Alex Antunes
Renato Janine Ribeiro entra: a) no ministério; b) em coisa nenhuma; c) numa roubada
Por Alex Antunes | Alex Antunes – seg, 30 de mar de 2015

Me espanta a ingenuidade das pessoas que saudaram a nomeação do professor Renato Janine Ribeiro para o ministério da Educação. Não porque ele, um filósofo e articulista respeitável, não tenha qualidades – mas sequer acho necessário discuti-las aqui. É simplesmente porque o momento em que Dilma poderia sinalizar um ministério de qualidade já passou. Agora ele precisaria de um ministério de guerra – e provavelmente nem esse daria conta dos embates que se intensificam.
A descrição que ele faz do convite no facebook é singela: “Ufa! Não tive tempo até agora de agradecer os cumprimentos nem de comentar minha nomeação para a Educação, pela presidenta Dilma (…) Na quinta-feira recebi uma ligação do ministro Aluizio Mercadante, me convidando a ir a Brasilia para vermos a possibilidade de eu ocupar este cargo. Aceitei. Cancelei alguns compromissos – um deles seria participar da performance, longa mas que deve ser fascinante, da Marina Abramovic no Sesc. Fui recebido por ele e pela presidenta, com quem tive longa conversa. Depois, fui ao MEC, onde o secretário executivo, que permanecerá, me fez um briefing inicial de um dos ministérios maiores, mais complexos e mais ricos da Esplanada. Bom lembrar que são 50 milhões de alunos e 2 milhões de professores! É o Brasil que está lá – subindo a ladeira”.
Fora o fato meio pelego de subitamente passar a usar o termo “presidenta” (ele usava “presidente”, nos escritos que eram críticos ao governo, sem serem de oposição), e de contar candidamente que deixou de ir a um programa no Sesc para, err, entrar no governo, Janine Ribeiro mostra como sua indicação surgiu do nada, um raio em céu azul. Não há a menor indicação de conversas, articulações ou quaisquer intenções anteriores, de parte a parte.
Não que esse não seja um jeito possível de se montar um governo, com notáveis no ministério. Coube fazer isso no primeiro governo de Lula, como caberia (e era a intenção expressa) num governo de Marina Silva. Ou mesmo neste governo Dilma, se ela expressasse desde o início a intenção de se recompor com a sociedade. Mas, pelo contrário, o seu ministério surgiu marcado pela submissão à ortodoxia econômica, negocial e política, com Kátia Abreu, Joaquim Levy, Gilberto Kassab, George Hilton e outros. O estrago estava feito. Foi na brecha entre as promessas de campanha e a realidade dura que o fogo “amigo” do PMDB de Eduardo Cunha e Renan Calheiros entrou rasgando. E desestruturando totalmente a “governabilidade”, da qual supostamente é o fiador.
Renato Janine Ribeiro chega para fazer companhia a Juca Ferreira: outro nome interessante que não vai ter tempo, dinheiro nem potência política para fazer coisa nenhuma. Não é à toa de que o fato político mais vibrante desde que Dilma assumiu foi a “autodesindicação” de Cid Gomes, o antecessor de Janine Ribeiro no ministério. Cid foi ao congresso tratar da única questão política que interessa no momento: o abraço de morte que o PMDB deu em Dilma e no PT.
Naturalmente nesse abraço são só Dilma e o PT que morrem: o PMDB consegue estar ao mesmo tempo na oposição e no governo (e aumentando seu poder!), cozinhando lentamente a hipótese do impeachment. É como se tudo no Brasil se afunilasse e reduzisse: a) às escolhas imbecis que o PT fez em sua política de alianças, durante 12 anos, e b) ao enfrentamento cortês das alas do PMDB a respeito de quem manda e de quem vai mandar no Brasil, se Eduardo Cunha, se Michel Temer. Não há mais governo do PT. O filósofo Renato Janine Ribeiro não entrou em coisa nenhuma, a não ser numa roubada.
Hábil foi Cid Gomes: conseguiu dizer que o rei está nu (que o PMDB é um bando chantagista e oportunista, que mantém a presidente refém), e expor Dilma como se a estivesse defendendo. Até alguns partidários de Dilma admiraram a “macheza” – como se o que Cid fez não fosse desconstruir o governo ainda mais um pouco (com objetivos eleitorais em 2018, do irmão Ciro ou dele mesmo, dizem).
Cid saiu como Thomas Traumann, da secretaria de Comunicação da Presidência, que escancarou a catástrofe que é a imagem do governo. Saiu por “dizer a verdade” – não exatamente por sincericídio, mas porque o rei está escandalosamente nu. Não há mais nem como sustentar a fraude que o projeto petista se tornou. Para o lugar de Traumann – e o controle da verba publicitária de cerca de R$ 200 milhões – entra não outro jornalista, mas o ex-tesoureiro da campanha. Aí sim é a vida real.
Enquanto alguns analistas de conjuntura ainda enxergam uma luta entre “esquerda” e “direita”, o que se configura é uma luta do país contra as instituições apodrecidas. A presidência será apenas a primeira a ser arrastada. Se os que se imaginam de “esquerda” não se colocarem fora da linha de tiro, e disputarem a honra de derrotar esse governo, serão politicamente derrotados junto com ele. É o Brasil descendo a ladeira (e não “subindo”). Renato Janine Ribeiro deveria é ter ido ver a Marina Abramovic.
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