que a Câmara abra um processo de impeachment para investigar todo esse escândalo", afirmou.

Segundo Caiado, as informações de Pessoa são motivos "mais do que suficiente para Dilma perder o mandato e convocarmos novas eleições" .

Segundo revelou a reportagem, o engenheiro detalhou em depoimento de delação premiada que repassou R$ 3,6 milhões de caixa dois para o ex-tesoureiro da campanha de Dilma em 2010, José de Filippi, e o ex-tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, entre 2010 e 2014. Ele entregou aos investigadores uma planilha intitulada "pagamentos ao PT por caixa dois" que relaciona os ex-tesoureiros a valores.





Empreiteiro investigado na Lava-Jato cita Lula e Dilma em delação premiada

Empreiteiro afirma que abasteceu campanhas de 18 políticos com R$ 62 milhões desviados da Petrobras. Só de caixa 2 para o PT foram R$ 3,6 milhões. Dilma convoca reunião de emergência

EM.COM.BR

 postado em 27/06/2015 06:00 / atualizado em 27/06/2015 07:56
Marcelo Andrade/Gazeta do Povo -  6/2/15


Ricardo Pessoa entregou planilha com todos os valores e os destinatários



Curitiba e Brasília — A delação premiada do presidente da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), joga de vez o escândalo da Petrobras no Palácio do Planalto. Ao longo dos 27 depoimentos prestados ao Ministério Público Federal (MPF) na sede do Ministério Público Militar, para não chamar a atenção da imprensa, ele confirmou o pagamento de R$ 62 milhões em doações para políticos de diversas legendas. Só dinheiro de caixa 2 para o PT, foram R$ 3,6 milhões. A delação premiada atenua a pena dos réus, mas perde efeito se for comprovada alguma mentira.

Para a campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff, em 2014, foram destinados R$ 7,5 milhões, enquanto R$ 2,4 milhões irrigaram a reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006. Lula e Dilma aparecem ao lado de 16 políticos. Todos receberam recursos que, segundo o empreiteiro são do esquema que sangrou os cofres da Petrobras. Diante dos novos fatos, a presidente convocou uma reunião de emergência no Palácio do Planalto.

Parte da lista de Pessoa, divulgada na noite dessa sexta-feira (26) pela revista Veja, mostra doações oficiais registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segundo levantou o Estado de Minas. Porém, a tese dos investigadores da Lava-Jato, embasada em depoimentos e transferências bancárias, é que doações no “caixa 1” foram usadas para mascarar pagamentos de propina das empreiteiras do esquema.

Outros petistas são listados. Um pagamento de R$ 250 mil para a campanha do atual chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, quando ele disputava a eleição para o governo de São Paulo, aparece na planilha. Tesoureiro da campanha de Dilma em 2014, o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, teria recebido os recursos destinados à disputa eleitoral. Também receberam doações da UTC o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto (R$ 15 milhões); o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu (R$ 3,2 milhões); o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (R$ 2,6 milhões); e o secretário municipal de Saúde de São Paulo, José de Fillipi (R$ 750 mil).

Também são citados políticos do PTB, PP, PMDB, PSDB, PSB. O senador Fernando Collor (PTB-AL) recebeu, no total, R$ 20 milhões, o maior montante de todos. Uma agenda até então desconhecida do empreiteiro, planilhas e demais documentos de Pessoa – que, segundo as investigações, era o coordenador do cartel de construtoras que lesava a Petrobras – devem atormentar ainda mais o meio político.

Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, os pagamentos feitos pela UTC Engenharia ao PT sob forma de caixa dois, que somaram R$ 3,6 milhões, incluíram repasses em 2010, 2011, 2012 e 2014 nas mãos de Filippi – totalizando R$ 750 mil. Para Vaccari, foram R$ 2,9 milhões, divididos em parcelas em 2011, 2012 e 2013.

Por meio de sua assessoria, Mercadante disse desconhecer a delação premiada de Pessoa, mas afirmou que a “UTC, por ocasião da campanha ao governo do estado de São Paulo, em 2010, fez uma única contribuição, devidamente contabilizada e declarada à Justiça Eleitoral, no valor de R$ 250 mil”. E que a empresa Constran Construções, que pertence ao mesmo grupo, “fez uma contribuição, também devidamente contabilizada e declarada à Justiça Eleitoral, no valor de R$ 250 mil”.

Já Edinho Silva confirmou que esteve com o empresário Ricardo Pessoa por três vezes para tratar de doações de campanha. A primeira, no comitê em Brasília. Após esse contato, “o empresário organizou o fluxo de doações em três parcelas, que totalizaram R$ 7,5 milhões. Edinho garantiu jamais ter tratado de assuntos relacionados a qualquer empresa ou órgão público com o empresário, e lembrou que as contas da campanha presidencial de Dilma foram auditadas e aprovadas por unanimidade pelo TSE.

CAUTELA No Congresso Nacional, da oposição à base do governo, líderes dos partidos preferiram a cautela ao comentar a lista de políticos citados pelo executivo. Mesmo porque, os recursos abasteceram campanhas não apenas de petistas, mas de candidatos de outros partidos, sendo ao menos um senador do PSDB: Aloysio Nunes (PSDB-SP), que assumiu ter recebido R$ 200 mil de forma legal. Deputados e senadores ouvidos pela reportagem disseram que é preciso aprofundar as investigações e saber o que é doação legal e o que é ilegal. O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), disse que as “informações merecem toda atenção e devem ser analisadas criteriosamente e com serenidade diante da gravidade que elas podem ter no quadro político nacional. O parlamentar ainda saiu em defesa de Nunes. “São doações ocorridas dentro da legalidade e integralmente declaradas à Justiça Eleitoral”, afirmou.

Pena máxima

A força-tarefa da Operação Lava-Jato pediu à Justiça Federal que quatro executivos da empreiteira Engevix e outros quatro réus sejam condenados à pena máxima de 30 anos de prisão e devolvam R$ 152 milhões aos cofres públicos referentes às propinas supostamente pagas pela empreiteira em contratos com a Petrobras. A solicitação foi feita nas alegações finais, últimos argumentos da defesa e da acusação antes da sentença, apresentada nesta quinta-feira, pelo Ministério Público Federal na ação contra quatro executivos da Engevix, incluindo o vice-presidente Gerson de Mello Almada e outros quatro réus: o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, o doleiro Alberto Youssef, Carlos Alberto Pereira da Costa, Enivaldo Quadrado – já condenado a três anos e seis meses de prisão no mensalão – e Waldomiro Oliveira, que atuavam para Youssef.




sexta-feira, 26 de junho de 2015


A serpente sem casca

por Roberto Amaral — publicado 26/06/2015 10h43 - CARTA CAPITAL
O nosso tea party impõe a pauta do atraso e aplica um golpe branco que agrava a ineficiência do Estado e aprofunda a crise política


Alex Ferreira / Câmara dos Deputados
A característica do ovo da serpente é a quase transparência de sua membrana, o que permite a quem o observe, conhecendo o embrião, antever a peçonha que, adulta, poderá picá-lo. Trata-se de bela e precisa imagem, que nos lembra, no presente, o que o futuro nos pode ameaçar. Ao observador sempre caberá a decisão de interromper ou não a gestação. Mas, a partir do conhecimento da ameaça, não mais lhe será dado o direito de, amanhã, ferido o calcanhar, arguir surpresa. Como na vida social, ao não intervir, o sujeito histórico opta pela cumplicidade.
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Ingrid Bergman, em filme notável, descreveu a vida do pós Primeira Guerra Mundial, o encontro da Alemanha com a República e a democracia representada pela Constituição de Weimar, mas, igualmente, a Alemanha dos ‘loucos anos’, de hiperinflação, fracasso industrial, desemprego, antissemitismo e xenofobia. Não por outro motivo o denominou de O ovo da serpente. Enxergava, naqueles tempos, o prenúncio que mais tarde conheceríamos como nazismo.
Lembro a onda absolutista-autoritária de desrespeito aos direitos humanos, à liberdade, que, intoxicada de violência e xenofobia, construiu a Segunda Guerra Mundial. Vimos naquela altura a construção do nazismo, do franquismo, do salazarismo, do stalinismo e da loucura em que se transformou o feroz império japonês. Sabemos que preço foi pago.
O movimento social, que se propaga em ondas, muitas vezes se processa em subterrâneos que não nos é dado pressentir. Nas vésperas do famoso maio de 1968, Daniel Conh-Bendit reclamava da pasmaceira da vida universitária francesa. Imprevistos foram a queda do Muro de Berlim, o suicídio da URSS e, respeitadas as distintas proporções, as jornadas brasileiras de junho de 2013, detonadas por aumento de alguns centavos nas passagens de ônibus em São Paulo. Tais fatos e movimentos, alguns de caráter revolucionário, não foram construídos. Explodiram. Hoje, antecipa o amanhã. Sem forma exata.
Nos tristes idos de 1954, a sociedade brasileira foi despertada para um ‘mar de lama’ que correria nos inexistentes porões do Palácio do Catete. A onda anti-varguista era promovida por uma oposição competente tanto quanto vituperina e inescrupulosa, que compreendia o Congresso, os partidos e, principalmente, a imprensa, atuando em concerto. Naquele então como agora. A deposição de Vargas passou a ser o alvo, o atentado, o grande pretexto. O desfecho faz parte da História.
Nos tristes idos dos anos sessenta, muitos liberais e democratas, que não haviam lido Brecht, engrossaram os arreganhos da direita que prometia cadeia para os comunistas e os corruptos, ‘encastelados no governo Jango’, cuja posse não haviam conseguido impedir em 1961. Nos primeiros momentos da ditadura, revelados seus propósitos, ainda assim nossos liberais não se sentiram ameaçados. Mas, insaciável, o dragão devorou todos.
O processo histórico não se move como uma equação algébrica ou uma lei da física. Não há leis determinando os fatos. Mas seu conhecimento ilumina ao caminhante as frentes por percorrer no presente.
Com a conhecida imagem do ovo da serpente procuro significar que estão dadas, para quem quiser ver, as condições para um perigoso processo de ruptura do pacto social que possibilitou a Constituinte quase progressista de 1988, agredida em seus aspectos mais socialmente avançados já a partir de sua promulgação, indicando de logo a resistência dos setores conservadores. Esse processo desconstitutivo atinge o paroxismo na atual legislatura parlamentar. Se o Congresso que aí está legitima os atos de seus líderes – evidência clara como a luz do sol – resta-nos a amarga indagação se esse caminhar representa também o pensamento majoritário de nossa sociedade. Se a conclusão plausível é pela coerência entre o pensamento social e a ação retrógrada do Congresso, perguntar-se-á, como desafio: como explicar as transformações que revelam o Brasil na contramão do avanço social medido a partir da redemocratização e da da Constituição de 1988?
O País vinha, conquista após conquista, avançando numa trilha iluminada por valores democráticos e progressistas. Um novo Brasil parecia nascer com as vitórias eleitorais da oposição; tinha-se a sociedade majoritariamente identificada em torno das campanhas contra a Tortura, pela Anistia, pelas Diretas-já, unificada na eleição indireta de Tancredo, no impeachment contra Collor e finalmente, nas eleições e reeleições de Lula e Dilma Rousseff. E no apoio popular a seus governos. Como explicar a crise de hoje, cujo ponto de partida é a desconexão entre o voto que escolhe o presidente e aquele que, na mesma eleição, preenche as cadeiras da Câmara dos Deputados? Como explicar que o mesmo eleitorado, na mesma eleição, consagre um candidato a presidente e eleja um Congresso que lhe será hostil?
O que pretendo pôr de manifesto é o subterrâneo da crise política, a saber, a falência do modelo de política e do modelo de Estado. Trata-se do fracasso do processo político eleitoral proporcional, fundado na farsa, na manipulação do poder econômico – que a direita quer aprofundar facilitando a contribuição financeira de empresas nas campanhas eleitorais e no financiamento de partidos e candidatos –, na manipulação do poder político, que distorce a vontade eleitoral. Trata-se da exaustão do ‘presidencialismo de coalizão’. Trata-se da necessidade de reforma de um Estado concebido para não funcionar, senão como conservador dos interesses da classe dominante.
A contrapartida do Estado infuncional é a incapacidade governativa, derivada do pacto imposto pelo ‘presidencialismo de coalização’, mas é igualmente a consequência de uma estrutura montada para impedir o fazer. Vivemos formal e objetivamente a grande crise constituinte, que nasce com o Estado brasileiro e a Carta outorgada de 1824.
Mas ainda não é tudo.
Fruto ou causa dessa ascensão conservadora, vivemos o encontro do esvaziamento da sociedade organizada – dominada por um certo niilismo – com a crise das instituições da República. O povo se ressente do Estado que não lhe assegura os serviços de que carece; não se identifica com o Poder Legislativo, que só legisla segundo os interesses dos parlamentares, e ao fim e ao cabo se sente frágil, à míngua de direitos diante de um Judiciário incompetente, de um ‘sistema’ que só pune os pobres. Dessa sociedade não se pode esperar a defesa da política, que jamais foi a forma de realização de seus interesses. Mas do progresso não pode cuidar a classe dominante, beneficiária e sócia de todos os desarranjos que contaminam a política e a coisa pública, privatizada, pois, na medida em que fracassam os meios republicamos, crescem as negociações de cúpula, no vértice do poder presidencial, onde se encontram líderes políticos e os representantes do grande capital.
A crise da política é a crise da representação que ilustra a crise constituinte, peças da grande crise do Estado, desaparelhado para gerir a sociedade emergente em meio à crise econômica alimentada por fatores internos e exógenos, condicionada pelos humores políticos e financeiros da globalização, um bem-sucedido projeto de poder das potências.
O plano interno parece repetir os ventos que sopram das metrópoles, com o avanço do pensamento e da prática de direita, que hoje domina a Europa, com a falência dos partidos socialistas e comunistas e a rendição de socialdemocracia. Aqui, com a renúncia da socialdemocracia que se transforma no baluarte do pensamento e da ação de direita, a falência dos partidos do campo da esquerda, o recuo do movimento social como um todo, notadamente do sindical, contido em reivindicações econômicas. Desapareceram as lideranças liberais e os quadros de esquerda minguam, como minguam as instituições e as lideranças da sociedade. É nesse vácuo – e não obstante o fracasso do neoliberalismo que detonou a crise econômica – que, lá e cá, crescem as forças da reação, do conservadorismo e da xenofobia. Mas não só o conservadorismo político-congressual-partidário, mas o pior de todos, o conservadorismo na sociedade.
Vínhamos de 12 anos de relativo sucesso de uma sequência de governos de centro-esquerda, que possibilitou a entrada de mais de 40 milhões de brasileiros na economia e no consumo, promovendo a mais notável ascensão social da história republicana. Hoje, esse governo sofre um cerco sem similar na história recente, hostilizado pelos meios de comunicação, hostilizado pelo mais poderoso  partido político da República (que participa do governo e comanda sua política...), hostilizado pelo Congresso (presidido pelo mesmo partido), finalmente, e por tudo isso, hostilizado na ruas.
Esse quadro ensejou a realização de um ‘especioso golpe branco’, volta a repeti-lo, de que resultou a instalação, em pleno presidencialismo, de um ‘parlamentarismo de fato’, mostrengo híbrido que, avançando sobre os poderes da presidência da República, agrava a ineficiência do Estado e aprofunda a crise política. Pois, presidido por um premier comprometido com o atraso fundamentalista de origem evangélico-pentecostal, governando contra o Executivo, o Parlamento cria dificuldades às nossas negociações com o governo chinês – de quem muito dependemos para sair da crise, via investimentos em nossa infraestrutura –, cria dificuldades à nossa participação no banco de investimentos que reúne a China e países europeus da área do euro, dificulta a vida dos BRICS, intenta desconstituir o Mercosul e torpedeia nossa política externa.
É o nosso tea party. No plano social, impõe a pauta do atraso, que compreende a diminuição da menoridade penal, a diminuição da menoridade para o ingresso no trabalho, a precarização do trabalho, a terceirização, o armamentismo, a intolerância à livre manifestação de crenças e credos e os diferentes tipos de discriminação.
Estamos diante do ovo da serpente, que nos antecipa, no presente, o que o futuro no reserva. Resta-nos enxergar as saídas que nos distanciem da premonição do que está sendo gestado. Esse o nosso desafio.
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