O tempo, o implacável, o que virá, por Ricardo Cavalcanti-Schiel
TER, 28/07/2015 - 18:35
(Comentário ao post "Contra diálogo, FHC está no lado errado da História, por Paulo Moreira Leite")
"El tiempo, el implacable, el que pasó,
Siempre una huella triste nos dejó,
¡Qué violento cimiento se forjó!
Llevaremos sus marcas imborrables.
Aferrarse a las cosas detenidas
Es ausentarse un poco de la vida.
La vida que es tan corta al parecer
Cuando se han hecho cosas sin querer."
(Pablo Milanés)
O problema de certos analistas é o de lerem a política com os olhos do desejo, e não com os olhos da racionalidade da própria política.
Em 2003 eu estava fazendo trabalho de campo na Bolívia quando eclodiu a "guerra do gás", que viria a defenestrar o presidente neoliberal Gonzalo Sánchez de Lozada em outubro. Lá por setembro, o governo Lula enviou o Marco Aurélio Garcia como emissário, que chegou à Bolívia defendendo que as partes em conflito sentassem para conversar. A primeira coisa que eu pensei ao ouvir isso pela rádio Erbol, em uma comunidade quechua no meio dos Andes, foi: o "conciliacionismo" do Lula perdeu o juízo. Será que eles não percebem que qualquer momento de conversar por aqui já passou há muito tempo? o momento agora é de confrontação, e qualquer saída para essa crise só vai pôr seus termos na mesa após essa confrontação.
Parece que o "conciliacionismo" só se pauta pela conveniência própria, jamais pelos pesos e medidas da dinâmica política.
Em artigo hoje no Página 12, de Buenos Aires, nosso indefectível Eric Nepomuceno lembra que em dezembro de 2013, voltando do funeral de Mandela na África do Sul, FHC teria sugerido a Lula e Dilma abrir um diálogo político, ao que Lula reagiu dizendo que naquele momento o que lhe interessava era ganhar as eleições no ano seguinte. Agora seria a vez de FHC responder aos dois: "no gracias".
O que a resposta de FHC revela não é que ele simplesmente se tornou um anão mesquinho e que ele simplesmente está "do lado errado da história", como quer Paulo Moreira Leite, no 247. O que ela revela é que o tempo de uma possível pactação já passou.
Como os ouvidos de Lula, Dilma, seu ministério e o PT entraram em colapso para ouvir as mensagens políticas desde, pelo menos, as manifestações de junho de 2013, eles agora parecem não perceber que o tempo está se esgotando rapidamente para a sua sobrevivência política.
E com isso seguem em vôo cego, implacável, como se cumprissem o roteiro de uma tragédia grega, aquela que, segundo Aristóteles, se caracteriza tão apenas pelo encadeamento implacável dos fatos em direção a um destino do qual todos os atos dos personagens só fazem confirmar. A tragédia caracteriza-se por esse mergulho cego no incontornável, e não, simplesmente, na irrupção fortuita da fatalidade.
Em outro artigo reproduzido aqui no blog, Marcos Nobre argumenta que o grande fenômeno político dos dias que passam é a sobreposição do tempo do Judiciário sobre otiming da política partidária e eleitoral. Talvez. Talvez isso seja apenas uma questão de escala, porque o tempo da política está dizendo que, com 62,8% de aprovação popular, entramos agora, definitivamente, na agenda do impeachment.
O que este tempo nos põe agora é a expectativa para as manifestações de 16 de agosto, para o anúncio do parecer do TCU... Não adianta mais desejar que as coisas não sejam assim! Não adianta mais brandir todo o juridiquês do mundo para dizer que não haverá impeachment. É a possibilidade mesma do impeachment que está dada como fato político a se construir. Já não é mais tempo de retórica. Ou se trabalha com a política e com o arsenal que ela dispõe, ou o fato estará consumado.
O problema é que Dilma, seu ministério, Lula e o PT já não têm mais arsenal nem exércitos. Perderam-nos ao abandonarem qualquer vislumbre de programa de governo e embarcarem na canoa quebrada da duvidosa panaceia do ajuste fiscal. Perderam-nos ao traírem seus melhores combatentes imediatamente após as eleições. Eles só contam com um punhado de burocratas acomodados, obtusos e míopes, que se bastam em reiterar seus mantras enquanto o terremoto consome o solo aos seus pés.
Diante desse tempo implacável, ou só o inusitado salva seus pescoços ou caminharão todos, tragicamente, ofuscados por suas verdades e desejos resplandecentes, para o abismo que não conseguem enxergar.
"El tiempo, el implacable, el que pasó,
Siempre una huella triste nos dejó,
¡Qué violento cimiento se forjó!
Llevaremos sus marcas imborrables.
Aferrarse a las cosas detenidas
Es ausentarse un poco de la vida.
La vida que es tan corta al parecer
Cuando se han hecho cosas sin querer."
(Pablo Milanés)
O problema de certos analistas é o de lerem a política com os olhos do desejo, e não com os olhos da racionalidade da própria política.
Em 2003 eu estava fazendo trabalho de campo na Bolívia quando eclodiu a "guerra do gás", que viria a defenestrar o presidente neoliberal Gonzalo Sánchez de Lozada em outubro. Lá por setembro, o governo Lula enviou o Marco Aurélio Garcia como emissário, que chegou à Bolívia defendendo que as partes em conflito sentassem para conversar. A primeira coisa que eu pensei ao ouvir isso pela rádio Erbol, em uma comunidade quechua no meio dos Andes, foi: o "conciliacionismo" do Lula perdeu o juízo. Será que eles não percebem que qualquer momento de conversar por aqui já passou há muito tempo? o momento agora é de confrontação, e qualquer saída para essa crise só vai pôr seus termos na mesa após essa confrontação.
Parece que o "conciliacionismo" só se pauta pela conveniência própria, jamais pelos pesos e medidas da dinâmica política.
Em artigo hoje no Página 12, de Buenos Aires, nosso indefectível Eric Nepomuceno lembra que em dezembro de 2013, voltando do funeral de Mandela na África do Sul, FHC teria sugerido a Lula e Dilma abrir um diálogo político, ao que Lula reagiu dizendo que naquele momento o que lhe interessava era ganhar as eleições no ano seguinte. Agora seria a vez de FHC responder aos dois: "no gracias".
O que a resposta de FHC revela não é que ele simplesmente se tornou um anão mesquinho e que ele simplesmente está "do lado errado da história", como quer Paulo Moreira Leite, no 247. O que ela revela é que o tempo de uma possível pactação já passou.
Como os ouvidos de Lula, Dilma, seu ministério e o PT entraram em colapso para ouvir as mensagens políticas desde, pelo menos, as manifestações de junho de 2013, eles agora parecem não perceber que o tempo está se esgotando rapidamente para a sua sobrevivência política.
E com isso seguem em vôo cego, implacável, como se cumprissem o roteiro de uma tragédia grega, aquela que, segundo Aristóteles, se caracteriza tão apenas pelo encadeamento implacável dos fatos em direção a um destino do qual todos os atos dos personagens só fazem confirmar. A tragédia caracteriza-se por esse mergulho cego no incontornável, e não, simplesmente, na irrupção fortuita da fatalidade.
Em outro artigo reproduzido aqui no blog, Marcos Nobre argumenta que o grande fenômeno político dos dias que passam é a sobreposição do tempo do Judiciário sobre otiming da política partidária e eleitoral. Talvez. Talvez isso seja apenas uma questão de escala, porque o tempo da política está dizendo que, com 62,8% de aprovação popular, entramos agora, definitivamente, na agenda do impeachment.
O que este tempo nos põe agora é a expectativa para as manifestações de 16 de agosto, para o anúncio do parecer do TCU... Não adianta mais desejar que as coisas não sejam assim! Não adianta mais brandir todo o juridiquês do mundo para dizer que não haverá impeachment. É a possibilidade mesma do impeachment que está dada como fato político a se construir. Já não é mais tempo de retórica. Ou se trabalha com a política e com o arsenal que ela dispõe, ou o fato estará consumado.
O problema é que Dilma, seu ministério, Lula e o PT já não têm mais arsenal nem exércitos. Perderam-nos ao abandonarem qualquer vislumbre de programa de governo e embarcarem na canoa quebrada da duvidosa panaceia do ajuste fiscal. Perderam-nos ao traírem seus melhores combatentes imediatamente após as eleições. Eles só contam com um punhado de burocratas acomodados, obtusos e míopes, que se bastam em reiterar seus mantras enquanto o terremoto consome o solo aos seus pés.
Diante desse tempo implacável, ou só o inusitado salva seus pescoços ou caminharão todos, tragicamente, ofuscados por suas verdades e desejos resplandecentes, para o abismo que não conseguem enxergar.