domingo, 3 de janeiro de 2016


Livro sobre João Santana mostra táticas que marqueteiro adotou para desestabilizar adversários de Dilma

Obra foi escrita por Luiz Maklouf e chega nesta sexta-feira às livrarias, pela Record 

 

por
RIO - “Os candidatos são tão humanos e muitas vezes mais frágeis do que o eleitor. Ninguém gosta de levar porrada. Ou se enfurece e reage, ou se quebranta”.
Que o digam Marina Silva e Aécio Neves. Contra o ex-governador de Minas, o marqueteiro João Santana — autor da análise acima — saiu-se com acusações de nepotismo em 2014, quando Santana fez a campanha do PT. O tucano acabou chamando Dilma Rousseff de “leviana”, no que se voltou depois contra o próprio Aécio: o PT passou a insinuar que, com isso, o senador teria mostrado que era agressivo com mulheres. Já Marina levou porque chorou — virou aquela que não aguenta a pressão, e onde já se viu isso numa candidata a comandar o país. As estratégias para a reeleição de Dilma — quando Santana, então, passou a ter em sua conta a vitória de sete presidenciáveis — estão em “João Santana: um marqueteiro no poder”, de Luiz Maklouf, que chega nesta sexta-feira às livrarias, pela Record.
Na avaliação do marqueteiro e jornalista, o pensamento de que quem bate perde eleição é falso, pois perde é quem não sabe bater ou se defender. “A política é, ao mesmo tempo, a sublimação e o exercício da violência”, diz.
Para a obra, um “perfil biográfico” de Santana, Maklouf conversou com gente que conviveu com Santana na juventude, no trabalho na grande imprensa e em campanhas, além de ter entrevistado o próprio marqueteiro.
Em determinados momentos, “é mais tático você influenciar os adversários do que o eleitor”, resume Santana. E desestabilizar a concorrência foi o objetivo com os ataques, por exemplo, a Marina Silva. Quando ela assumiu a cabeça de chapa do PSB, após a morte de Eduardo Campos — e as pesquisas passaram a fazer de Marina uma rival a ser batida —, o marqueteiro a avaliou e deu o diagnóstico: ela tinha “queixo de vidro”. Mas, garante ele, o embate foi “100% político e 200% programático. (...) Marina não revidou ou por ingenuidade, ou por fragilidade teórica, ou por soberba. Talvez mais por soberba”.
— A campanha de Dilma em 2014 foi o exemplo completo de uso do marketing selvagem e do poder econômico numa eleição — disse ao GLOBO Bazileu Margarido, porta-voz da Rede e que participou da campanha da ex-senadora, ao comentar as declarações de Santana no livro.
Os ‘superbombardeios’
Também segundo Maklouf, foi Santana o primeiro na campanha petista a dizer que não seria Marina a companhia de Dilma no 2º turno, mas, sim, Aécio. E o queixo mineiro não era de vidro; contra ele, argumentou o marqueteiro, a presidente tinha de ser mais propositiva. Os ataques mais duros ao senador, que havia perdido para Dilma em sua própria terra no 1º turno, viriam no final: “a ação negativa (contra Aécio) deveria ser feita em ‘ondas superconcentradas’ (...). Ou seja: escolher determinados dias e temas para superbombardeios”. Foi assim que os brasileiros começaram a ouvir, sobre Aécio, que “quem conhece não vota”.
“Aécio quis se fazer de vítima e de superior (...). Chegou a lançar um slogan ridículo e inócuo: ‘A cada ataque, uma proposta’. Isso não produziu nem defesa, nem proposta”, diz Santana.
No dia da votação, Dilma não fez discurso de derrota. Quando saiu o resultado, e ao se preparar para a 1ª aparição como reeleita, ela recorreu ao marqueteiro: “Vou com roupa de que cor?”.
O início da relação entre a petista e o baiano de Tucano — onde deu Dilma — não foi tranquilo. Em 2010, ao debaterem o 1º programa de TV, Santana conta que Dilma “achou a presença dela muito light (...). Eu disse que o protagonismo (dela) tinha que ser gradativo. Tive que ser duro”.
Apesar dos atritos entre a gerentona e o “voluntarismo” que Santana admite ter, ela se decidiu pelo baiano. Mas conversou com Duda Mendonça a pedido do amigo Fernando Pimentel — “a bicha mais invejosa que tem”, diz Santana. Além de frases do marqueteiro pontuadas por palavras pejorativas e xingamentos, o livro também traz trechos do romance de Santana, “Aquele sol negro azulado”, de 2002, a história de um casal.
Duda e Santana tinham sido sócios e rompido na campanha de Lula em 2002. Santana sairia. Lula “compreendeu, me deu um abraço e me presenteou com um comprimido enorme de Viagra’ ”, conta Santana. Ele voltaria a trabalhar com Lula em 2006, quando o reelegeu.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/brasil/livro-sobre-joao-santana-mostra-taticas-que-marqueteiro-adotou-para-desestabilizar-adversarios-de-dilma-15127616#ixzz3wDm2ri9v
© 1996 - 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

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João Santana mandando a real. E vai doer. Mas é preciso. É parte do aprendizado.

joaosantana
Pode ser reconfortante achar que o PSDB só perdeu por “urnas fraudadas”, quando na verdade teve uma derrota merecidíssima. Enfim, veja alguns trechos de matéria do Globo, Livro sobre João Santana mostra táticas que marqueteiro adotou para desestabilizar adversários de Dilma:
RIO – “Os candidatos são tão humanos e muitas vezes mais frágeis do que o eleitor. Ninguém gosta de levar porrada. Ou se enfurece e reage, ou se quebranta”.
Que o digam Marina Silva e Aécio Neves. Contra o ex-governador de Minas, o marqueteiro João Santana — autor da análise acima — saiu-se com acusações de nepotismo em 2014, quando Santana fez a campanha do PT. O tucano acabou chamando Dilma Rousseff de “leviana”, no que se voltou depois contra o próprio Aécio: o PT passou a insinuar que, com isso, o senador teria mostrado que era agressivo com mulheres. Já Marina levou porque chorou — virou aquela que não aguenta a pressão, e onde já se viu isso numa candidata a comandar o país. As estratégias para a reeleição de Dilma — quando Santana, então, passou a ter em sua conta a vitória de sete presidenciáveis — estão em “João Santana: um marqueteiro no poder”, de Luiz Maklouf, que chega nesta sexta-feira às livrarias, pela Record.
Na avaliação do marqueteiro e jornalista, o pensamento de que quem bate perde eleição é falso, pois perde é quem não sabe bater ou se defender. “A política é, ao mesmo tempo, a sublimação e o exercício da violência”, diz.
[…]
Em determinados momentos, “é mais tático você influenciar os adversários do que o eleitor”, resume Santana. E desestabilizar a concorrência foi o objetivo com os ataques, por exemplo, a Marina Silva. Quando ela assumiu a cabeça de chapa do PSB, após a morte de Eduardo Campos — e as pesquisas passaram a fazer de Marina uma rival a ser batida —, o marqueteiro a avaliou e deu o diagnóstico: ela tinha “queixo de vidro”. Mas, garante ele, o embate foi “100% político e 200% programático. (…) Marina não revidou ou por ingenuidade, ou por fragilidade teórica, ou por soberba. Talvez mais por soberba”.
[…] foi Santana o primeiro na campanha petista a dizer que não seria Marina a companhia de Dilma no 2º turno, mas, sim, Aécio. E o queixo mineiro não era de vidro; contra ele, argumentou o marqueteiro, a presidente tinha de ser mais propositiva. Os ataques mais duros ao senador, que havia perdido para Dilma em sua própria terra no 1º turno, viriam no final: “a ação negativa (contra Aécio) deveria ser feita em ‘ondas superconcentradas’ (…). Ou seja: escolher determinados dias e temas para superbombardeios”. Foi assim que os brasileiros começaram a ouvir, sobre Aécio, que “quem conhece não vota”.
“Aécio quis se fazer de vítima e de superior (…). Chegou a lançar um slogan ridículo e inócuo: ‘A cada ataque, uma proposta’. Isso não produziu nem defesa, nem proposta”, diz Santana.
Há momentos de dureza na abordagem adulta da política, e um desses momentos ocorre quando somos chamados ao despertar por adversários que, chegando até a ter pena do nível de incompetência alheia, dão algumas dicas.
Isso chega a lembrar uma cena do filme Indiana Jones e a Última Cruzada, onde um inimigo do jovem Indiana Jones lhe diz: “Ok, você perdeu essa, mas não precisa gostar de perder!”.
Às vezes é desagradável ouvir coisas assim, mas elas são úteis para o amadurecimento.
Claro que Santana fantasia ao negar que a campanha do PT fez uso profissional da baixaria. Mas está certíssimo ao dizer que a campanha do PSDB fez uso amador da mediocridade, conforme outra matéria, do Brasil247:
É mentira que nossa campanha tenha feito uso profissional da baixaria. Mas é verdade que a dele fez uso amador da mediocridade.
Eu complementaria melhor: a campanha do PT só fez uso profissional da baixaria por ter sido levada à isso pelo uso amador da mediocridade da campanha do PSDB.
Uma campanha que retruca assassinato de reputações com musiquinhas é patrocinadora da violência adversária. É a dinâmica do mundo animal, mais do que da guerra política.
E quanto à campanha de Marina? Esta também foi uma decepção, digna de vergonha eterna. Santana diz:
Marina não revidou as nossas críticas ou por ingenuidade, ou fragilidade teórica ou por soberba.
João Santana precisa de adversários que valorizem suas vitórias. Ele talvez esteja chateado por não ter feito o PT ganhar essas eleições. Na verdade, quem perdeu foi a campanha do PSDB. E a da campanha do PSB/Rede.

 Em tempo: o que João Santana disse não é nada que você já não tenha lido à exaustão neste blog, certo?




Até na resposta a João Santana, marqueteiro do PSDB demonstra mediocridade

paulovasconcelos
Ontem vários jornais publicaram entrevistas com João Santana para divulgação do livro “Um Marqueteiro no Poder”, de Luiz Maklouf Carvalho (que deve estar chegando por aqui em casa na próxima semana, via Amazon).
Nessas entrevistas, João Santana lembrou que na campanha o PSDB “fez uso amador da mediocridade”. Sobre o rival Paulo Vasconcelos (marqueteiro tucano em 2014), Santana disse que não passa de “um marqueteiro de segunda divisão (…) caindo para a terceira”.
Na verdade, as entrevistas de Santana têm despertado sentimentos ambivalentes no eleitorado de direita ou mesmo no eleitorado republicano em geral. Alguns o odeiam por ter jogado o jogo, e outros o admiram, esperando que a oposição passe a jogar as regras do jogo. Obviamente, estou no segundo grupo.
Um leitor mandou um ótimo vídeo resumindo muito bem como agiu a campanha do PSDB diante da campanha do PT:


Achei particularmente interessante ter a música do filme Mortal Kombat como fundo, com a frase “choose your destiny” (“escolha seu destino”) no início. Adaptando para a realidade da política, há quem escolha jogar o jogo político, e há quem prefira o auto-engano de fingir que este jogo não é importante. Escolha o seu destino…
Ao invés de reconhecer que tanto Vasconcelos como o PSDB escolheram seu destino (de perder uma eleição fácil), restou a amargura e o rancor contra quem jogou de acordo com as regras. E o fez muito bem, como Santana.
Em entrevista à Marina Lima, do Globo, Paulo Vasconcelos disse:
O João deu uma surtada! O chá de cogumelo da juventude fez efeito retardado. Deve ser o calor. A  eleição acabou e a disputa foi entre profissionais, entre CNPJs, não entre pessoas. Como ele pode dizer que nossa campanha foi mediocre? Na nossa atividade de marqueteiro, para o bem e para o mal, a eficiência se mede pelos números, pelo quantitativo. Nesse caso específico, quem mais ganhou votos foi o Aécio. Em apenas duas semanas, com ferramentas e tempos iguais, ganhamos 16 milhões de votos, e ele, com Dilma, ganhou 11 milhões de votos.
Tirando a piadinha do início, a análise é catastrófica. Primeiro, por que Aécio já começou o segundo turno herdando votos dos não-petistas, o que o fez estar na largada uns 3 ou 4 pontos à frente de Dilma. Segundo, por que de acordo com eficiência, estando Aécio na primeira posição, concluindo com uma derrota por 3%, isso só pode configurar um desempenho medíocre da campanha tucana mesmo. Terceiro, por que ele mesmo disse que haviam “ferramentas e tempos iguais”, o que demonstra de forma ainda mais cabal sua mediocridade.
Vasconcelos deve até ser um bom profissional. Mas não serve para a política. Talvez ele seja bom para campanhas de sabonete, cerveja e preservativos. Mas para política, é preciso de um outro tipo de habilidade que ele não parece ter.
Antes do segundo turno, nós éramos um time da série B jogando no campo adversário, com um terço do tempo e com a torcida contra. Conseguimos levar esse time da segunda divisão para a final do campeonato e perdemos nos pênaltis.
Não vamos distorcer os fatos. A campanha tucana foi mal desde o início, até antes de começar o primeiro turno. Foi por isso que o tucano foi levado, em determinado momento da campanha, a estar na série B. De novo, isso é demérito de marquetagem tucana, não um mérito.
E a “torcida” estava contra o PT, que tinha altíssimos níveis de rejeição antes do início do certame. Foi a campanha tucana que não soube aproveitar esta rejeição contra o PT e complicou uma eleição que deveria ser fácil para Aécio. Lembremos que o Brasil enfrentava (e ainda enfrenta) um gravíssimo período de crise e denúncias de corrupção em ritmo torrencial.
Alias, o desempenho de Aécio nos debates mostra que ele foi muito, mas muito superior aos marqueteiros do partidos, liderados por Vasconcelos.
Sejamos francos: perder nos pênaltis um jogo que era para ser ganho de goleada é algo para se tirar do currículo.
A única coisa que o marqueteiro não pode fazer é reescrever a História. Eu não quero levar para a minha biografia uma deselegância de responder ao João no mesmo tom. Os números estão aí. Dizer que fizermos uma campanha medíocre é chamar a maioria dos gaúchos e os 70% dos paulista que votaram em Aécio de medíocres. Isso é um desrespeito com o eleitor.
Eu votei em Aécio Neves, assim como toda minha família. E foi doloroso assistir o horário eleitoral do PSDB. Chegava a dar vergonha.
Não é que eu queira me gabar, mas sou um especialista no material de estrategistas da política, especialmente David Horowitz, e precisamente por isso eu assistia o horário eleitoral em agonia. A sensação era: “não é possível que de novo eles não vão disputar posições como ‘aprovado/rejeitado pelos seus’ ou ‘inimigo dos pobres’ ou ‘o adversário tem um Ministro da Fazenda que vocês devem temer'”.
Então, Vasconcelos, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Uma coisa é um eleitor do PSDB (e muitos deles eram apenas não-petistas), outra coisa é a campanha feita pelo partido. E é por causa desta campanha medíocre que o PSDB perdeu uma eleição que poderia ter ganho com um pé nas costas.
Antes da eleição eu dizia: “independentemente dos resultados, estas serão as eleições mais fascinantes da história da política nacional”.
Por que eu disse isso? Por que, enfim, teria ficado muito claro para uma parcela dos eleitores que existem regras a serem seguidas no jogo político. Regras estas que perfazem as ações na guerra política. E ter chance de vencer passa a ser puramente uma questão de escolha. Não há mais mistério. Não há mais direito moral para o lançamento de desculpas esfarrapadas. Há apenas a possibilidade da opção ou não de permitir que o apego à estratégia vença o ego de muitos que ainda preferem o auto-engano de achar que o PSDB mereceu vencer as eleições.
Eu vou além: se o PSDB tivesse vencido as eleições, talvez alguns pudessem achar que a campanha de Vasconcelos foi a correta. Não foi. Foi desastrosa. E era para Dilma ter vencido por uns 55% a 45%. A diferença foi apenas de uns 3% por causa de uma série de meteoros que cairam em cima dos petistas, especialmente as delações de Youssef às vésperas do pleito.
Essa é a grande divisão de nossa era: aqueles do nosso lado que ouvirão as palavras de João Santana e enfim aprenderão uma coisa ou duas (assim como já ocorreu com muitos leitores deste blog). Ou aqueles do nosso lado que rejeitarão qualquer tipo de aprendizado e continuarão achando que Vasconcelos foi algo melhor do que medíocre, optando pela ilusão de achar que a estratégia estava correta. Estes vão continuar nos atrapalhando…
Eu acho até que João Santana foi polido ao tratar da campanha do PSDB. Para mim, a campanha do PSDB foi um crime moral.



O marqueteiro que ensinou a elegância para João Santana



O marqueteiro que ensinou a elegância para João Santana

Jornal GGN - O marqueteiro da campanha de Aécio Neves (PSDB) rebateu, em declaração à Folha, as declarações de João Santana no livro-biografia lançado nesta sexta-feira (23). Na obra, Santana, que fez a campanha de reeleição de Dilma Rousseff ser vencedora, disse que Paulo Vasconcelos é um marqueteiro "caindo para a terceira" divisão. Para Vasconcelos, falta a Santana a "grandeza dos vencedores".

Publicitário de Aécio faz críticas a João Santana
Da Folha

"A deselegância é uma marca que eu não quero na minha biografia", disse o publicitário Paulo Vasconcelos à Folha, questionado sobre a declaração do rival João Santana de que ele seria "um marqueteiro de segunda divisão (...) caindo para a terceira".
Vasconcelos fez a campanha do senador Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência. Santana reelegeu Dilma Rousseff, em disputa muito acirrada. "Ele deve ter tomado um grande susto ao ver um time da série B, com metade do orçamento e do tempo que ele tinha, levar a partida pros pênaltis e perder só por um a zero", ironizou.
Os ataques de Santana foram registrados em livro do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, numa resposta à avaliação de Vasconcelos de que o PT "explorou a baixaria com profissionalismo" na disputa.

"A gente não consegue reescrever a história", rebate Vasconcelos. "Na campanha da Marta [Suplicy], que fez carreira na luta contra a homofobia, ele decidiu atacar com o preconceito. Marcou a carreira dela. Continuo achando o João Santana um grande profissional, mas falta à ele a grandeza dos vencedores", encerrou.



Kátia Abreu é o terceiro turno: entre PT e PT

alex_antunes
Alex Antunes
25 de novembro de 2014





A indicação da senadora pelo Tocantins Kátia Abreu para o ministério da Agricultura é, sim, digna de reclamação. Só não é digna de nenhuma surpresa. Representante do que o país tem de mais perigoso e atrasado, ela era possivelmente o nome mais certo para o ministério do segundo mandato da presidente. Quem votou Dilma votou Kátia, ponto.
Inimiga declarada dos índios, ambientalistas, quilombolas e trabalhadores rurais, apelidada Rainha da Motosserra e Miss Desmatamento, Kátia coleciona acusações de diversos calibres. Quer reverter a demarcação de terras indígenas e desqualificar a Funai. Legalizou a invasão de terras públicas na Amazônia. Como presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, luta contra a erradicação do trabalho escravo.
Tomou terras no Tocantins, participou do leilão para armar ruralistas contra os índios, defende o latifúndio improdutivo, tem dois irmãos envolvidos em flagrantes de escravidão no campo nos dois últimos anos. Lutou por um Código Florestal “flexível”, e defendeu em artigo o fim do salário mínimo e de direitos trabalhistas. Enfim, é a figura central do capitalismo mais truculento. Acontece que Kátia Abreu é, também, uma das figuras políticas mais próximas de Dilma Rousseff.
Em sua rápida trajetória política nacional, partindo do DEM, passando pela vice-presidência do PSD de Gilberto Kassab e desembarcando no PMDB, onde ainda é considerada “uma estranha”, Kátia deixou a oposição aguerrida ao PT para celebrar uma estranha aliança com a presidente. A crise que provocou sua saída do então recém-criado PSD foi exagerada, meio inexplicável. Não surpreenderia se houvesse a mão de Dilma nisso.
Feita sem consultas a ninguém, mas absolutamente dentro do esperado, a escolha de Kátia desagradou politicamente a base. Setores do PT protestaram (não o PT de Tocantins, onde a operação estava bem azeitada, como revela o suplente de Kátia, Donizeti Nogueira, para quem, humoristicamente, é “a elite” que fala contra Kátia). O PMDB protestou – só sossegou quando se assegurou de que a senadora não fará parte da sua cota no governo, e quer saber que ministério importante vai receber no lugar desse, já que a agricultura era da cota dos deputados do partido.
Kátia Abreu já avisou que vai ser presidente do país. Falou isso em entrevista ao jornal inglês The Guardian – que a chamou de “parlamentar mais perigosa do Brasil”. E parece ter em Dilma sua mais forte aliada. Sabe-se lá o que Dilma está pensando para as eleições presidenciais de 2022, ou 2026 (já que as de 2018 estão “reservadas” para a devolução ao padrinho Lula). De novo, não surpreenderia se Dilma estivesse se imaginando como mentora da Presidente Kátia. Os sinais de gratidão de Kátia a Dilma, que de certa forma também nunca deixou de ser uma estranha no PT, são constantes e inequívocos.
Tudo isso, obviamente, se dá na contramão do “PT de esquerda” que foi vendido na campanha eleitoral. Mas campanha é campanha, governo é governo. O eleitor dilmista que caiu no “transe esquerdista” está tendo que encarar muito rapidamente a realidade. As opções para a equipe econômica são de fazer inveja não a Marina Silva (que foi acusada falsamente de “candidata dos banqueiros”), mas ao próprio Aécio (Joaquim Levy colaborou com a campanha do senador mineiro).
A inédita desonestidade e a chantagem social da campanha petista é bem analisada em entrevistas não só com o marqueteiro de Aécio, Paulo Vasconcelos, mas também com um eleitor no segundo turno da própria Dilma, o sociólogo Rudá Ricci – que descreveu o método de desconstrução dos adversários pela “demonização”. O susto do eleitor dilmista e das organizações de esquerda ao acordar com a indicação da direitista mais truculenta do Brasil tem o tamanho desse engodo. E as reações têm sido intensas.
O caso Kátia Abreu, na verdade, representa o verdadeiro terceiro turno das eleições. Não entre PT e PSDB que, como acabamos de conferir, têm as mesmas concepções econômicas e o mesmo carinho pelo assim chamado “mercado”. Mas entre os dois PTs: o de verdade, pragmático no modo de governar, e o fantástico “PT de esquerda” que foi vendido na campanha. O caso também poderia ser chamado de “Dilma e seus dois amores”. Lula ou Kátia? A burocrata Dilma parece empenhada em interferir nas próximas eleições presidenciais mais até do que se espera dela (seguindo os passos de seu mentor Lula, que também “criou” Marina e Eduardo Campos). A acompanhar.
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Saiba porque Dilma citou "alma coletiva" em seu discurso de posse

claudio_tognolli
Claudio Tognolli
2 de janeiro de 2015

NINGUÉM reparou no seguinte trecho do discurso de posse de Dilma:
“O nome de milhões de guerreiras anônimas que, voltam a ocupar, encarnadas na minha figura, o mais alto posto de nossa grande nação.
Encarno outra alma coletiva que amplia ainda mais a minha responsabilidade e a minha esperança”.

Note bem o termo empregado: alma coletiva. O ghost writer do discurso de Dilma deixou bem claro a quem o termo alma coletiva se endereça.
Quem entende o mínimo de história do Brasil, e o mínimo de filosofia, deve ter tido um repuxão, um vazio no fígado, um bolo duro na garganta, ao ter ouvido o termo. Porque “alma coletiva” é definição empregada pelo nacional-socialismo, pelos nazistas, pelos caudilhos. Pelo totalitarismo religioso, enfim.
Quem mais entendeu sobre alma coletiva no Brasil foi o embaixador José Osvaldo de Meira Penna, sobretudo em sua obra “Em Berço Esplêndido” (Editora Topbooks, 1999). Meira Penna mostra, como ninguém, que Getúlio Vargas, exatamente quando o Eixo assombrava o mundo na Segunda Guerra, vendia, a torto e a direito, a ideia de “alma coletiva”.
Meira Penna dissecou como ninguém os perigos da “alma coletiva” ser defendida no Brasil. E foi beber na origem de quem apontava os perigos na alma coletiva na política:  Karl Jung.
 Escrita em 1936, a obra Wotan, de Jung, deixa claro os perigos da alma coletiva em política: “A a psicose coletiva alemã surge a partir do louvor da imagem arquetípica de Wotan, deus nórdico pagão dos germânicos, das tempestades, da efervescência, da inspiração e da guerra”.
Segundo Jung, de Wotan corresponde a “uma qualidade, um caráter fundamental da alma alemã, um “fator” psíquico de natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura”.

Tem muito líder religioso fundamentalista que adora também o termo alma coletiva. Mas o vende como “egrégora”.
Do grego egrêgorein, «velar, vigiar”, é a soma de energias coletivas.

O Brasil não precisa de conceitos de coletividades, de “raízes nacionais” (como defenderam a vida toda os hoje ministros da Cultura, Juca Ferreira, e da Ciência, Aldo Rebelo). Quem tem raiz é planta. Coletivo é ônibus, bonde, trem e metrô.
O Brasil não precisa de “coletivos”, de “matilhas culturais”, aliás nomes que você encontra em vários blogs, que defendem cegamente o PT, e vivem de grana pública.
O Brasil precisa de almas individuais, sem raízes, que defendem uma cultura universal, planetária, sem barreiras. Individualismo dá prêmio Nobel: não o contrário
Quem mais criticou o conceito de alma coletiva, aliás, foi o negro mais brilhante dos EUA: W.E.B. Du Bois, homem de Harvard , estudado na Alemanha. Referia que a “alma vital”, a que em alemão ele chamava de “seleleben”, ia pelo individualismo. (“O futuro será, muito provavelmente, o que as minorias raciais individualmente fizerem dele”, notou Du Bois em sua obra The Negro, 1915).

Dilma vai contra tudo isso, indica o discurso de posse.
E vou te dizer porque: porque, na brasilidade mais profunda, seja sob o PT do Mensalão barra Petrolão, seja sob o tucanato Alstom, alma coletiva quer dizer que todos bebem da mesma fonte.
Veja bem: Dilma nomeou um ministério pífio para fazer favores políticos. Que, além das benesses auferidas pelas indicações de titulares e apaniguados, são pagos pela distribuição de grana.
O Mensalão foi a pré-fixação dos pagamentos demandados pelos políticos coligados e de ocasião. O Mensalão tinha valores combinados, datas de pagamento, locais de saque. Era a corrupção tópica: local e hora de saque previamente combinados. Ainda que com uma logística complexa de repasses.
Petrolão foi a mesma coisa: as almas coletivas indo sacar o prometido. Mas, desta vez, direto no caixa da Petrobras, sem uma lógica de assalto medieval tecnicamente  tão intricada como a do Mensalão.
Agora você entende o que é a “alma coletiva” ?



Dilma chuta o Esporte a escanteio

Juca Kfouri

Dilma chuta o Esporte a escanteio

Juca Kfouri
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Não há nada que esteja ruim que não possa piorar.
Assim, a presidenta Dilma Rousseff trocou Aldo Rebelo (que irá para o ministério de Ciência e Tecnologia!) pelo deputado federal baiano do PRP-MG, George Hilton, a figura faceira cuja foto você vê acima.
Seus predicados para assumir o ministério do Esporte são eloquentes: ele é radialista , apresentador de TV, teólogo e animador, além de pastor da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
Foi indicado por Marcelo Crivela.
O esporte mais uma vez fica relegado a alguém da terceira divisão.
Não satisfeita, Dilma nomeou, para o ministério dos Transportes, o vereador Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP) de relações umbilicais com a Mancha Verde.
A oposição tem por que festejar.
Certa mesmo estava Luciana Genro, do PSOL, quando disse: “Dilma fará exatamente o que falou que Aécio faria”.
E este blog, bem, este blog, em férias, definitivamente se dará ao direito de descansar.
Como protesto, entra em greve de silêncio.
Até quando?
Nem ele sabe.




O problema não são os “petralhas”, são os petrouxas

alex_antunes
Alex Antunes
4 de janeiro de 2015

Tentam criar um movimento de simpatia por Dilma, “agredida” pelas brincadeiras comparando a presidente na posse a um bujão de gás. De fato, como no episódio dos xingamentos nos estádios da copa, dá para rastrear o conteúdo machista da coisa. E, de fato, como a presidente se veste ou deixa de se vestir não tem nada a ver com seus (de)méritos políticos.
Acontece que: a) Dilma não é, nem de longe, uma guardiã da dignidade nacional. Pelo contrário, suas indicações para o ministério e outros escalões deixam clara a urgência de se compor ainda mais visceralmente com tudo que a política nacional tem de grotesco, atrasado e patriarcal, dos coronéis tiozões estupradores acaju aos pastores e estalinistas ancorados nos séculos passados.
E b) é irreversível o processo de transformação de Dilma em uma figura ridícula, uma pseudogovernante à deriva entre o colapso do projeto político do PT e sua própria falta de estofo. O que resta para defender agora não é Dilma, mas a ilusão de seus eleitores de que de alguma maneira ela representaria algo socialmente mais aceitável que Aécio – ou Marina. Por falar em Marina, não me lembro de que a militância petista tenha se incomodado com as calúnias e ofensas de campanha contra esta outra senhora, ex-companheira, e (ela sim, por seu histórico combativo) um “Lula de saias”.
Está derretida a narrativa novelesca do “coração valente”. E o que sobra (ou o que sempre esteve lá) é a burocrata limitada, irascível e metida a centralizadora da economia (e inimiga da cultura) de sempre. Que se descontrola quando um deputado petista como Marco Maia sugere, muito sensatamente, que a diretoria da Petrobrás encabeçada por Graça Foster poderia ser substituída – coisa que seria a primeira opção num contexto político mais racional, fosse essa diretoria diretamente culpada pela corrupção ou não.
Do novo ministério, meus “prediletos ao contrário” são Kátia Abreu na Agricultura, militante da destruição do meio ambiente, do assassinato de índios, da grilagem de terras e do trabalho escravo; Aldo Rebelo na Ciência e Tecnologia, igualmente inimigo do meio ambiente, e até da própria inovação tecnológica; o pastor George Hilton nos Esportes, absolutamente ignorante na área, ou em diversas áreas (voltaremos a esses dois). Claro, há vários outros nomes problemáticos, como Helder Barbalho, o filho do ícone da corrupção, Jader; Eduardo Braga (que é um dos novos ministros que sofrem processos judiciais, ao lado de Helder e Kátia); Gilberto Kassab; Eliseu “Quadrilha” Padilha etc. Tem para todos os desgostos.
Quanto à equipe econômica, nem interessa se é boa ou não: interessa que ela representa a política de Aécio – piorada. E que é a negação perfeita de tudo que Dilma disse em campanha. Se era para fazer isso, não seriam Dilma nem o PT os indicados a conduzir o processo. Os inevitáveis encontrões já começaram, com Dilma mandando Nelson Barbosa, o ministro do Planejamento, se retratar de suas primeiras declarações no cargo (aqui uma boa análise, pela esquerda).
E nem falamos ainda de cargos-prêmios-de-consolação em outros escalões, para gente como Garotinho. É muito simbolismo errado, para uma ou outra migalha inteligente e positiva, como a volta de Juca Ferreira à Cultura (que já avisa, cauteloso, que o começo de mandato não será fácil).
Surpreendendo quem achava que não haveria catástrofe maior no ministério do que a indicação de Kátia Abreu (eu desenvolvo o assunto neste texto, KA é o terceiro turno: entre PT e PT), as escolhas infelizes de Aldo Rebelo e George Hilton são talvez ainda mais chocantes. Entre outras bobagens nacionalistas e pseudomarxistas de Aldo, como a tentativa de instituir o Dia do Saci e de barrar o uso de estrangeirismos, destacam-se uma lei contra a inovação tecnológica, e sua incrível declaração antifloresta, como se segue.
“Assim se apresenta o caso da conquista econômica da Amazônia: luta tenaz do homem contra a floresta e contra a água. Contra o excesso de vitalidade da floresta e contra a desordenada abundância da água dos seus rios. Água e floresta que parecem ter feito um pacto da natureza ecológica, para se apoderarem de todos os domínios da região. O homem tem que lutar de maneira constante contra esta floresta que superocupou todo o solo descoberto e que oprime e asfixia toda a fauna terrestre, inclusive o homem, sob o peso opressor de suas sombras densas, das densas copas verdes de seus milhares de espécimes vegetais, do denso bafo de sua transpiração. Luta contra a água dos rios que transformam com violência, contra a água das chuvas intermináveis, contra o vapor d’água da atmosfera, que dá mofo e corrompe os víveres. Contra a água estagnada das lagoas, dos igapós e dos igarapés. Contra a correnteza. Contra a pororoca. Enfim, contra todos os exageros e desmandos da água fazendo e desfazendo a terra. Fertilizando-a e despojando-a de seus elementos de vida. Criando ilhas e marés interiores numa geografia de perpétua improvisação, ao sabor de suas violências”, disse Aldo, citando Josué de Castro, em seu parecer sobre o Código Florestal. Começo a desconfiar que a guerrilha do Araguaia, conduzida por seu partido, o PC do B, era contra… o mato.
Já sobre o pastor George Hilton para os Esportes, não há muito a acrescentar ao que Juca Kfouri revela aqui e aqui. O autodenominado “radialista, apresentador de televisão, teólogo e animador” foi expulso do PFL, que não era nenhum campeão de ética, por tráfico de dinheiro. E representa não se sabe o que no ministério, em época de preparação de Olimpíadas. Talvez proceda a especulação de Janio de Freitas, em sua coluna de hoje, que nota que (além de Hilton em Brasília) “em Minas o governador Fernando Pimentel entregou a secretaria de Esportes a um pastor. Geraldo Alckmin nomeou um pastor para sua secretaria de Esportes. Os três são pastores da igreja Universal (…) Só na aparência o estado do Rio fica fora dos domínios da Universal. A secretaria de Esportes do governo Pezão foi dada a um jovem filho de Cabral, o que significa entendimento com a igreja de Macedo”.
Mas o que explica essa desgraça anunciada do novo ministério Dilma? Nesta outra interessante análise pela esquerda, André Singer (que chama as escolhas de kafkianas) lembra que “com o megaescândalo da Petrobrás, o intuitivo seria Dilma nomear um honrado ministério técnico de alto nível (…) Isso a blindaria contra qualquer possível denúncia. Porém, por mais paradoxal que pareça, à medida que as revelações prosseguem, a presidente fica refém da opção oposta. Ocorre que Dilma precisa munir-se agora da maior base congressual possível, pois quando o navio começar a balançar, os mais fisiológicos irão rápido para a oposição, tornando o palácio alvo de isolamento e chantagem. Mas para montar tal suporte, ela precisa recorrer exatamente àqueles que estão na mira da Operação Lava a Jato (…) Em outras palavras, para proteger-se do escândalo, precisa apoiar-se nos que estão nele enredados”. O colunista tem enfocado com precisão esses paradoxos da eleição de Dilma, como fez aqui e aqui . Singer foi porta voz da presidência, no primeiro governo Lula.
Fica claro, com o choque de realidade após o delírio esquerdista das eleições, que o problema não são os supostos “petralhas”, ou seja, a ala corrupta do PT (que existe, como de resto, em qualquer partido que chegue ao poder). O problema é o que poderíamos chamar de petrouxas, ou seja, quem acredita num “petismo mágico” – segundo o qual basta “votar certo”, no personagem “do bem”, para que a política se mantenha no curso de correção. Ou talvez pelo anseio de uma “alma coletiva”, como provoca Claudio Tognolli. Mas, ao contrário do que creem os petrouxas, o PT tem canalizado o oposto dos anseios de melhoria do país, tentando varrer suas mazelas para baixo do tapete – e transformando-as assim em mazelas nacionais.
O PT descuidou do Brasil. É incapaz de dar conta de um certo anseio de moralidade. Esse anseio não é 100% “errado”; as pessoas têm direito a se sentirem num ambiente seguro – a definição do que é “seguro” é que depende do preconceito delas. Mas, defensivamente, o petismo desqualifica esse anseio, para não ter que pedir desculpas pelos erros no exercício do poder (mesmo tendo sido esse impulso moralizador um dos componentes centrais do seu sucesso eleitoral). A dívida política do país com Lula não só já foi paga (na primeira eleição de Dilma), como agora já estamos entrando fundo no prejuízo.
Aliás, foi de Lula o lance mais estranho (ou não), nos últimos dias. Ele se diz insatisfeito com o novo ministério de Dilma – de quem é não apenas o mentor, mas o fiador político e, literalmente, o inventor (já que Dilma não tem nenhuma história política pregressa notável, a não ser a passagem pela guerrilha). E que vai montar um grupo político para abrir uma interlocução com os movimentos sociais – esses mesmos que estão sendo desdenhados, após terem reeleito Dilma, por estreita margem –, para “pressionar a presidente” nos próximos quatro anos. Já Dilma confidenciou aos colaboradores que nunca se sentiu tão “livre” (de Lula e do PT, supõe-se). Resta saber se é tudo jogo de cena, ou se Lula foi escanteado mesmo. Ou seja: saber se Lula é o supremo petralha, ou o supremo petrouxa.
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RELEMBRANDO...


O chilique chantagista do PT

alex_antunes
Alex Antunes
12 de outubro de 2014


O psiquismo petista, nos últimos dias, entrou em um estado de alucinação coletiva. É difícil entender, de um ponto de vista de esquerda, que tipo de “estratégia” poderia levar a escolhas políticas e de comunicação tão erradas, numa véspera de eleição tão delicada.
A ideia de que vivemos num país cindido de cima a baixo (ou, mais exatamente, na linha de fronteira entre o Espírito Santo e a Bahia) sempre foi alimentada pela direita alarmista. É a direita que gosta de teses bisonhas como a da preparação de um “golpe comunista” (exatamente por um governo refém do crescimento do consumo, como o de Dilma?).
A eleição de Lula, e sua melhor fase no governo, baseou-se exatamente no sentimento contrário. Foi o cacife popular (e populista) de Lula que permitiu estabilizar a economia com ferramentas da ortodoxia de mercado, e iniciar uma distribuição de renda. Lula sim é que executou uma frase famosa dita pelo então ministro Delfim Netto durante a ditadura, “é preciso que o bolo cresça para depois dividi-lo”.
Confrontada com a “ameaça” das eleições, Dilma perdeu completamente a mão. Eu sei que as principais decisões de campanha são tomadas pelo marqueteiro João Santana (foto), mas todo publicitário sabe que o marketing tem que manter alguma relação com o “produto” (a candidata, o partido) para não soar completamente falso.
Depois de todas as suposições otimisticamente erradas que fez antes da campanha, Santana sabia que enfrentar Aécio num segundo turno seria uma arapuca. Mas não soube como dosar os ataques a Marina Silva para evitar o reempoderamento de Aécio Neves. Aécio que num determinado ponto da campanha do primeiro turno estava totalmente batido, como bem nos lembramos (afinal faz apenas seis semanas).
Foi o psiquismo petista que levou à agressiva desconstrução de Marina no primeiro turno. O efeito colateral foi turbinar Aécio de novo. E é esse mesmo psiquismo que está esboçando a derrota do PT diante do candidato do PSDB. De fato, a campanha de João Santana passou um tanto dos limites contra Marina – mas serviu de mote para que a militância passasse muito mais.
Marina não é uma candidata fácil de administrar. Passa muito o recibo de que a realidade é complexa (porque é mesmo), e às vezes é até melhor buscar um bom oráculo para produzir uma chispa de sabedoria em momentos difíceis, do que confiar em “lógicas” e certezas ilusórias (o que provocou chacota contra seu hábito, nesse sentido até saudável, de consultar a bíblia em busca de um insight).
Marina portou-se um tanto como Lula, ao tentar abraçar forças dicotômicas. Mas Lula executou essa manobra como um tio conciliador, boa praça e cervejeiro, e Marina queria executá-la com base em uma fala severa (pode-se dizer também que severidade é um elemento que está faltando muito na nossa política).
Era relativamente fácil de desconstruí-la, com base no anseio popular por um candidato com superpoderes e soluções fáceis. Mas algumas escolhas moralistas da campanha funcionaram bem demais. Foi o caso dos ataques à educadora Neca Setubal, que é dona de menos de 2% do Itaú, e foi apresentada como uma representante dos banqueiros na campanha de Marina, quando era exatamente o contrário (uma figura abastada porém simpática ao ativismo social e ambiental, ou seja, algo que absolutamente nos faz falta no contexto brasileiro).
O mesmo com os ataques à posição do programa de Marina relativizando a importância do petróleo como combustível (o mote do “poderio do pré-sal” foi abraçado com gosto pelo sindicalismo mais simplório); e a semântica irrelevante do ambientalista Chico Mendes ser “elite” ou não (é óbvio que qualquer liderança social pode ser chamada de elite, se se atribuir um significado positivo à palavra). E assim por diante.
Os petistas bateram com gosto (e injustiça), enquanto Marina era levada às cordas e não tinha tempo nem habilidade para se explicar. E assim perdeu-se o momento mágico: um cenário em que duas mulheres, vindas do campo da esquerda, uma delas negra, disputariam o segundo turno mais qualificado da história eleitoral do Brasil. Esse teria sido o grande legado de Lula ao país: o embate de suas duas ex-ministras. Escrevi já um pouco sobe isso neste texto, O desserviço final do PT ao Brasil.
Acontece que na equação petista não entrou um elemento: o fato de que o partido vem construindo, ao longo do tempo, uma sólida antipatia em setores da sociedade. Não só os da assim chamada direita, que repelem o PT pelas razões erradas (aversão aos programas de inclusão social e de horizontalização da sociedade), mas também com setores que têm uma percepção mais “à esquerda”, ou com preocupações sociais. E é aí que começa o grande problema para o PT.
No seu curso à direita, nestes 12 anos de poder, o partido foi de enorme inabilidade política, ao deixar se romperem os laços com muitos movimentos sociais. Os ápices da incompreensão foram junho de 2013 e as manifestações contra os gastos na Copa, em que o PT alienou e tratou como inimigos aqueles que seriam aliados naturais.
Substituiu-os por bagaços políticos que o próprio PSDB havia abandonado à sua sorte, como Sarney, Maluf, Collor etc. Lula, o “tio conciliador”, teve a ideia duvidosa de chamar para si esses resíduos do pior da política do século passado, contando controlar e alimentar um pouco os seus minguantes poderios locais. Perdeu parte da credibilidade à esquerda, sem ganhar nenhuma à direita.
O mesmo erro aconteceu com os políticos neopentecostais, que Lula, num primeiro momento, também supôs que controlaria politicamente, como contrapeso à influência da igreja católica nos seus ambientes políticos de origem – os mesmos que fundaram o PT. E essa origem psicossocial igrejeira e sindical do PT merece um comentário à parte.
Certamente ela tem a ver com esse psiquismo petista que agora fugiu ao controle: o de que toda a complexidade social, cultural e política nacional se reduz a um “eles contra nós”, um “nós que temos o monopólio das boas intenções”, um “exigimos um voto de confiança contra os bandidos”. E ninguém vê isso de fora.
Esse paradoxo se apresentou na época da denúncia do mensalão, em 2005. Foi quando uma ala petista com um pensamento político mais saudável falou em “refundação do partido” – e não em tentar varrer o problema para baixo do tapete (não deu certo, como vimos).
Essa duplicidade petista, que é tão estranha e indigesta vista daqui, vista pelos petistas parece gerar ainda maior aflição e urgência. E inconveniência. No momento em que precisa atrair eleitores à esquerda (porque os de direita já estão perdidos para o Aécio), a campanha dá destaque à senadora ruralista Katia Abreu? Exatamente a que é conivente com o armamento de fazendeiros para o assassinato de índios?
No momento em que é confrontada com mais um escândalo na Petrobrás, Dilma discursa contra a corrupção… tendo ao seu lado, no mesmo palanque alagoano, representantes clássicos da corrupção como Collor e o filho de Renan Calheiros? No momento em que mais precisa do voto paulista (estado central na história do PT, cuja capital já elegeu Erundina, Marta e Haddad), incentiva o mito de que o estado só tem reacionários?
Laura Capriglione desenvolve o assunto em seu blog:”Bairros pobres e históricos redutos do PT, como o Campo Limpo, na zona Sul, terra onde vive Mano Brown, por exemplo, ou Itaquera e São Miguel Paulista, na zona Leste, sufragaram mais Aécio do que Dilma. Capela do Socorro, lar do sarau da Cooperifa, do poeta Sergio Vaz, também. E a Pedreira, Ermelino Matarazzo e Cangaíba (…) Vai falar lá que aquela gente morena, parda e preta, que eles são a elite branca, fascista, oligarca ou coisa que o valha”.
Dilma, o PT e a militância deveriam tratar a questão com mais desassombro e delicadeza (até porque, na verdade, qualquer presidente eleito estará subordinado exatamente às mesmas forças políticas, representadas no PMDB e nos partidos fisiológicos, e não no PT nem no PSDB). Mas certamente estão alienando mais ainda os eleitores que perderam nos últimos anos.
Parece difícil, a esta altura do campeonato. Sem que haja o menor motivo prático, os petistas continuam agredindo não só Marina, mas quem pensou em votar nela, naquele não tão distante momento em que o Brasil quase teve uma eleição presidencial decente.
O PT surtado se parece muito com a caricatura, chantagista, desleal e descompensada, que os colunistas de direita tanto gostam de fazer dele. E parece querer confirmar a tese de que só na oposição poderá se requalificar na importância política e social que já teve.
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