domingo, 10 de janeiro de 2016


'Investigar corrupção é abrir caixa de Pandora: você mexe e aparece mais um'


Camilla Costa - @_camillacosta
Da BBC Brasil em São Paulo
  • Divulgação
    O subprocurador-geral da República Nicolao Dino Neto O subprocurador-geral da República Nicolao Dino Neto
Para o subprocurador-geral da República Nicolao Dino Neto, investigar a corrupção no Brasil significa lidar com uma enorme quantidade de casos que parecem "puxar" uns aos outros. "É como uma caixa de Pandora (objeto que contém todos os males do mundo, de acordo com a mitologia grega). Quando você mexe na caixa, aparece mais uma ramificação", afirma.

Atualmente, o Ministério Público Federal investiga diretamente 26 mil casos de corrupção e, no ano passado, propôs mais de 2.000 ações contra acusados de enriquecimento ilícito e outros crimes relacionados.

Mas Dino Neto, que coordena a Câmara de Combate à Corrupção, acredita que os próximos anos haverá um aumento na quantidade e na eficiência das ações contra corruptos, por causa da criação dos chamados Núcleos de Combate à Corrupção em todo o país.

Criados em 2014, os núcleos já estão presentes nas procuradorias de 24 Estados, além do Distrito Federal, e centralizam as investigações.

"Quando você especializa uma área de atuação, a tendência é as investigações fluírem de forma mais rápida", disse à BBC Brasil, em entrevista por telefone.

"As investigações tendem a ser mais eficientes porque serão conduzidas num único procedimento, que vai resultar em medidas de ação penal e não penal. O resultado é melhor porque, em vez de dois ou mais procuradores investigando o mesmo fato, você terá um só, que vai apurar o caso na perspectiva do crime e na da improbidade administrativa."

No último mês de dezembro, o grupo coordenado por Dino Neto divulgou uma seleção das cem principais ações em casos de corrupção realizadas em todos os Estados durante o ano de 2015.

Além dos já conhecidos desdobramentos da Lava Jato, aparecem casos menos lembrados, mas que ainda estão em andamento - como os desvios da Sudam, descobertos em 2006 e a operação Anaconda, deflagrada em 2003.

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil - Como a lista das cem principais ações em casos de corrupção em 2015 foi escolhida?

Dino Neto - Esses casos foram apontados pelas diversas unidades do MPF em todo o Brasil. A câmara de combate à corrupção fez a seleção final. Os critérios usados para que as unidades indicassem seus casos foram a repercussão patrimonial (o montante do prejuízo aos cofres públicos) e o grau de ofensividade (gravidade do problema).

Por isso, em Brasília e no Paraná, fala-se muito das ações relacionadas à Lava Jato, mas em diversos Estados existem tantos outros casos de corrupção que têm também uma carga de ofensividade muito grande. De memória eu cito o caso dos desvios da Sudam, no Amazonas. Também destacaria a operação Ararath, no Mato Grosso, que é um caso muito grave de crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro, corrupção passiva e corrupção ativa.

São casos gravíssimos, envolvendo valores acima de R$ 100 milhões. E infelizmente são muitos. É como se fosse uma caixa de Pandora. Quando se mexe na caixa, aparece mais uma ramificação dos casos.

Esse retrato de cem ações enfatiza que o MP está atuando em todo o Brasil no que se refere ao combate à corrupção - não é só a Lava Jato. Também demonstra que a corrupção é realmente um mal endêmico, que está presente na administração pública federal, na estadual e na municipal.

Em dezembro, o deputado Eduardo Cunha insinuou que haveria indícios que implicariam o senador Renan Calheiros em casos de corrupção e não estariam sendo investigados. O PT também já chegou a dizer que não se investiga outros partidos com a mesma rapidez. Como o senhor responde às insinuações de que o MPF seria seletivo em suas investigações?

Vou te responder de forma genérica. Essa seleção de cem casos permite visualizar que o que estamos fazendo é atuar de forma extremamente isonômica, aplicando a lei nas situações em que há efetivamente a necessidade da atuação do MP. Não há seletividade no sentido de escolhas. Estamos agindo de uma forma bem criteriosa no que se refere à adoção de medidas punitivas ou repressivas.

Esses nomes que estão sendo mencionados são nomes sobre os quais há, sim, investigações. E há diversos partidos envolvidos. O Ministério Público não vê colorido partidário na sua atuação.

E por que não aparecem na lista casos como o do chamado "mensalão mineiro" e o caso Alstom, que envolvem partidos de oposição?

Os casos foram selecionados pelas unidades do MPF em todos os Estados e foi dada prioridade pelos que tiveram início ou desfecho no ano de 2015.

O caso do mensalão mineiro é muito antigo e não teve nenhum desdobramento relacionado com o MPF em 2015. Já o caso da Alstom é de ação do Ministério Público Estadual, e a lista engloba somente casos do Ministério Público Federal.

De qualquer forma, a lista é ilustrativa, para mostrar o fruto da nossa atuação em 2015. Não quer dizer que os casos examinados pelo MPF são só esses.

O senhor fala de um "salto estatístico" nas ações contra a corrupção. Mas num universo de 26 mil investigações diretas sobre o tema no MPF, houve cerca de 1.230 ações de improbidade administrativa e 900 ações penais relativas a estes casos em 2015. Não é pouco?

Esse dado é interessante sob duas perspectivas. Primeiro, ele revela que há critério nas investigações feitas pelo Ministério Público e também há critério na promoção de medidas de responsabilização, sempre que essas medidas se fazem necessárias.

Muitas pessoas reclamam que haveria uma banalização das investigações e das ações de responsabilidade. Mas essa aparente desproporcionalidade dos números revela justamente o contrário, que não há banalização. Que o MPF só age nas situações em que a intervenção se faz necessária.

Estes 26 mil casos incluem os que começaram muito antes de 2015, mas esse delay (atraso) nos processos ainda existe infelizmente no Brasil, porque dependemos também de investigações em outras esferas de atuação.

Por exemplo, o Tribunal de Contas da União realiza uma tomada de contas especial (TCE, que determina responsabilidades caso tenha havido dano na administração pública), mas há uma demora grande entre a conclusão dela e a comunicação ao MP. Isso é ruim, porque retarda o início do procedimento judicial.

Pode-se dizer que os partidos que aparecem com mais frequência nas investigações atualmente são realmente mais corruptos ou há, como argumentam alguns, mais investigação sobre a corrupção hoje do que havia em anos anteriores?

Sem querer fazer injustiça com o passado, mas eu acho que é possível perceber na última década uma qualificação maior em termos de combate e investigação da corrupção. E digo isso não me referindo apenas ao Ministério Público.

Acho que as instituições de percepção e controle de uma forma geral tem buscado responder de forma mais efetiva ao fenômeno da corrupção. E isso implica aparelhamento maior, qualificação melhor dos agentes públicos, atividades de cooperação entre diversas instâncias de controle e percepção. Tudo isso acaba por repercutir positivamente num cenário de investigação.

É possível acabar a corrupção? De que forma?

Acho que a corrupção é um fato social. Enquanto houver vida em sociedade infelizmente haverá corrupção. Isso vale para o Brasil e vale para o mundo todo. O desafio não é acabar com a corrupção. É melhorar os mecanismos de controle, de repressão e de prevenção.

Tudo isso implica atuar e responder à corrupção. Acabar não é possível. Há um comentário muito interessante do sociólogo José Pastore: 'corrupção é como diabetes. Não tem cura, mas tem que ser tratada diariamente'.

Por que há tanta corrupção no Brasil, na sua opinião?

O fato de haver pouca transparência na atuação do Estado brasileiro é um fator que pode significar um número maior de casos de corrupção. Há também um deficit em termos de educação que precisa ser superado e precisamos avançar, porque quanto mais educada for uma sociedade, a tendência é que haja menos corrupção.

E estou falando não apenas de grau de instrução, mas de educação para a honestidade, cultura de valores positivos. É nesse contexto que temos que pensar em educação. Você tem pessoas que fizeram pós-graduação e cometem atos de corrupção.

E também é importante o aspecto pedagógico-punitivo. Nenhuma sociedade consegue responder à altura a corrupção sem as pessoas percebam que a corrupção têm consequências legais e punições. É preciso melhorar nesse aspecto.

Quais os maiores desafios que o MPF tem pela frente em sua meta de combate à corrupção neste ano?

Acho que o grande desafio é manter a estrutura de funcionamento em termos de organização funcional. Isso é um desafio muito importante. Sem infraestrutura, pessoal, materiais, investimento em ferramentas de investigação, programas de ação e planejamento não se consegue avançar.

O segundo é manter uma capacidade de diálogo com os diversos órgãos de controle e percepção. Você só pode avançar à medida que houver intercâmbio de informações e compartilhamento de estratégias de investigação.

Ninguém consegue vencer a corrupção sozinho. É necessário que todos os órgãos envolvidos nessa atuação compartilhem esforços. Isso vale para a Receita Federal, Banco Central, Controladoria Geral da União, Tribunal de Contas da União, polícias. Todos esses órgãos têm que atuar em sintonia.

Ultimamente, procuradores e juízes em casos de corrupção tem sido vistos como "heróis da nação" e alguns analistas alertam que é preciso ter cautela com alçá-los a esta posição. Na sua opinião, os procuradores do Ministério Público devem ser vistos como heróis?

Não. Acho que essa imagem não é apropriada para uma República. A atuação institucional tem que ser impessoal, nossa função não é criar heróis e não trabalhamos com heroísmo. Muito pelo contrário. É preciso despersonalizar e desmitificar essa ideia de que há situações heroicas.

A atuação (nos casos de corrupção) é do MP e a resposta a ser dada é do Judiciário. Isso significa dizer que a atuação é do Estado brasileiro. Estamos cumprindo nosso dever institucional.

Por que tantos detalhes das investigações vazam para a imprensa? E o que é feito para evitar que eles aconteçam?

Os vazamentos que implicaram prejuízo à investigação ou à quebra de sigilo são objetos de investigação do Ministério Público também. Há inquéritos na Polícia Federal para apurar a responsabilidade por vazamentos indevidos, mas ao MPF não pode ser atribuída nenhuma responsabilidade por eles.

Você tem visto várias operações do MPF ocorrerem sem que haja vazamento de informações, antecipações ou nenhum tipo de espetacularização midiática. Nossa atuação tem sido muito discreta como deve ser.

O que o MP faz contra a corrupção?

De acordo com Dino Neto, as investigações do Ministério Público podem resultar na abertura de ações de improbidade administrativa ou ações penais, que serão decididas na Justiça.

As ações de improbidade podem pedir que os acusados sejam condenados a perder bens ou valores que foram adicionados ilegalmente a seu patrimônio pessoal e que estes valores sejam ressarcidos aos cofres públicos; que eles tenham suspensos seus direitos políticos; paguem multa civil; sejam proibidos de ter contratos com a Administração ou de receber benefícios, incentivos fiscais e crédito; além de perderem a função pública.

Em alguns casos, é possível propor também ações penais contra os acusados, quando suas ações são consideradas crimes. De um modo geral, no entanto, o número de ações de improbidade é maior do que o número de ações penais propostas pelo órgão.

"Vou dar um exemplo para deixar claro: o enriquecimento ilícito do agente público é um ato de improbidade administrativa, mas isso não é crime no Brasil. Na lei penal, não há previsão quanto ao crime", explica o subprocurador-geral.

Em 2015, o Ministério Publico Federal deu início a uma campanha para recolher assinaturas em apoio a dez medidas de combate à corrupção, que serão propostas ao Congresso para se tornarem projetos de lei. Entre elas, estão a criminalização do enriquecimento ilícito, o aumento das penas para a corrupção de altos valores (acima de R$ 8 milhões) e mudanças para tornar mais rápidos os julgamentos de ações de improbidade administrativa.
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Veja o que o governo poderia fazer com dinheiro recuperado da corrupção desde 20106 fotos

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Como dinheiro recuperado pela AGU (Advocacia-Geral da União) entre 2010 e 2014, seria possível construir 15,7 mil casas populares com valor médio de R$ 76 mil. Desde 2010, a AGU conseguiu recuperar R$ 1,2 bilhão referentes a crimes de corrupção e improbidade administrativa Leia mais Divulgação
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Para TCU, obra da OAS com Wagner foi superfaturada

De Brasília
O TCU (Tribunal de Contas da União) identificou uma série de irregularidades, em especial superfaturamento, no contrato de obras que levou o empreiteiro da OAS Léo Pinheiro a pedir que o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, atuasse no Ministério dos Transportes para liberar um valor adicional de R$ 41,76 milhões para uma obra em Salvador quando ele governava o Estado.
O projeto, que envolveu a construção de 14 viadutos e de uma via expressa de 4 km de extensão até o porto de Salvador, passou pelo pente-fino de diversas auditorias e monitoramentos realizados pela corte de contas desde a sua licitação, em 2008, quando Jaques Wagner ainda era governador da Bahia.
O pedido de ajuda de Pinheiro foi revelado na quinta, 7, pelo jornal "O Estado de S.Paulo". Nele, Léo Pinheiro solicita a Wagner que procure o então ministro dos Transportes, Paulo Passos, para liberar um valor de R$ 41,760 milhões ligado a esse contrato.
Ao se debruçar sobre o contrato de R$ 399,705 milhões firmado entre a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e a OAS, o tribunal identificou um volume de pedidos materiais muito acima daqueles previstos no projeto básico do empreendimento. Apenas com a inclusão de novos serviços no contrato, segundo os auditores, o preço da obra foi inflado em pelo menos R$ 9,368 milhões.
As alterações no escopo original do projeto também foram acompanhadas pelo aumento de preços. Foi o que os auditores encontraram, por exemplo, ao analisar a compra de vigas metálicas usadas na obra. O preço cobrado pela empreiteira para este item foi de R$ 7,13 por quilo, quando o orçamento original feito pela Conder com a Gerdau Aço Minas indicava valor de R$ 3,62 o quilo. "A comparação do valor considerado pela OAS no termo aditivo com o preço informado pela Gerdau indica uma significativa diferença de 96,96% para elementos na mesma data base", aponta o TCU, que estimou uma diferença de R$ 3,926 milhões somente em relação ao serviço de fabricação desse material.
Depois de realizar uma série de reuniões com representantes da Conder, da OAS e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), que era o principal agente financeiro do projeto, o TCU concluiu que diversas irregularidades não foram explicadas.
Em 2010, o diretor de operações da Conder, Armindo Gonzales Miranda, reconheceu que houve irregularidades na quantidade de itens incluídos na obra, mas culpou o "curto espaço de tempo" que o órgão baiano teve para informar o Dnit sobre as necessidades do projeto. A pressa, justificou Miranda, teria ocasionado os erros. O TCU verificou, no entanto, que a Conder teve quatro meses para apresentar seus estudos em 2007, prazo que depois foi estendido em mais seis meses. Armindo Gonzales Miranda teve seus argumentos rejeitados e foi multado em R$ 3 mil.
Ligado ao Ministério dos Transportes, o Dnit era o principal financiador do projeto, responsável pelo aporte de R$ 339,3 milhões, entre contratações de obras civis, despesas com desapropriações e construção de passarelas.

Defesa

O Ministério dos Transportes, a Conder e o Dnit não se manifestaram sobre o assunto, nem confirmam se os valores devidos do projeto foram efetivamente pagos à empreiteira. A OAS também não havia se pronunciou até a noite dessa sexta, 8. Também procurado pelo jornal O Estado de S.Paulo, o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, não havia respondido à reportagem até a conclusão desta edição. Em nota emitida na quinta, ele negou irregularidades. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".
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Procuradoria avalia pedido de inquérito para investigar ministro da Casa Civil


De Brasília
  • Blog do Planalto/Reprodução
    O ministro da Casa Civil, Jaques Wagner O ministro da Casa Civil, Jaques Wagner
As mensagens obtidas pela Operação Lava Jato com a apreensão do celular do ex-presidente da OAS José Adelmário Pinheiro Filho, conhecido nos meios empresarial e político como Léo Pinheiro, devem servir de base para gerar uma nova lista de investigados a ser encaminhada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal.
Ao menos três ministros da presidente Dilma Rousseff aparecem nos diálogos obtidos na investigação: o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner (PT); o ministro da Comunicação Social, Edinho Silva (PT); e o ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves (PMDB).
Nesta quinta-feira (7), o jornal "O Estado de S. Paulo' revelou mensagens de Pinheiro em que Jaques Wagner fala sobre a liberação de recursos do governo federal. Os diálogos, segundo os investigadores, também indicam que Wagner intermediou negociações para o financiamento de campanhas eleitorais em Salvador, em 2012, no período em que esteve à frente do governo da Bahia (2007-2014). Em uma primeira análise, o diálogo é considerado "grave" por investigadores.
A avaliação preliminar é de que as conversas de Léo Pinheiro escancaram os "intestinos de Brasília" e relações "pouco republicanas" de políticos com empresários na capital federal.
Pinheiro tinha acesso a praticamente toda a classe política, de acordo com a investigação. Caberá ao grupo que auxilia Janot decifrar, nas próximas semanas, os supostos esquemas mencionados nos diálogos obtidos e identificar o que pode ser enquadrado como indício de crime - casos em que devem ser feitos pedidos de abertura de inquérito.
As mensagens do celular de Pinheiro foram transcritas pela Polícia Federal e Ministério Público Federal no Paraná, onde correm as investigações da Lava Jato na 1.ª instância. No fim de 2015, a PF encaminhou à Procuradoria os casos em que há menção a políticos com foro privilegiado.
O celular de Léo Pinheiro levou ao conhecimento de investigadores tanto conversas diretas com os políticos, como contatos com intermediários e menções aos parlamentares e ministros.

Nomes

A lista de políticos mencionados nas conversas registradas no celular de Léo Pinheiro inclui, além dos três ministros de Estado, os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).
Também fazem parte das conversas, de acordo com fontes com acesso às investigações, os senadores Edison Lobão (PMDB-MA) e Lindbergh Farias (PT-RJ); e os deputados federais Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Osmar Terra (PMDB-RS).
Léo Pinheiro usava apelidos para se referir aos políticos, como "Brahma" sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No caso de Lindbergh, a referência identificada pelos investigadores é a alcunha "lindinho". Não há identificação, até o momento, de trocas de mensagens diretas entre Lula e o ex-presidente da OAS.
O ex-tesoureiro do PT João Vaccari e o ex-deputado federal e ex-líder do partido na Câmara Cândido Vaccarezza (PT-SP), já investigados na Lava Jato, também surgem nas mensagens. Ainda há conversas sobre o ex-tesoureiro do PT condenado no mensalão, Delúbio Soares, e sobre o advogado Tiago Cedraz, filho do presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Aroldo Cedraz.
A expectativa é de que na volta do recesso do STF, em fevereiro, parte das decisões da Procuradoria seja revelada. No total, o material com mensagens de Léo Pinheiro tem quase 600 páginas. O envolvimento do ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, está entrelaçado às ações de Eduardo Cunha.
Há relatos de combinação de encontro entre Cunha e o ex-presidente da OAS, por exemplo, com intermediação de Henrique Eduardo Alves, segundo fontes com acesso ao material.

Defesas

O ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, disse em nota estar "à disposição do Ministério Público e demais órgãos competentes para quaisquer esclarecimentos". Ele negou irregularidades na relação com Léo Pinheiro. Na nota, o ministro manifestou "repúdio à reiterada prática de vazamentos de informações preliminares e inconsistentes, que não contribuem para andamento das apurações e do devido processo legal".
Também em nota, o ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves (PMDB), afirmou que "refuta qualquer ilação baseada em premissas equivocadas ou interpretações absurdas".
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também criticou o "vazamento seletivo" de informações. "Supostos diálogos que a PGR (Procuradoria-Geral da República) atribuiu a mim não são comigo. Também acho estranho que só vazaram diálogos comigo quando existem 632 páginas de conversas com outras pessoas." As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".
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Veja quem é investigado na Lava Jato81 fotos

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O presidente da Câmara dos Deputados, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é apontado como beneficiário de desvios na Petrobras. Segundo depoimentos de delatores da Operação Lava Jato, o peemedebista recebeu US$ 5 milhões em propina de contratos de navios-sondas e também de um negócio fechado pela Petrobras na África. O presidente nega as acusações e afirma que sua acusação é uma estratégia partidária: "O governo quer desviar a mídia do processo de impeachment e quer colocar no PMDB e em mim a situação do assalto à Petrobras, que foi praticado pelo PT e por membros do governo" Leia mais Ed Ferreira/Estadão Conteúdo
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Executivos citados em troca de mensagens viraram secretários


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De Brasília
Brasília - Executivos da OAS que aparecem nas trocas de mensagens envolvendo o atual ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, - e indicadas como suspeitas pelos investigadores da Operação Lava Jato - foram nomeados secretários de Estado no governo da Bahia. Um dos dois executivos mencionados chegou trabalhar na Secretaria da Casa Civil durante a gestão de Wagner.Bruno Dauster e Manuel Ribeiro Filho foram empossados em pastas estratégicas do Estado em janeiro de 2015, quando o sucessor de Wagner, Rui Costa (PT), assumiu o governo da Bahia. Manuel Ribeiro Filho, ex-diretor da OAS na Bahia, assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado em janeiro de 2015 e se manteve na chefia da pasta até o fim do ano.
Dauster, ex-diretor de desenvolvimento da OAS, se mantém até hoje na Secretaria da Casa Civil do Estado. Na gestão Wagner, antes de assumir a função de secretário, foi chefe de gabinete da Casa Civil no Estado.
As interceptações são de mensagens que envolvem Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS condenado a 16 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa no esquema na Petrobras.
Em troca de mensagens entre números não identificados até o momento, obtidas por meio da interceptação de diálogos do celular de Léo Pinheiro, há texto em que Dauster é citado como alguém que "sabia tudo de metrô", em possível referência às obras no metrô de Salvador. "Para sua informação tanto JW quanto Rui Costa dizem que Bruno Dauster sabia de tudo do metrô e como é gente sua...Abc MK", diz a mensagem.
Ribeiro Filho é um dos executivos que aparecem em troca de mensagens com Pinheiro sobre o apoio à candidatura do petista Nelson Pellegrino à prefeitura de Salvador, em 2012. Ele é irmão do escritor João Ubaldo Ribeiro, morto em 2014.
Os dois se desentenderam por causa de uma ponte que Manuel queria construir ligando Salvador a Itaparica, onde João Ubaldo vivia. Orçada em R$ 5,7 bilhões, o custo da ponte chegou a R$ 7 bilhões. Prometida para 2013, não ficou pronta. A OAS é uma das empreiteiras que desenvolveram o projeto da obra.
Dauster afirmou, via assessoria de imprensa da Secretaria da Casa Civil da Bahia, que não se recorda das conversas relatadas pela reportagem e disse que elas estão fora de contexto.
Ele informou que, em 2013, data das mensagens, já estava na Casa Civil e afirmou não fazer sentido levantar qualquer dúvida em relação à licitação do metrô de Salvador porque a OAS perdeu a concorrência. A reportagem não localizou Ribeiro Filho.
Durante o período em que Wagner e Costa estiveram no comando do governo baiano, a OAS foi responsável por inúmeras obras de infraestrutura e revitalização no Estado. A Via Expressa Bahia de Todos os Santos, por exemplo, é considerada a maior intervenção viária em Salvador dos últimos 30 anos. A obra custou R$ 480 milhões, foi inaugurada em 2013 e levou quatro anos para ficar pronta.
Outra obra tocada pela OAS, ainda não concluída, para revitalizar a orla da capital baiana já custou R$ 179,4 milhões ao Estado. Os dados são do portal da transparência do governo da Bahia. O projeto foi feito para ser entregue antes da Copa do Mundo, mas ainda não está pronto.
2010
Doações da OAS mostram que a ligação entre Wagner e Pinheiro data pelo menos de 2010. Segundo a prestação de contas disponível no site do Tribunal Superior Eleitoral, Wagner recebeu naquele ano R$ 1,5 milhão diretamente da empreiteira para a campanha de reeleição ao governo da Bahia.
Rui Costa (PT-BA), aliado de Wagner e sucessor dele no cargo, também teve o apoio indireto da empresa nas eleições de 2014. Os diretórios nacional e estadual do PT repassaram à campanha dele R$ 4,2 milhões, doados pela OAS. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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'Robin' é o novo delator da Operação Lava Jato

De São Paulo
O empresário Luis Eduardo Campos Barbosa da Silva é o novo delator da Operação Lava Jato. O executivo é sócio do operador da SBM Julio Faerman - outro delator do esquema de corrupção na Petrobras - na empresa Oildrive Consultoria em Energia e Petróleo e ex-funcionário da Asea Brown Boveri (ABB). Segundo a Polícia Federal, Luis Eduardo "agiu como operador financeiro em favor das empresas Alusa, Rolls Royce e SBM".
O relatório aponta que Luis Eduardo é suspeito de "receber informações privilegiadas para que a Alusa pudesse vencer licitação em curso na Petrobras, além de repassar propinas, segundo delação de Pedro Barusco. Ele é um dos sócios da Oildrive Consultoria, uma das representantes da multinacional holandesa SBM Offshore, suspeita de pagar propinas em troca de contratos na Petrobras", afirma a PF
Luis Eduardo, Julio Faerman e outros 10 investigados foram denunciados pelo Ministério Público Federal, em dezembro de 2015, por envolvimento no esquema de pagamento de US$ 42 milhões em propinas entre 1997 e 2012 por meio de contratos de aluguel de navios-plataforma da empresa holandesa SBM Offshore. A delação de Julio Faerman foi homologada pela Justiça em agosto do ano passado.
As investigações chegaram a Luis Eduardo por meio da delação premiada do ex-gerente executivo da Petrobras Pedro Barusco. Segundo o delator, Julio Faerman e Luis Eduardo eram chamados de "Batman e Robin", por andarem sempre juntos.

Defesa

O criminalista Antônio Sérgio Moraes Pitombo, que defende Luís Eduardo Barbosa, não pôde se manifestar sobre a delação. "Não posso falar nada sobre o acordo de colaboração porque ele está sob sigilo. Eu assinei o acordo, então, em hipótese alguma eu posso comentar qualquer detalhe", disse.
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Ministro do Turismo fez lobby para OAS em tribunais

De Brasília
  • Alan Marques/Folhapress
    O ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), à época em que presidia a Câmara O ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), à época em que presidia a Câmara
O ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), fez lobby para a OAS em dois tribunais de contas para evitar o bloqueio de recursos para as obras da empreiteira na Arena das Dunas, em Natal, um dos estádios da Copa de 2014.
A ação é comprovada por mensagens trocadas entre Alves e Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, condenado a 16 de reclusão. Trechos das conversas, de 2013 e 2014, foram obtidos pelo "Estado". No período, o peemedebista era deputado federal e presidia a Câmara.
Nos diálogos, além de tratar de favores a Pinheiro, o ministro cobra repasses da OAS para sua campanha ao governo do Rio Grande do Norte. Para a Procuradoria-Geral da República, as doações foram "vantagens indevidas" pagas para que Cunha e seu grupo defendessem interesses da OAS.
As mensagens sobre o lobby nos tribunais foram trocadas entre junho e julho de 2013. Em 14 de julho, Alves promete a Léo Pinheiro agir no Tribunal de Contas da União: "Seg (segunda), em BSB (Brasília), vou pra cima do TCU. Darei notícias", diz o ministro do Turismo.
Os diálogos indicam que a operação envolveria tratativas com o então ministro do TCU Valmir Campelo Bezerra, que na época relatava processo sobre a Arena das Dunas. Na ocasião, após receber denúncia de irregularidades do Ministério Público Federal, o tribunal abriu um processo para acompanhar o financiamento da obra.
Em outra mensagem, de 22 de junho de 2013, Alves diz a Léo Pinheiro que poderia marcar com o presidente do TCE-RN. "Já marcaria com o Pres TC, irmão do Garibaldi", afirmou. Na época, o presidente da corte era Paulo Roberto Chaves Alves, irmão do senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), primo do ministro.
O ministro admitiu ter auxiliado a OAS. "Ele (Léo Pinheiro) mobilizou o governo, todo mundo para ajudar. Isso porque podia paralisar a obra e o estádio não seria entregue a tempo para a Copa", afirmou. Valmir Campelo disse não se recordar de tratativas com Alves e ressaltou que não admitiria interferência em processos. A OAS não comentou. Paulo Roberto Chaves Alves não foi localizado. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".
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Dilma garantiu a empreiteira empréstimo do BNDES com condição especial, diz Época

Em Brasília
  • Evaristo SA/AFP
A presidente Dilma Rousseff atuou, antes de sua reeleição, para flexibilizar uma regra de concessão de financiamentos do BNDES em favor da Andrade Gutierrez, aponta reportagem publicada pela revista Época desta semana.
De acordo com a publicação, após a liberação de um financiamento de US$ 320 milhões para a construção de uma barragem em Moçambique, a empreiteira doou R$ 20 milhões para a campanha de reeleição da presidente.

Documentos obtidos pela revista mostram que, em março de 2013, Dilma teve uma reunião com o presidente de Moçambique, Armando Guebuza, na qual o governante do país africano questionou as exigências do BNDES para conceder o financiamento.
Os recursos só poderiam ser liberados mediante à abertura de uma conta bancária de Moçambique numa economia com baixo risco de calote, o que Guebuza não concordava. Dilma teria se colocado à disposição para "resolver o assunto".
Segundo a Época, um mês depois, em Brasília, o Conselho de Ministros da Câmara de Comércio Exterior (Camex) --comandado naquele momento por Fernando Pimentel, então ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior-- aprovou a flexibilização do empréstimo. O contrato foi assinado em junho de 2014 - já em período de campanha eleitoral --pela Zagope, subsidiária da Andrade Gutierrez investigada pelo Ministério Público Federal por pagamentos de propina.
A revista informa, ainda, que no mês seguinte à assinatura, Edinho Silva, então tesoureiro da campanha presidencial à reeleição de Dilma, fez uma visita à Andrade Gutierrez, em São Paulo. Nove dias após o encontro, a empreiteira transferiu R$ 10 milhões para a campanha de Dilma. Em seguida, a construtora doou mais R$ 10 milhões.
De acordo com a Época, a Presidência da República informou que a Camex toma decisões com total autonomia, sem nenhuma ingerência do governo. Argumentou ainda que as doações não têm relação com as ações de governo. O BNDES afirmou que o controle na concessão dos créditos à exportação se baseia em critérios técnicos. Segundo a Andrade Gutierrez, o procedimento foi regular, informou a revista.
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Cunha nega aumento patrimonial e critica ministro da Justiça

8 de janeiro de 2016
 
 
BRASÍLIA (Reuters) - O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), negou nesta sexta-feira que tenha obtido aumento patrimonial injustificado, e disse lamentar o que classificou de "atitude seletiva" do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, ao não coibir vazamentos de informações sigilosas envolvendo o deputado.
Reportagem do jornal Folha de S.Paulo na quinta-feira afirma que, segundo relatório da Receita Federal, há indícios de aumento patrimonial de Cunha, sua mulher e sua filha incompatível com os rendimentos.
"Ao contrário do que foi criminosamente divulgado, sua variação patrimonial entre os anos de 2011 e 2014 apresenta uma perda de 185 mil reais, devidamente registrada nas declarações de renda", disse nota divulgada pela assessoria de imprensa da Presidência da Câmara dos Deputados.
Na nota, Cunha reitera que não recebeu qualquer vantagem indevida e "desafia" que sejam apresentadas provas.
O presidente da Câmara também lamentou no documento "o vazamento seletivo de dados protegidos por sigilos legal e fiscal que deveriam estar sob guarda de órgão do governo", aproveitando para criticar diretamente a postura do ministro da Justiça, que não teria agido para apurar a divulgação dessas informações contra Cunha.
"No entanto, bastou citarem algum integrante do governo para ele, agindo partidariamente, solicitar apuração imediata", diz a nota do deputado, referindo-se à determinação de Cardozo, na quinta-feira, para que a Polícia Federal investigue a divulgação de mensagens do ex-presidente da OAS José Aldemário Pinheiro Filho, conhecido como Leo Pinheiro, envolvendo nomes como o do ministro da Casa Civil, Jaques Wagner.
O presidente da Câmara também reiterou acusação contra a Procuradoria-Geral da República (PGR) de promover uma "investigação seletiva", e disse não haver problema na quebra de seus sigilos.
O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Cunha, sua esposa e filha, segundo fonte do tribunal que pediu para não ser identificada e não forneceu detalhes.
"A divulgada quebra de sigilos do presidente da Câmara e seus familiares ocorreu há mais de 3 meses, os documentos foram juntados em 23 de outubro e inclusive, como de praxe, em parte vazados para a imprensa, não se tratando, portanto, de matéria nova que mereça resposta", diz a nota da Presidência da Câmara.
"De qualquer forma, o presidente destaca que não vê qualquer problema com a quebra de sigilos, e sempre estará à disposição da Justiça para prestar quaisquer explicações."
Cunha foi denunciado pela PGR sob acusação de receber 5 milhões de dólares em propina em esquema de corrupção na Petrobras, e é alvo de inquérito que apura a existência de contas bancárias no nome dele e de familiares na Suíça.
O deputado também é processado pelo Conselho de Ética da Câmara, acusado de mentir em depoimento à CPI da Petrobras quando negou que tivesse contas bancárias além das declaradas em seu Imposto de Renda.
ESPÉCIE
Em resposta a Cunha, Cardozo também divulgou nota afirmando que a determinação da pasta é investigar todos os casos em que houver vazamento ilegal, com exceção dos casos em que o Judiciário autorizar o fim do sigilo ou nas situações em que os dados tenham partido da PGR ou do Supremo Tribunal Federal (STF), que estão fora da alçada do Ministério da Justiça.
Cardozo afirma ainda que "causa espécie" a crítica de Cunha. O ministro argumentou que o pedido de apuração do vazamento das mensagens do empresário da OAS partiu do ministro da Casa Civil e poderia beneficiar Cunha, já que o presidente da Câmara estaria entre os políticos citados nas mensagens do celular de Leo Pinheiro.


Nova agenda de governo: criminalizar quem combate o crime

Claudio Tognolli
7 de janeiro de 2016

Um comando foi dado, pelo núcleo duro do PT (setor de mídia), nesse fim de semana, para militantes de ambientes virtuais e blogueiros alinhados com Dilma e Lula: viralizar, nas pautas, a ideia de que o Brasil já poderia ter saído da crise não fosse a Operação Lava Jato.
Segundo consultores ouvidos por esse blog, a nova pauta é muito simples: bipolarizar (mais uma vez) a situação. De um lado, petistas do bem querendo consertar o país. Do outro, opositores do mal postulando manter o Brasil “num clima de insegurança”.
Os pontos dessa nova agenda midiática se assentam sobre dois passos dados pelo governo no último mês.

O primeiro: a medida provisória assinada por Dilma, em 18 de dezembro,  aquela que alterou as regras para acordos de leniência. A medida provisória regula os acordos de leniência firmados pelos órgãos do governo federal com as empresas investigadas por ilícitos contra a administração pública. O texto inclui o Ministério Público nos acordos e dá às empresas o direito de continuar participando de contratos com a administração pública, caso cumpram as penalidades impostas.
Daí o seguinte argumento: todos aqueles contrários a isso quereriam o “caos brasilis”. Entre eles, por exemplo, o o procurador da Lava Jato,  Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos que  alega que o Brasil está “caminhando para trás” no combate à corrupção ao adotar esses acordos de leniência.


O segundo ponto: ao Dilma ter zerado as pedaladas fiscais, com o o depósito de 57 bilhões que pacificou a questão, teria dado o maior gesto possível de que quer estar em paz com a lei.

Mas a agenda da bipolaridade quer mais: pretende puxar dados da macro-economia e, ao fim e ao cabo, despejar uma pá de cal na Lava Jato como a grande propulsora do caos.
Alguns dados de macroeconomia: o Banco Mundial prevê retração de 2,5% no país neste ano. A projeção anterior era de crescimento de 1,1%. Outro: a queda do setor automotivo brasileiro divulgada pela Anfavea: comparando com o mesmo mês de 2014, o setor teve em dezembro queda de 30% na produção, acumulando em 2015 baixa de 22,8%, a 2,43 milhões de unidades.

Aí vem a grande questão: dar proporções maiúsculas à Lava Jato. E assim praticamente criminalizar quem combate o crime.
Para tanto, estão sendo extraídos dados do estudo da consultoria GO Associados. Em resumo, esse estudo atribui à Lava Jato os seguintes números armagedônicos: perdas de R$ 142,6 bilhões (o equivalente a 2,5% do PIB), redução de 1,9 milhão de empregos diretos e indiretos, queda de R$ 22,4 bilhões em salários e diminuição de R$ 9,4 bilhões em arrecadação de impostos.
Essa é a nova batalha bipolar no ar: criminalizar quem combate o crime. Diz algo, não ?




segunda-feira, 4 de janeiro de 2016


Lava Jato, Cunha, impeachment e a demolição da política brasileira

Rogério Jordão
Rogério Jordão
16 de dezembro de 2015

Com Eduardo Cunha, dois ministros, deputados e a sede do PMDB em Alagoas sendo alvo de cumprimento de mandados de busca & apreensão pela PF, como aconteceu esta semana, a Lava Jato impõem à política seus ditames. Se a Lava Jato fosse um estilo musical, este seria um dramático tango argentino, com picos de tensão, paradas, suspenses, rodopios (seus dançarinos a imagem de uma República que precisa reencontrar seu passo). 
Aos poucos a Operação, deflagrada em março de 2014 como uma investigação sobre doleiros, vai demolindo a política brasileira tal qual a conhecemos. O que sairá disso só pode ser imaginado como ficção. Por ora o que se pode antever é uma imensa pororoca com o timing jurídico-policial se juntando ao calendário de um impeachment que provavelmente chegará ao plenário da Câmara, mas em futuro incerto. Olhando o quadro hoje, a Lava Jato é mais importante do que as “ruas” para o desfecho da novela de Dilma, ao mesmo tempo em que a Operação é bem mais ampla, em seu alcance, do que uma mera troca de fusíveis no sistema político.
A opinião pública aplaude. A política está no fundo do poço. Os partidos rejeitados. Não são confiáveis para 99%, apontam pesquisas. Oito em cada dez brasileiros querem a cassação de Cunha (outros 65% o impeachment de Dilma). Em finais de novembro o Datafolha divulgou que 53% dos brasileiros consideram que o desempenho de deputados e senadores é ruim ou péssimo – a pior avaliação desde 1993, quando explodiu o escândalo dos Anões do Orçamento (emendas parlamentares direcionadas em troca de favores). Para um terço da população corrupção é o principal problema do país. São muitos os dados, números e sinais de que a política, de fato, pifou.
Policiais realizando buscas em residências oficiais em Brasília – e tendo seus agentes filmados por helicópteros da TV – não são uma novidade. Em julho a PF fez operação semelhante, a “Politeia”, expondo para as TVs carros apreendidos na casa do senador Collor. De lá para cá quase tudo aconteceu. Um senador (Delcídio) foi preso, fato inédito, quando o STF institui que vivemos um “estado de flagrância”. Agora, a dança é com o PMDB e parte de seus caciques. 
Com o impeachment na pauta – e com as ruas sem roncar – a Lava Jato vai moldando a política nacional ao mesmo tempo que construindo os andaimes de suas soluções. O povo aguarda. É preciso um novo ciclo, com ou sem Dilma.
Siga-me no twitter! (@rogerjord)









A lama, a zika, o manicômio: retratos de um Brasil submerso

Matheus Pichonelli
14 de dezembro de 2015

Por Matheus Pichonelli e Daniela Lima
Digam o que quiserem: não há nada mais simbólico da nossa letargia política do que o rompimento da barragem em Mariana (MG). Resultado de um processo ainda mal contado de contenção e acúmulo de resíduos em local, ao que tudo indica, de espaço e estrutura inadequados, o estrago percorreu centenas de quilômetros debaixo de nosso nariz, arrastando o que havia de vida humana, animal e vegetal pelo caminho.
Parecia uma metáfora, mas era o desfile em homenagem à nossa incapacidade de prever, agir e formular respostas diante de colapsos em iminência. Levou ao oceano mais do que o cinismo de um processo histórico viciado em jogar para debaixo do tapete nossos esqueletos não enterrados. Levou para o mar a prova confessa da nossa incompetência.
A grandiosidade da tragédia é proporcional à sua transversalidade. A Samarco, empresa responsável pela barragem mal construída, é o resultado da aliança entre o capital nacional/estatal (a Vale) com o capital estrangeiro (BHP Billiton), uma herança do tempo em que desbravadores, daqui e de fora, esfolavam o que havia no entorno da riqueza e corriam para outras bandas quando o bem primário se esgotava, deixando no caminho um rastro de deserto e destruição.
Foi assim na corrida do ouro, no ciclo da borracha, na cultura do café, da cana, Da exploração do pau-brasil. Ao poder público caberia monitorar e/ou regular a exploração predatória, não fosse também parte dele, numa simbiose iniciada nas formas de financiamento de campanha que não identificam cor nem projeto, apenas prospecção e negócios.
Em 2015, a multidão viu em pânico, a multidão viu atônita, como na Rosa dos Ventos de Chico Buarque, o seu falso despertar. Porque tudo aqui opera aos solavancos, entre prisões e desbaratamento de gangues e carteis, mas recua até quando avança: nossa maior aposta para o futuro, a exploração do petróleo na camada do pré-sal, acaba de ser condenada, na Conferência do Clima em Paris, a se tornar uma riqueza do passado em desuso.
O Planeta caminha para a substituição paulatina dos gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono que se acumulam na atmosfera e causa o aquecimento global, por fontes alternativas de energia.
Estamos prontos para o debate?
Ou falar em aquecimento global será, por aqui, conversa também de petralha ou tucanalha, impossível de ser colocado à mesa como uma questão de TODOS – como é também a violência contra negros, pobres, mulheres e população LGBT?
“Foi você”. “Não, foi você”. “A culpa é sua”. “É sua”. “Canalha”. “Corrupto”. Os sopapos são proferidos em margens opostas; no meio passam toneladas de lama tóxica que fingimos não ser nossa.
Os momentos mais agudos de polarização são também os momentos mais escassos de inteligência. É nesse miolo que passam desapercebidos os falsos profetas, os falsos conciliadores, as falsas pontes para o futuro.
É o que se pode concluir quando, por exemplo, a presidenta que mentiu para se eleger passa a ser alvo do adversário derrotado nas urnas (que provavelmente não mentiu tão menos assim) e para sobreviver no cargo abre as comportas de postos-chave para aliados de ocasião.
Um deles, representante da ala rebelde da Câmara que mal assumiu o Ministério da Saúde, acaba de instalar na coordenação geral de Saúde Mental um conhecido militante da contra reforma psiquiátrica.
Anos de debates, estudos e encaminhamentos em direção à humanização do tratamento substituíram, na última década, o doente pelo usuário, o preso pela pessoa, e possibilitaram a criação, ainda insuficiente, dos chamados centros especializados de atenção psicossocial. Tudo porque, em algum momento, fomos capazes de ver a lama – e as condições desumanas, características de um holocausto, de uma fábrica de internações que encheu as burras de seus gestores e destroçou vidas lançadas às jaulas quando mais precisavam de atenção. (Exagero? Clique NESTE link e tire as próprias conclusões)
Pois esses anos e anos de luta antimanicomial estão agora sob risco de naufrágio com a nomeação para o posto-chave de Valencius Wurch, diretor, nos anos 1990, da Casa de Saúde Dr. Eiras, o nefasto hospício do Rio de Janeiro. Não se trata de uma escolha política, mas de uma opção pelo retrocesso: voltamos algumas casas entre os anos 1990 e 1960, quando generais tomaram posse e espalharam pelo país equipamentos como manicômios e prisões políticas para instalar cordões autoritários entre o normal e o patológico, o produtivo e o improdutivo, o certo e o errado, a pessoa e a não-pessoa.
Enquanto o mundo escancara janelas, nós vedamos as portas. Nosso acerto de contas adiados com o passado começa a cobrar a fatura em forma de…passado.
“Sua vida melhorou nos últimos anos”, perguntam os recenseadores interessados em radiografar uma espécie de recall político da última década sem qualquer margem para o entrevistado estourar as caixinhas diagnósticas e questionar: “Qual vida?”.
Vidas temos muitas; o que nos faltam são horizontes, e nem todos se resumem a dinheiro, partido ou escolhas. “Passo bem, obrigado, mas esse lixo debaixo do tapete ou do leito do rio não vai acabar bem”, podemos responder.
Já não acabaram. Isso talvez explique a baixa disposição em sair às ruas e atacar cabeças sem identificar a raiz. Os atos anti-Dilma do último domingo, por exemplo, parecem não ter qualquer resposta ao fenômeno Eduardo Cunha, acusado por cinco delatores da Lava Jato de corrupção e lavagem de dinheiro. No fim, a claque serve como plateia de uma briga para saber quem vai subir num cavalo que ninguém sabe para onde vai.
E porque não sabe para onde vai é também incapaz de emitir qualquer resposta quando as barragens explodem. Explodem porque estão pobres. Porque operam em estruturas antigas. Porque têm saudades do passado. Porque relegam postos-chave a aliados de conveniência. Porque não se importam com os postos-chave.
A tragédia ambiental da Samarco tem, na essência, a mesma origem da nossa tragédia em outros campos. Das escolas que precisam ser ocupadas pelos alunos para não morrerem por inanição. Dos hospitais despreparados para atender as epidemias mais óbvias – a última delas provocada pelo Zica Vírus, que legará ao futuro uma multidão de pessoas vítimas de microencefalia nascidas em 2015.
Parecem fatos distantes. Só parecem. São resultados da mesma letargia: a que adia debates urgentes para debaixo do tapete e espera a explosão da tragédia para emitir grunhidos em vez de respostas.
Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil