segunda-feira, 19 de março de 2012

Retrocessos socioambientais do Governo Dilma

 vejam as entidades que assinam este manifesto...


Retrocessos socioambientais do Governo Dilma em pouco mais de um ano.


RETROCESSOS DO GOVERNO DILMA NA AGENDA SOCIOAMBIENTAL 
6 DE MARÇO DE 2012 
O primeiro ano do governo da Presidente Dilma Rousseff foi marcado pelo maior retrocesso 
da agenda socioambiental desde o final da ditadura militar, invertendo uma tendência de 
aprimoramento da agenda de desenvolvimento sustentável que vinha sendo implementada 
ao longo de todos os governos desde 1988, cujo ápice foi a queda do ritmo de 
desmatamento na Amazônia no Governo Lula. Os avanços acumulados nas duas últimas 
décadas permitiram que o Brasil fosse o primeiro país em desenvolvimento a apresentar 
metas de redução de emissão de carbono e contribuíram decisivamente para nos colocar 
numa situação de liderança internacional no plano socioambiental. 
Ao contrário do anúncio de que a presidente aprofundará as boas políticas sociais do 
governo anterior, na área socioambiental, contrariando o processo histórico,  há uma 
completa descontinuidade. A flexibilização da legislação, com a negociação para aprovação 
de um Código Florestal indigno desse nome e a Regulamentação do Artigo 23 da 
Constituição Federal, através da Lei Complementar 140, recentemente aprovada, são os 
casos mais graves. A lista de retrocessos inclui ainda a interrupção dos processos de criação 
de unidades de conservação desde a posse da atual administração, chegando mesmo à 
inédita redução de várias dessas áreas de preservação na Amazônia através de Medida 
Provisória, contrariando a legislação em vigor e os compromissos internacionais assumidos 
pelo país. É também significativo desse descaso o congelamento dos processos de 
reconhecimento de terras indígenas e quilombolas ao mesmo tempo em que os órgãos 
públicos aceleram o licenciamento de obras com claros problemas ambientais e sociais. 
  
Esse processo contrasta com compromissos de campanha assumidos de próprio punho pela 
presidente em 2010, como o de recusar artigos do Código Florestal que implicassem 
redução de Áreas de Proteção Permanente e Reservas Legais e artigos que resultassem em 
anistia a desmatadores ilegais. Todos esses pontos foram incluídos na proposta que deve ir 
a votação no Congresso nos próximos dias, com apoio da base do governo.  
Os ataques às conquistas socioambientais abrem espaço para outros projetos de alteração 
na legislação já em discussão no Congresso. São exemplos a Proposta de Emenda 
Constitucional que visa dificultar a criação de novas Unidades de Conservação e 
reconhecimento de Terras Indígenas; o projeto de lei que fragiliza a Lei da Mata Atlântica; 
os inúmeros projetos para diminuição de unidades de conservação já criadas; a proposta de 
Decreto Legislativo para permitir o plantio de cana de açúcar na Amazônia e no Pantanal e a 
discussão de mineração em áreas indígenas. 
As organizações da sociedade  - que apoiam o desenvolvimento não destrutivo e estão 
preocupadas com a preservação do equilíbrio socioambiental no país - subscrevem este 
documento, alertando a opinião pública para o fato de que o Brasil vive um retrocesso sem 
precedentes na área socioambiental, o que inviabiliza a possibilidade do país continuar 
avançando na direção do desenvolvimento com sustentabilidade e ameaça seriamente a 
qualidade de vida das populações atuais e futuras. 
CÓDIGO FLORESTAL - É o ponto paradigmático desse processo de degradação da agenda 
socioambiental a iminente votação de uma proposta de novo Código Florestal que desfigura 2 
a legislação de proteção às florestas, concede anistia ampla para desmatamentos irregulares 
cometidos até julho de 2008, instituindo a impunidade que estimulará o aumento do 
desmatamento, além de reduzir as reservas legais e Áreas de Proteção Permanente em todo 
o País. A versão em fase final de votação nos próximos dias afronta estudos técnicos de 
muitos dos melhores cientistas brasileiros, que se manifestam chocados com o desprezo 
pelos alertas feitos sobre os erros grosseiros e desmandos evidentes das propostas de lei 
oriundas da Câmara Federal e do Senado.  
Em outras oportunidades, durante os oito anos da administração Fernando Henrique 
Cardoso e nos dois mandatos da administração de Luís Inácio Lula da Silva, houve tentativas 
de reduzir os mecanismos legais de proteção a florestas e ao meio ambiente. Mas a maior 
parte delas foram barradas pelo Executivo, devido à forte contestação da sociedade. Hoje o 
Executivo se mostra inerte e insensível à opinião pública, a começar pelo Ministério do Meio 
Ambiente que interrompeu a realização das Conferências Nacionais de Meio Ambiente e 
tem sido conivente e passivo frente ao desmonte da legislação pertinente à sua área de 
atuação. 
Invertendo aquela tradição, a atual administração deixou sua base parlamentar fazer o que 
bem entendesse, entrando na discussão quando o fato já estava consumado e de forma 
atabalhoada. Setores do governo interferiram para apoiar, às vezes veladamente, às vezes 
nem tanto, as propostas que reduzem as florestas, enquanto a tendência mundial, diante das 
mudanças climáticas, é aumentar a cobertura florestal.  
REDUÇÃO DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO - Nesse primeiro ano, o governo Dilma não 
criou nenhuma unidade de conservação e, numa atitude inédita, enviou ao Congresso a 
Medida Provisória nº 558 que excluiu 86 mil hectares de sete Unidades de Conservação 
federais na Amazônia para abrigar canteiros e reservatórios de quatro grandes barragens, 
nos rios Madeira e Tapajós. Além de não ter havido prévia realização de estudos técnicos e 
debate público sobre as hidrelétricas do Tapajós, a Constituição Federal estabelece que a 
alteração e supressão de áreas protegidas só poderia se dar através de lei, o que levou a 
Procuradoria Geral da República a impetrar Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 
junto ao Supremo Tribunal Federal contra o uso de Medida Provisória pela Presidente.    
REDUÇÃO DO PODER DE FISCALIZAÇÃO DO IBAMA - O governo federal eleito com a 
maior bancada de apoio da história do país, que deveria ser capaz de implementar as 
reformas necessárias para avançar o caminho da democracia, da governança política, da 
economia ágil e sustentável, vem dando sinais de ser refém dos grupos mais atrasados 
encastelados no Congresso. O que o levou a aceitar e sancionar sem vetos a citada Lei 
Complementar 140, que retirou poderes de órgãos federais, tais como o Ibama e o Conama, 
fragilizando esses órgãos que tiveram importância fundamental na redução do 
desmatamento da Amazônia e na construção da política ambiental ao longo dos últimos 
anos. 
ATROPELOS NO LICENCIAMENTO - Mais do que omitir-se diante dos ataques à floresta, o 
governo federal vem atropelando as regras de licenciamento ambiental, que visam 
organizar a expansão dos projetos de infraestrutura no Brasil. Diferente do tratamento dado 
ao licenciamento da BR 163 num passado recente, quando o governo construiu junto com a 
sociedade um Plano de Desenvolvimento Sustentável da região de abrangência da obra, o 
licenciamento da Hidrelétrica de Belo Monte é marcado pelo desprezo às regras, às 3 
condicionantes ambientais e à necessidade de consulta às populações indígenas afetadas. 
Esse novo “modus operandi” vem tornando-se prática rotineira, o que ameaça a integridade 
da região amazônica, onde pretende-se instalar mais de 60 grandes hidrelétricas e 170 
hidrelétricas menores. O conjunto de grandes e pequenas hidrelétricas provocará não só 
mais desmatamento associado à migração e especulação de terras como, ao alterar o regime 
hidrológico dos rios da região, afetará de forma irreversível populações indígenas e 
comunidades locais. 
PARALISIA NA AGENDA DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS - Entre 2005 e 2010 o Brasil vinha 
dando passos decisivos ano após ano para avançar a agenda de enfrentamento das 
mudanças climáticas no cenário nacional e internacional. Esse esforço culminou, em 2009, 
com a acertada definição de metas para redução de gases de efeito estufa incorporadas na 
Lei da Política Nacional de Mudanças Climáticas que pautaram a virada de posição das 
economias emergentes. A regulamentação da lei em 2010 determinou a construção dos 
planos setorias para redução de emissões em 2011. Porém o que se viu em 2011 foi uma 
forte retração da agenda e nenhum dos planos setoriais previstos para serem desenvolvidos 
no primeiro ano do governo Dilma foram finalizados nem sequer passaram por qualquer 
tipo de consulta publica.  
LENTIDÃO NA MOBILIDADE - A agenda socioambiental caminha vagarosamente mesmo 
nas áreas apontadas pelo governo como prioritárias -- a construção de obras de 
infraestrutura. O PAC da Copa, lançado em 2009, prevê investimentos de R$ 11,8 bilhões em 
melhoria da mobilidade urbana, mas só foram efetivados 10% dos. Já é de conhecimento 
público que os sistemas metroviários não estarão em operação em 2014. No início deste 
governo foi lançado o PAC da Mobilidade, mas até o presente momento ainda não foram 
selecionados oe projetos e assinados nenhum contrato para desembolso de verba foi 
assinado.  
  
LENTIDÃO NO SANEAMENTO - Os investimentos em saneamento também andaram mais 
devagar do que fazia crer a intensa propaganda eleitoral. Com um orçamento inicial de R$ 
3,5 bilhões, o governo investiu efetivamente apenas R$ 1,9 bilhões, valor 21% menor que 
em 2010. A liberação de recursos pela Caixa Econômica Federal também deixou a desejar 
(R$ 2,3 bilhões até novembro, apenas 25% do contratado). Peça fundamental de uma 
estratégia de redução da poluição de nossas águas, o saneamento básico no Brasil tem 
números vergonhosos: apenas 44,5% da população brasileira está conectada a redes de 
esgotos; e desse esgoto coletado, somente cerca de 38% é tratado (o que significa que mais 
de 80% do esgoto produzido no Brasil é despejado na natureza). 
LENTIDÃO NA REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA E AUMENTO DA VIOLÊNCIA NO CAMPO - 
Não é apenas na criação de unidades de conservação e terras indígenas e quilombolas que a 
hegemonia dos setores mais retrógrados do país se faz presente. O primeiro ano do governo 
Dilma foi marcado pelo pior desempenho na área de criação de assentamentos da reforma 
agrária desde, pelo menos, 1995. O desembolso de recursos com ações para estruturar 
produtivamente os assentamentos já existentes foi o mais baixo da última década: R$ 65,6 
milhões.  O processo de titulação de terras indígenas e de quilombos também se arrasta – 
em 2011, só uma terra de quilombo foi titulada e três terras indígenas homologadas.  
Esses retrocessos coincidiram com o aumento da violência no campo. Segundo 
levantamento do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), 38 índios foram assassinados nos 
nove primeiros meses do ano passado, sendo 27 no Mato Grosso do Sul, cenário de tensas 4 
disputas por direitos territoriais. Esses números são engrossados por pelo menos oito 
assassinatos de agricultores familiares e/ou extrativistas em disputas com grileiros de 
terras, principalmente na região norte. 
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE INERTE – Diante desses ataques contra a estrutura e 
competências de sua pasta, o Ministério do Meio Ambiente, de forma inédita, tem acatado 
com subserviência inaceitável os prejuízos para as atribuições de órgãos , como a 
fragilização do Conama e a redução dos poderes do Ibama na fiscalização e no 
licenciamento. Frente as agressões ao bom senso e à ciência contidas na proposta do Código 
Florestal, a Ministra deu seu beneplácito ao aceitar a alegação de que o texto não continha 
cláusulas de anistia, quando ele claramente concede perdão amplo, geral e irrestrito para a 
grande maioria dos desmatadores ilegais. 
Diante desses retrocessos apontados, as organizações sociais signatárias apelam para que a 
Presidente cumpra os compromissos assumidos em campanha e retome a implementação 
da agenda de sustentabilidade no País. Somente uma ação forte nesse sentido evitará os 
graves prejuízos para a sociedade brasileira e que o Brasil viva o vexame de ser ao mesmo 
tempo anfitrião e vilão na Rio + 20, em junho deste ano. 
Instituto Socioambiental - ISA 
Instituto Democracia e Sustentabilidade  - IDS 
Fundação SOS Mata Atlântica  
Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia - Imazon 
Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – Ipam 
Instituto Vitae Civilis 
Rios Internacionais - Brasil  
Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA) 
Grupo de Trabalho Amazônica (Rede GTA)   
Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi) 
Associação Alternativa Terrazul 
WWF Brasil 

ISA (@socioambiental)
06/03/12 14:23
Sociedade civil lança documento sobre retrocessos socioambientais do governo Dilma t.co/QVgvnoNg