Aécio Neves: 30 dias
Folha SP/Opinião/Tendências e Debates
3011204
Completamos
um mês do fim das eleições presidenciais. Tudo o que se viu neste período
comprova, na prática, o que a oposição denunciou no processo eleitoral: a grave
situação em que o país se encontra.
Além
dos prejuízos causados pela má gestão e pela corrupção endêmica, o PT prestou,
recentemente, mais dois grandes desserviços ao Brasil. Um na campanha, outro
nos dias que se seguiram.
O
primeiro, na ânsia de vencer a qualquer custo, o de legitimar a mentira e a
difamação como armas do embate político. O segundo, o de contribuir para a
perda da credibilidade da atividade política ao fazer, sem qualquer
constrangimento, nos dias seguintes à eleição, tudo o que afirmou que não
faria.
Como
a atividade política é instrumento fundamental da vida democrática, sua
desmoralização só interessa aos autoritários, para quem o discurso político não
é compromisso, mas encenação que desrespeita e agride a cidadania.
Finda
a eleição, a candidata eleita, rapidamente, pôs de lado as determinações do
marketing e colocou em prática tudo o que acusou a oposição de pretender fazer.
Fez
isso sem dar satisfação à opinião pública. Sem dar explicação sequer a seus
próprios eleitores. Os mesmos eleitores que observam, atônitos, a presidente
implantar as “medidas impopulares”, que usou como matéria-prima do terrorismo
eleitoral contra seus adversários.
Hoje
a realidade demonstra que ela concordava com todos os alertas que fiz sobre os
problemas enfrentados pelo país, mas entre o respeito à verdade e aos
brasileiros, e a insinceridade ditada pela conveniência do marketing, a
presidente escolheu o marketing, o que não contribui para engrandecer a sua
vitória.
Na
campanha, o PT dizia que aumentar os juros tiraria comida da mesa do
trabalhador. Três dias depois da eleição, foi justamente isso o que o governo
Dilma fez.
No
discurso do PT, se eleita, a oposição iria reajustar a gasolina, governar com
banqueiros e patrões. Vencida a eleição, o governo anunciou o aumento dos combustíveis
e convidou um banqueiro para a Fazenda. Anunciou ainda dois novos ministros:
para cuidar da agricultura e da indústria, a dirigente e o ex-dirigente das
confederações patronais.
Mesmo
conhecendo a realidade, a candidata teve coragem de dizer que a inflação e as
contas públicas estavam sob controle. Agora, deparamos com mais um rombo
espetacular e manobras inimagináveis para maquiar as obrigações da Lei de
Responsabilidade Fiscal.
Surpresos,
os brasileiros assistem àquilo que muitos estão chamando de estelionato
eleitoral. Tudo isso explica a indignação de milhares de pessoas que vão às
ruas e se mantêm mobilizadas nas redes sociais.
São
pessoas que se sentem lesadas, mas esse sentimento não tem relação com o
resultado eleitoral em si. Processos eleitorais fortalecem a democracia,
qualquer que seja o resultado da eleição. Vencer e perder são faces da mesma
moeda. As pessoas estão se sentindo lesadas porque os valores que saíram
vencedores na disputa envergonham o país.
Além
do grave descalabro econômico e administrativo agora revelado, é assustador o
que ocorre com a nossa maior empresa. Nos debates, ofereci várias oportunidades
para a candidata oficial pedir desculpas aos brasileiros por ter tirado a
Petrobras das páginas econômicas e a levado para o noticiário policial.
A
situação, desde então, agravou-se de uma maneira jamais imaginada. A Petrobras
hoje é um caso de polícia internacional. Não há mais como se desculpar.
Por
outro lado, não deixa de ser simbólico o fato de a presidente ter se negado a
participar do anúncio dos novos ministros da área econômica. É possível que ela
tenha se sentido constrangida por correr o risco de se encontrar com a
candidata Dilma Rousseff.
Os
últimos 30 dias são uma amostra da situação real do Brasil e do que vem pela
frente. E nos mostram por que não podemos nos dispersar.
AÉCIO NEVES, 54, senador por Minas Gerais, foi
candidato à Presidência da República pelo PSDB na eleição deste ano