quarta-feira, 25 de março de 2015


Pare de chilique com a direita, ou você vai ter que aguentar... a direita – OU o medo é de direita

Desde o dia 15, as hostes petistas tentam levantar uma barreira simbólica contra as manifestações, pinçando simbologias fascistas, nazistas e opressivas em geral (ou simplesmente burrinhas) nas fotos. Eu estaria em desespero com essa cegueira da classe média urbana intelectualizada e “bem-intencionada” (que foi essencial para reeleger Dilma), se as massas propriamente ditas já não estivessem dando sinais claros de estarem desistindo da presidente, como indicam as pesquisas mais recentes.
Eu não tenho o menor pudor de me juntar aos direitistas que querem a saída de Dilma. Pudor aqui é o termo exato. Porque a barreira simbólica petista tenta operar com ondas de medo, culpa e vergonha – acionando nosso pior DNA cristão ibérico. Ou seja, a esquerda oficial joga com as piores armas… da direita. E continua a reforçá-la. Eu não tenho a menor dúvida de que foram a total incapaciade de autocrítica do PT, e seus comportamentos tortuosos, que criaram uma nova direita, e a estão alimentando com muita proteína política.
De alguma maneira, na última eleição, a capacidade que Lula demonstrou durante alguns anos de envolver a centro-direita social (que não é a centro-direita política, e no momento está até mais radicalizada do que esta, espantando os partidos de oposição) estava concentrada em Marina, e não em Dilma. Marina era o Lula 2.0, no sentido de acalmar e acolher as massas de centro-direita. Era um efeito curioso, porque Marina na verdade sempre esteve à esquerda da ex-guerrilheira Dilma (que não tem o menor problema em escalar e bajular Kátia Abreu, por exemplo, inimiga de todas as causas populares, mas particularmente as indígenas e ambientais).
O engodo de que uma “ex-guerrilheira” está forçosamente à “esquerda” de uma “evangélica” foi servido com habilidade pelo marqueteiro João Santana (e com um papel-chave da militância gay, que hoje está fascinada com uma pauta casadoira e noveleira de classe média). Mas o custo foi alto – e extremamente rápido. Porque a ex-guerrilheira em questão não tem a menor densidade política própria; é exclusivamente uma herdeira de décadas de trunfos acumulados por Lula. No momento em que se sentiu mais à vontade para implementar sua própria visão (o pior momento da economia, diga-se de passagem), deu-se a quebra memética. Ao contrário de Lula, Dilma não tem mandato popular pra mentir e seguir em frente.
Pior, essa quebra desestabiliza totalmente o acordo de governabilidade com o PMDB, num momento em que tanto PT quanto PMDB estão pressionados pelas investigações do Petrolão, e é muito tentador um tentar jogar o principal da corrupção na conta do outro (como vimos nos embates de Eduardo Cunha e Renan Calheiros com Dilma). É essa investigação que impede que um acordo tranquilizador entre eles seja costurado de novo. Dilma não estava “errada” em tentar diminuir a influência do PMDB no governo, mas nunca teve força para fazê-lo, e tentou no momento mais inadequado (a montagem do ministério no segundo mandato).
Lula tinha capital político para ter feito isso em outra hora – se tivesse se lançasse candidato ao invés de Dilma, por exemplo, e costurasse uma outra base, sem essa dependência quase total do PMDB –, mas Lula nunca quis isso. Agora, sob a pressão da investigação, nem escalando de novo a melhor dobradinha entre Lula e Michel Temer – que tinham sido postos no banco por Dilma –, vai ser possivel recuperar o controle do jogo político. O momentum petista está perdido, provavelmente para sempre.
Como explica o cientista político Giuseppe Cocco nesta boa análise, “quanto mais o PT angariar esses apoios supostamente destinados a ‘barrar’ a direita, mais o eixo político representativo deriva para a direita, como a eleição de Cunha e Calheiros no Congresso e no Senado nos confirmou logo depois das eleições. Inclusive, o PT insufla o imaginário irresponsável de um terceiro turno. Junho (de 2013) tinha conseguido a proeza de romper o binarismo sem, contudo, entrar na crítica sistemática do PT. Hoje o PT conseguiu a proeza de fazer da sua derrota a condição indispensável para que a esquerda se reinvente”.
Cocco continua: “No dia 15, independentemente de partidos e organizações tradicionais e novas da direita democrática e da direita reacionária, manifestaram amplos setores sociais que estão pagando parte da conta de uma crise múltipla que é do PT-PMDB, do peemedebismo. O PT conseguiu fazer como na Argentina e na Venezuela, entregar à direita a hegemonia sobre a justa indignação. Houve sim uma verdadeira e massiva mobilização social, mas com um viés conservador. Para as forças de transformação democrática (ou seja, para a esquerda como resultado dessa prática e não como condição metafísica), o desafio é hoje como conseguir ficar dentro dessa justa indignação”.
Concordo com Cocco em que “a energia social” (e não a pauta) do dia 15 é uma espécie de continuação das jornadas de junho de 2013 com algumas chavinhas viradas – basicamente por omissão e incapacidade do PT em ler as ruas, depois que chegou ao poder. Quem também pensa com clareza nessa direção é Bruno Cava Rodrigues, para quem, em seu blog, “Se não fizermos o dever de casa, se continuarmos apenas destacando os gomos estragados da laranja, generalizando os golpistas-reaças-coxinhas, favoreceremos exatamente que essas tendências se unam, na integralidade, contra nós mesmos. E aí, como escreveu Safatle ontem, não naufragam apenas o governo e o PT, mas as esquerdas como um todo” (a entrevista do filósofo Vladimir Safatle que ele cita é esta aqui).
Uma outra colocação de Cava, para quem o “7 x 1″ do PT foi o dia 15, e agora vem o jogo com a Holanda: “Não é hora de abraçar uma posição amuada ou francamente ressentida. Não adianta acusar o outro de ódio enquanto satura o ambiente de sarcasmos e veemências. Não adianta criticar o nacionalismo enquanto se incorre nele ao elogiar a ‘Copa das Copas’ em clima de ‘ame-o ou deixe-o’ ou ao aderir ao imaginário do Brasil pra Frente cujo emblema é Belo Monte. E não adianta agora reclamar de movimentos como MBL, Revoltados ou VempraRua, se há pouco tempo o governo com Cardozo, sob aplauso dos ‘progressistas’, coordenava a repressão de ativistas, ou quando Haddad comparou o MPL ao fundamentalismo terrorista”.
O jornalista Raphael Tsavkko Garcia também produz análise interessante em seu blog, em que afirma “O governo petista acabou (…) O fato é que o PT está nas cordas e querer continuar brigando como se isso fosse resolver simplesmente não funciona. Ridicularizar protesto contrário, ‘xingar muito no twitter’ ou mesmo manter a soberba são a receita perfeita para se dar mal (…) O PT está pagando por ter adotado a agenda do PSDB. Está pagando por ter se aliado e dado forças aos evangélicos fundamentalistas, por ter feito um governo que abusou diariamente dos direitos humanos dando voz e espaço para o preconceito e o fundamentalismo e especialmente por ter cooptado e desmobilizado movimentos sociais os usando como correia de transmissão de suas políticas em geral contrárias aos interesses destes mesmos movimentos”.
Hoje, quarta feira, Dilma apresentou ao congresso um pacote de leis contra a corrupção. Não interessa mais nem se isso é oportunista – interessa que parece oportunista. Cada movimento de Dilma (mesmo os eventualmente corretos) pesam contra ela, soam como piada e como ofensa. E isso ainda que seja praticamente impossível Dilma fazer movimentos corretos a esta altura do campeonato. Está claro que é assim desde o pronunciamento da semana passada, que inaugurou o panelaço (Dilma dá tiro no pé monstrão), assunto que desenvolvo aqui (Dilma está errando… porque não tem como acertar) e aqui (Talvez a defesa da democracia dependa de derrubar Dilma).
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Pior, no centro do pacote de hoje de Dilma está a criminalização do caixa dois de campanha, exatamente no momento em que o tesoureiro do PT, João Vaccari (com Lula na foto), entra na linha de tiro da investigação. É tarde demais para entregar a cabeça de Vaccari. E expô-lo expõe o PT, no mesmo grau em que a estrutura corrupta do PP já está exposta. A imagem que me vem à cabeça é a de que Dilma já está de costas à beira do precipício político, que simplesmente não há mais como dar um passo atrás. Eliane Brum é outra que ajuda a desconstruir mitos como a “guinada à esquerda” e os “coxinhas”, em A mais maldita das heranças do PT.
Só não compartilho com Tsavkko um certo receio da direita, com que conclui seu texto. Não acho que caiba nada que se pareça com “medo” neste momento – pelas razões que expus inicialmente. Este momento é contrário ao medo. É o de assumir com alegria e despudor que não só o governo Dilma como o ciclo da narrativa petista acabaram. E que isso não é uma derrota, mas o colapso necessário de narrativas do século passado, inclusive e principalmente as que se querem “de esquerda”. Que precisam cair em desuso para pensarmos o novo, para que o século 21 (a esquerda brasileira do século 21) comece finalmente.
Porque de certo modo Dilma magnetiza e dá passagem a todas as discussões superadas do século 20 – sejam contra ou a favor. Vamos rifar Lula, Dilma e o PT, como Lula e Dilma rifaram José Dirceu? Vamos. E isso é bom. Hoje um pensamento “de esquerda” não depende de preservá-los, pelo contrário; só acontece na ausência deles (a não ser como figuras da história recente). Ao contrário da Venezuela, não dependeremos do dramalhão piegas do fantasma do Chavez fazendo aparições em passarinhos e aterros. Demorô. Desapega. O PT já completou a transição de solução a problema.
Ou: quem não parar de reproduzir os chiliques petistas com a direita, vai ter que aguentar a direita de verdade.
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