terça-feira, 1 de setembro de 2015



Cunha reúne-se com Dilma e se diz disposto a ajudar com Orçamento, mas mantém rompimento

  • UESLEI MARCELINO
BRASÍLIA (Reuters) - O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afirmou nesta terça-feira, após reunião com a presidente Dilma Rousseff, que está disposto a ajudar no impasse sobre a peça Orçamentária enviada pelo Executivo ao Congresso prevendo um déficit primário, mas disse que mantém a posição política de rompimento com o governo.
Cunha e Dilma reuniram-se na tarde desta terça-feira, no Palácio do Planalto, pela primeira vez após o anúncio do rompimento de Cunha, em meados de julho. Segundo o deputado, os dois trataram sobre a conjuntura atual e a peça orçamentária.
“Basicamente, a discussão foi sobre a situação, sobre Orçamento. Ela (Dilma) explicou a peça orçamentária, a gente debateu. Enfim, debatemos a situação conjuntural, sobre tudo”, disse o presidente da Câmara a jornalistas após o encontro.
O deputado frisou, no entanto, que “absolutamente nada muda” na sua posição política em relação ao governo.
Cunha disse, ao ser questionado se ajudará no impasse sobre o Orçamento, que “sem dúvida” vai coloborar numa solução. O envio de proposta orçamentária que prevê para o próximo ano despesas maiores do que as receitas levou a oposição a pedir sua devolução ao Executivo.
"As instituições têm que estar presentes para isso. Não pode jogar a responsabilidade nos nossos ombros, porque não fomos nós que geramos essa situação, mas temos que todos estar partícipes, todos nós sofremos as consequências daquilo que pode acontecer de ruim nas contas públicas”, afirmou.
Segundo o deputado, o que a presidente quis fazer foi discutir politicamente um problema, que está afetando as contas públicas do país. "Para politicamente ter um canal aberto para diálogo nas circunstâncias que forem necessárias, basicamente foi isso”, disse.
“Isso não quer dizer que vou ter posição de apoiamento, nem que voltei atrás no rompimento político... Mas isso não quer dizer que eu não vá conversar com ela ou que eu eu não debata a situação do país”, afirmou.
O governo federal apresentou ao Congresso na segunda-feira uma proposta orçamentária inédita para o ano que vem, com déficit de 30,5 bilhões de reais, em meio a um cenário recessivo e de dificuldades para aprovar medidas de ajuste fiscal.
PAUTAS-BOMBA
A conversa entre Dilma e Cunha durou cerca de meia hora e foi precedida de reunião entre o deputado e o vice-presidente da República, Michel Temer.
Segundo uma fonte do Planalto, o clima não era de confronto, mas Cunha teria avisado a presidente que a Câmara não vai assumir o ônus de propor cortes radicais ou novos impostos, embora tenha dito que a Casa vai colaborar.
O presidente da Câmara teria afirmado ainda que precisa partir do Planalto a orientação do que deve ser feito na peça orçamentária.
Dilma, por sua vez, pediu a Cunha que trabalhe com o Planalto para evitar o agravamento da crise, o que inclui evitar a aprovação de pautas-bomba.
(Reportagem de Maria Carolina Marcello e Lisandra Paraguassu)
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Renan diz que pediu a Dilma apoio incondicional à Agenda Brasil

De Brasília
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse nesta terça, 1º, ter pedido à presidente Dilma Rousseff o "incondicional apoio à Agenda Brasil", e afirmou que a série de medidas propostas para a tentativa de minimizar a crise econômica tem como principal objetivo evitar a perda do grau de investimento do País pelas ações de classificação de risco.
"A agenda de superação da crise precisa caminhar, já está saindo do papel e criamos hoje a comissão especial (para avaliá-la). É fundamental que haja o engajamento do governo para que a gente possa dar efetivamente os primeiros passos", disse. "O principal objetivo da agenda é trabalhar para reverter a perspectiva de perda do grau de investimento", completou.

Orçamento

Renan disse ainda que consideraria os apelos da oposição em reunião no Senado, mas repetiu que não iria devolver a proposta orçamentária entregue nessa segunda, 31, pelo governo. De acordo com Renan, caberia ao Congresso aperfeiçoá-la. "Desde ontem eu digo que eu não cogito devolver a proposta orçamentária. Eu acho que é papel do Congresso Nacional melhorá-la, dar qualidade e cabe ao governo federal sugerir caminhos para a superação do déficit", ponderou antes do encontro com os líderes oposicionistas.
Após a reunião, líderes de oposição relataram que o presidente do Senado se mostrou disposto a solicitar ao Executivo um aditamento à peça orçamentária, indicando onde os cortes poderiam ser feitos, para minimizar o déficit estimado em R$ 30,5 bilhões. Segundo os relatos, Renan concordou que não caberia ao Congresso decidir onde deve cortar gastos e teria sinalizado ainda que a proposta orçamentária poderia ficar paralisada até o governo definir os cortes.
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No Brasil, qual é a regra do jogo?

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Como todos sabem, estreou esta semana A Regra do Jogo, a nova novela das 21h da Rede Globo. Aparentemente será mais uma novela que pretende “retratar” o Brasil, para além do esforço da emissora de reverter audiências desfavoráveis. A novela anterior, Babilônia, perdeu para a rival Os 10 Mandamentos, da Record, em alguns dias, horários e praças como Recife e Belém.
Mas seja como for, na nova novela global estão um ex-político ambíguo, um jovem no presídio, uma jovem que confessa um roubo, uma oportunista, e por aí vai. O que parece dar a liga a esta galeria de tipos é justamente o nome da novela: a regra do jogo. Não sei o que será da trama nem de seu ibope, mas o título parece realmente sugerir algo sobre os tempos atuais. 
A política brasileira passa momentos de barata voa. O último episódio disso foi a entrega do Orçamento 2016 com previsão de rombo – o que na prática transfere o comando da gestão das finanças públicas de Dilma (a presidente) para o Congresso Nacional. Congresso dividido em 28 partidos, formado por federações de interesses, estando suas maiores legendas – PT, PMDB, PSDB – cindidas cada uma do seu jeito. O que cortar de gastos, o que gerar de receitas, como reanimar a economia, diminuir o desemprego, para onde vai o país? Qual é a regra do jogo?
De certa forma, ao passar adiante o Orçamento 2016 com rombo para o Congresso, Dilma explicitou a crise brasileira, levou-a a seu ponto de fervura. Como que se dissesse à sociedade e seus representantes (entre estes, ela própria): resolvam-se! Com seu estilo alheio, Dilma vai conduzindo tanto quanto é conduzida pela crise. 
No Brasil atual, porém, a regra nem o jogo parecem estar claros para nenhum dos jogadores – e isto é um baita problema ou que alguns chamam de “crise política”. Talvez seja algo mais profundo e menos circunstancial. Algo que tenha começado a se expressar lá atrás, nas manifestações de junho de 2013, quando foi escancarada a crise de representação na sociedade brasileira. 
Seja como for, com a renda das famílias caindo e desemprego subindo, o público tem pressa. Para eleitores e cidadãos a regra do jogo é aquela que lhes melhore a vida.
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Matheus Pichonelli

Como explicar a briga em torno de um boneco inflável a um estrangeiro?

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Imagine, de novo, um correspondente estrangeiro tentando explicar ao chefe baseado em seu país, por Skype, os desdobramentos políticos da última semana. Imagine a confusão para explicar a confusão em torno do “Pixuleco”, o boneco inflável do ex-presidente Lula que espalhou paixões e ódios por onde voou. Apenas imagine:
-Calma. Tenta me explicar de novo.
-É assim, chefe. No sábado, o ex-presidente disse que voltaria a voar. No domingo eu abri a janela e vi o sujeito voando. Era um boneco inflável. Achei que fosse uma grande sacada de marketing, mas não era.
-Precisamos de uma errata urgente. Quer dizer, então, que aquele boneco não era uma homenagem?
-Não. Pelo contrário. É uma forma de chamar o adversário de ladrão. Era golpe baixo mesmo, chefe. E caro, porque ninguém sabe quem pagou o boneco. Aqui as coisas são assim.
-Como vou explicar isso aos leitores? Você precisa prestar mais atenção…
-Mas chefe…até o delegado se confundiu. Quando o boneco foi rasgado, ele achou que o próprio ex-presidente tinha sido atacado por algum maluco. Mas quem atacou o ex-presidente, digo, o boneco do ex-presidente, eram os apoiadores do ex-presidente.
-O ministro que foi hostilizado em São Paulo era ministro mesmo ou era boneco também?
-Não, esse era ministro mesmo. De carne e osso.
-Mas os ministros não moram em Brasília?
-No Brasil ninguém mora em Brasília no fim de semana, chefe.
-E a presidenta, o que acha disso?
-Não temos ideia.
-E aqueles tuítes engraçadinhos?
-Não eram dela, chefe. É um perfil fake.
-Fake???? E as pessoas sabem disso?
-Sabem. Inclusive a presidenta. Elas são amigas. Digo, amigos. Quem escreve é um rapaz.
-Dela não tem boneco?
-Daquele tamanho, não. Parece que vão produzir.
-Quem? A oposição?
-Não, os apoiadores da oposição.
-Mas pra que boneco? Pelo que você diz, a situação dela está mais tranquila, né?
-Estava. Depois piorou.
-Como assim?
-Ela ganhou tempo para explicar as contas do governo. Mas as contas da campanha entraram agora na mira. São dois tribunais diferentes, chefe.
-E onde atual, afinal, aquele procurador com cara de quem acabou de acordar?
-Então: em tese, esse é o juiz.
-Como assim juiz? Não foi ele que pediu a investigação?
-Ele mesmo. Mas o procurador é o outro.
-O que disse que não tem nada a investigar?
-É…
-Mas esse não é o advogado?
-Não. Quem o chamou de advogado do governo foi o juiz da Suprema Corte, que aqui chamados de ministro, e que aqui acumula a função de ministro do Tribunal Eleitoral.
-Jesus amado…como vamos explicar isso?
-Vamos precisar de uma edição especial, senhor.
-E você acha que eu tenho papel e tinta sobrando, né?
-Então, chefe. Não dá pra cobrir o Brasil em papel. Temos de lançar um hotsite com atualizações diárias. O cara que tiver interesse vai lá, dá F5 e vê a mudança do jogo em tempo real, como fazemos com a tabela do Campeonato Brasileiro em dia de jogo. Aliás, precisamos de uma atualização urgente…
-Como assim?
-Então. Lembra daquela desenho sobre quem é quem? Precisamos mudar.
-O que você aprontou?
-Eu? Eu nada. Quem aprontou foram os caras. Sabe esse de óculos e nariz fininho que a gente citava como “oposição moderada”? Pois bem, no fim de semana ele chamou o partido do governo de “praga” que precisa ser eliminada.
-Mas o agressivo não era o outro?
-Pois é. Aqui existe uma briga dentro da oposição. Ganha quem for mais agressivo contra o governo. Se existissem primárias, venceria quem tem mais inseticidas. “Eu vou esmagar no chinelo”. “Pois eu vou explodir com bomba”. “Eu vou mastigar, cuspir e chutar”. Aqui as coisas são assim.
-E o agressivo, está quieto?
-Está mais calmo. Foi citado por um investigado na Petrobras como beneficiário do esquema. Mas ninguém deu muita pelota e ele, que não é bobo, ficou na dele.
-E a base do governo? Não reage?
-Que base?
-A base de apoio.
-Não conheço, senhor.
-Os empresários ainda apoiam a presidenta?
-Até a última matéria, sim. Mas aí a presidenta sugeriu recriar um tal de imposto sobre cheque e provocou uns ruídos…
-No Brasil ainda usam cheque?
-É só maneira de dizer. Era, na verdade, uma Contribuição Provisória Sobre Movimentação Financeira. Foi criada no tempo dos tucanos e, de provisória, virou permanente. Mas quando o PT assumiu, os tucanos ajudaram a acabar com ela. E agora barraram a recriação.
-E o governo tem bala para aumentar imposto a essa altura?
-Bala não tem. Mas não custava tentar. Ali ninguém sabe mais de onde cortar custos e gerar receita. Mas fica tranquilo: a proposta já caiu. A pauta também.
-Mas já?
-Já.
-Que rolo. Mas vem cá: o vice-presidente não ia dar um jeito nesses bate-cabeça? Ele não ia reunificar tudo?
-Parece que ia. Mas aí pediu as contas?
-Não é mais vice-presidente??????????????
-Não, não é mais o ministro da articulação política.
-Ele foi demitido?
-Na verdade ele nem tomou posse. Estava fazendo um bico. Mas na semana passada se demitiu. Disse que estava tendo trabalho demais na negociação com os parlamentares. E agora vai pra TV com uma conversa estranha…
-Que conversa estranha?
-A de que o Brasil precisa mudar. Isso porque ele é situação. Vai falar isso ao lado dos presidentes da Câmara, que é inimigo do governo, e do Senado, que ninguém sabe que apito apita.
-Eles que são os tucanos?
-Não. São do PMDB. Que deu origem aos tucanos. E hoje governam, ou deveriam governar, com o PT.
-E por que a conversa é estranha?
-Porque o dono dessa frase de que o Brasil precisa, quer e vai mudar falou isso em 1984. E nem está aqui pra se defender.
-Deixa ver se entendi. Os caras que estão defendendo mudanças são esses homens, brancos, adultos e de cabelo branco? Achei que eram mais…descolados.
-Imagina! Eles dizem isso há 30 anos. E sobreviveram a TODOS os governos desde a redemocratização. Esse que agora aliviou pra presidente, inclusive, foi ministro da Justiça do Fernando Henrique.
-Reunificação, mudar tudo para permanecer como está…acho que já vi essa história antes.
-Sim, no Lampedusa.
-De toda forma, quanto mais você fala, mais confuso eu estou. Você me prometeu um relato educativo.
-Chefe, você prometeu me enviar a um país sem conflito, sem chacina e sem furacão. Precisamos urgentemente de um DR.
-DR?
Sim. É uma sigla para “discussão de relacionamento”. É quando um casal decide rever os rumos. O meu é fugir daqui.


Foto: Página Oficial do Boneco Pixuleco no Facebook


Em SP, Moro nega que Operação Lava Jato vá mudar o país e convoca sociedade a se mobilizar contra a corrupção

Magistrado esteve na Procuradoria da República em São Paulo para palestra sobre lavagem de dinheiro
Este blog acaba de receber o seguinte relato do MPF paulistano. Confira:

O juiz federal Sérgio Moro afirmou que os brasileiros não podem ter uma confiança cega no futuro e acreditar que as investigações sobre o esquema de corrupção em estatais vá mudar o país. Moro esteve na Procuradoria da República em São Paulo nesta sexta-feira, 28 de agosto, para participar de uma palestra sobre aspectos legais relacionados à lavagem de dinheiro. Segundo o magistrado responsável pelos processos da Lava Jato em primeira instância, as mudanças necessárias estão muito além dos possíveis resultados da operação.
“O que muda o país são instituições fortes. É preciso promover mudanças políticas, legislativas, culturais. A sociedade tem condições de pleitear isso, muito mais do que os agentes públicos”, declarou o juiz. “Se o caso da Lava Jato contribuir de algum modo para esse processo, ficarei feliz.”
Moro ressaltou que o Brasil pode aprender muito com o exemplo da chamada Operação Mãos Limpas, que combateu esquemas disseminados de corrupção na Itália no início dos anos 1990. Os trabalhos tiveram início em Milão em 1992, com a prisão de Mario Chiesa, ligado ao Partido Socialista Italiano e acusado de receber valores indevidos. Baseadas em procedimento semelhante à colaboração premiada, as acusações se multiplicaram, levando à investigação de mais de cinco mil pessoas. A Mãos Limpas revelou um quadro de corrupção sistêmica na Itália, no qual o pagamento de propinas havia se transformado em prática usual para contratos públicos, com envolvimento direto dos maiores partidos do país.
No entanto, passado o choque que as prisões e os inquéritos causaram até 1994, a classe política passou a adotar medidas que reverteram avanços significativos da operação no combate à corrupção. Exemplos são leis editadas pelo parlamento que praticamente anistiaram vários envolvidos. Ao final, cerca de 40% dos casos levados à Justiça sequer tiveram o mérito julgado. “O retrato é de uma grande oportunidade de mudança que se perdeu. O Brasil deve ficar atento às lições que vêm da Mãos Limpas”, alertou Sérgio Moro.
LAVAGEM. Durante sua palestra, o juiz destacou dois pontos controversos a respeito da legislação que trata da lavagem de dinheiro. O primeiro deles se refere à conexão entre a prática de ocultação da origem dos valores e o crime que a antecedeu, para que fique caracterizada a lavagem. Em casos de corrupção, nem sempre esse nexo está presente, pois geralmente o corrupto recebe dinheiro limpo para então praticar o delito. No entanto, Moro mencionou julgamentos recentes no curso da Operação Lava Jato para demonstrar que, embora a lavagem não seja um pressuposto automático quando do pagamento de propinas, é possível a condenação por ocultação se houver um crime anterior associado ao suborno.
Ele citou a condenação de diretores das empreiteiras Camargo Corrêa e OAS pelos dois crimes (lavagem e corrupção), uma vez que os valores pagos ao ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa eram parcelas do montante adquirido ilicitamente por meio de formação de cartel e fraude em licitações. Ou seja, o dinheiro era sujo, e para que o suborno fosse pago, sua origem foi ocultada por meio de simulação de contratos de prestação de serviços e depósitos em contas sob controle do doleiro Alberto Youssef. Assim, ficou comprovado que a lavagem era uma prática intrínseca à consecução dos crimes antecedentes.
Outro ponto ainda não pacificado sobre as condenações por lavagem de dinheiro, segundo Sérgio Moro, está relacionado à autoria da ocultação da origem de valores ilícitos. Em delitos complexos, a lavagem frequentemente é feita por outra pessoa que não o autor do crime principal, em uma espécie de “terceirização” da prática. A participação de doleiros nessa etapa é o exemplo mais comum. Quando o agente responsável pela ocultação sabe a origem irregular do dinheiro com que está lidando, torna-se autor da lavagem, na modalidade dolosa. No entanto, o impasse surge quando o agente não tem conhecimento sobre a procedência ilegal da quantia.
Nesses casos, Moro frisa que é possível condenação por dolo eventual: o infrator assume o risco de compactuar uma prática potencialmente ilícita, ainda que não esteja ciente dessa ilicitude no momento em que aceita prestar o serviço. Há, porém, divergências sobre a aplicação desse entendimento. “Ainda não temos muitos precedentes, a jurisprudência quanto a essa questão é escassa”, ponderou o juiz.


Se eu fosse você, OU a crise é tão aguda que Laerte e Reinaldo Azevedo trocam de personalidade

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Ao desenvolvimento da crise do governo Dilma, parece se aplicar o paradoxo da dicotomia do filósofo Zeno. A cada ponto do processo se está a uma fração menor do desenlace. A fração é cada vez mais minúscula, mas alguma fração continua sempre se interpondo, e o desenlace nunca chega.
Evidentemente não é assim que a realidade se apresenta – mas é assim que a elite (econômica, política, midiática) se comporta. Como se fosse sempre melhor tentar ainda algum tipo de acordo, sem precipitar a ruptura, e o consequente trauma (perda do controle… deles mesmos). Para azar da elite (e sorte do país), a inabilidade arrogante do governo Dilma o leva a tentar cada passo só depois que ele não é mais possível.
O aperto econômico tinha que ter vindo antes da reeleição (mesmo que a colocasse em risco). Prestigiar Temer, antes que a relação com o PMDB apodrecesse completamente. Procurar o PSDB para o diálogo, antes que isso soasse um pedido de socorro patético ao adversário. Reconhecer os méritos de propostas da oposição, como enxugar a máquina estatal, antes que isso fosse impossível de executar sem romper os últimos fios de sedução da base.
Não creio que nada disso tivesse dado certo – como eu já especulava em fevereiro, no texto Dilma está errando… porque não tem como acertar, já era difícil projetar algum cenário confortável para o governo. A necessidade de combinar políticas econômicas conservadoras com acenos ideológicos às organizações sociais já seria de execução quase impossível – se o governo não fantasiasse ainda por cima uma potência e uma legitimidade que nunca teve.
O que Dilma e seu governo conseguem criar é uma trincheira de defesa cada vez menor e mais radicalizada, com argumentos cada vez mais sectários e irrealistas, desqualificando violentamente o que soar como oposição. Tudo em nome de uma suposição romântica: a “justeza” das suas intenções, que o conectam epicamente com uma onda “do bem” que vencerá no final. Como no paradoxo de Zeno, esse é um espaço psicossocial cada vez mais exíguo. A diferença é que em algum momento o que Bob Fernandes chama de “alarido redutor de tudo, hipócrita e profundamente revelador da dimensão da mediocridade” implodirá.
Para o observador atento, os choques entre a turma “do bem” (esquerda) e a turma “de bem” (direita) ficam cada vez mais caricatos. A saída para a melancolia é enxergar o absurdo – e, por extensão, a graça – da coisa. Um embate dos últimos dias foi muito sintomático. O quadrinista Laerte publicou uma charge infeliz no dia 18, a terça feira após as manifestações do domingo contra o governo.
No desenho, reproduzido acima, três PMS com máscaras saem de um bar com um rio de sangue que representa um dos locais da chacina de Osasco, em que 18 pessoas foram assassinadas, no dia 13. E caem direto nos abraços de manifestantes anti-Dilma. Reproduzo um trecho da (justa) reclamação publicada na coluna da ombudsman da Folha de S. Paulo: “Não entro no mérito da discussão ideológica. Explico sempre que cartunistas pertencem ao território franco da opinião e têm ampla liberdade de expressão (…) Sempre fui fã de Laerte, para mim, a pena mais inquieta de um trio genial, complementada por Angeli e Glauco (1957-2010). Laerte é cartunista com autonomia de voo ímpar, capaz de transitar com desenvoltura por temas muito díspares, ainda que sua produção nos últimos anos tenha enveredado por uma trilha irregular e mais hermética (…) Não há como negar, contudo, que ela pesou a mão. Quando o reducionismo é demasiado (e acho que foi), a mensagem perde o refinamento e descamba para o estereótipo (…) O leitorado mais equilibrado não engole essa dicotomia simplista”.
Ao contrário da ombudsman, acho que a fase “hermética” de Laerte o colocou, sem meias palavras, no território da genialidade. Escrevo genialidade com gosto, e com todas as letras. Por isso mesmo, é esquisito que Laerte tenha sido convertido a esse binarismo pouco usual, que quer afirmar que ser anti-Dilma é igual a ser apoiador de assassinos de moradores da periferia. É preciso proteger Laerte dele mesmo. Entendo que uma mente distorcida da pretensa “turma do bem” enxergue assim, mas qualquer pessoa medianamente desanuviada entende que a oposição a Dilma já tomou amplos setores da sociedade – o que inclui as classes menos favorecidas, e a periferia. Pelo contrário, a maioria dos anti-Dilmistas pensa em si mesma como defensora da legalidade – tanto quanto a “turma do bem”.
Como seria de se esperar, a charge mereceu um ataque do colunista de direita Reinaldo Azevedo. Sem ser tacanho como, por exemplo, Rodrigo Contantino (cuja desinteligência emocional eu comento aqui, em O filósofo e a arte de não pegar ninguém), Reinaldo se caracteriza por um texto em geral raivoso e moralista. E sem os arroubos bizarros e engraçados de um Olavo de Carvalho, que comentei neste outro texto, Dilma, Olavo e o pipiu do Jô.
Assim foi. Numa postagem em que chamava Laerte de “baranga moral”, Reinaldo questiona o posicionamento “lésbico” do desenhista, comparando-o com a desonestidade política da charge. A réplica de Laerte foi provocativa, num post do facebook: “Esse cara me dá um tesão desgraçado (…) Nessas noites de frio que vem fazendo eu fico embaixo das cobertas e, como diria o Henfil, peco demais”. Até aí, era o roteiro usual, o Laerte e o Reinaldo conhecidos batendo boca.
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A tréplica, no entanto, foi inesperada, meio como se Reinaldo tivesse aprendido algo da desibição de Olavo de Carvalho. Em Para matar Laerte de tesão, Reinaldo publica fotos suas quando jovem trotskista, dizendo que “não fica bem Laerte exercer o sexo solitário pensando num senhor de 54 anos. Ofereço duas fotos de quando eu tinha 20 para fazê-lo sonhar com mais colágeno, né? Afinal, masturbação não tem tempo histórico. É possível se excitar até com Robespierre e com Marat, sem as perebas. E olhe, Laerte, que eu declamava ‘O Programa de Transição’ de cor e salteado”.
Para inquietação dos fãs de Laerte, é como se eles tivessem trocado de personalidade: se Laerte foi praticamente um Reinaldo ao desenhar sua charge linear e grosseira, Reinaldo foi quase um Laerte ao responder com seus “nudes da alma”, fotos de sua juventude humanista. Eu diria que a recém-descoberta descontração da direita (e a ansiedade governista) tem a ver com os estertores do projeto petista.
E a gente, que consegue não ver a evolução (ou involução) da situação política como um torcedor de futebol, tem uma chance de aproveitar estes tempos estranhos.
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