Tudo é epílogo depois que a Dilma e o Lewandowski reuniram-se em Portugal
Josias de Souza
Fachada do hotel em que Dilma se reuniu com Lewandowski e Cardozo, na cidade portuguesa do Porto
O que aconteceu na última terça-feira, dia 7 de julho, durante a passagem de Dilma Rousseff pelo Hotel Sheraton, na cidade portuguesa do Porto? Pode-se afirmar com 100% de certeza que lá, na elegante hospedaria, a presidente se encontrou com o comandante do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Pode-se declarar também, sem margem para dúvidas, que os três tentaram manter a reunião em segredo. Por último, é imperioso constatar que essa conversa, por disparatada, jamais deveria ter ocorrido.
Desde que o primeiro delator da Lava Jato começou a soar, a plateia esperava pelo sinal de que o fim, ou pelo menos a encrenca terminal que empurraria a cena para o caos, estivesse próximo. Aguardava-se o fato que justificasse o uso do ponto de exclamação que se escuta quando as pessoas dizem “não é possível!” Pois bem, o sinal foi dado. Esse episódio do encontro que se pretendia clandestino de Dilma com Lewandowski e Cardozo vai ficar, no enredo da tragicomédia nacional, como um marco da derrocada. De agora em diante, tudo é epílogo.
Depois de Paulo Roberto Costa, o Paulinho, já moveram os lábios outros 17 delatores. O mais recente foi Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC e coordenador do cartel que roubou pelo menos R$ 19 bilhões dos cofres da Petrobras. Antes dessa delação, Dilma silenciava sobre a Lava Jato. Era problema do PT. Por mal dos pecados, os depoimentos de Pessoa empurraram para dentro da caixa registradora da última campanha da presidente R$ 7,5 milhões roubados na Petrobras. E madame teve de dizer algo: “Não respeito delator”.
Dentro de dois dias, a Justiça Eleitoral tomará o depoimento de Ricardo Pessoa. E os R$ 7,5 milhões podem ser enfiados nas páginas de um processo em que o Tribunal Superior Eleitoral perscruta a prestação de contas da campanha de Dilma. O julgamento está previsto para setembro. Em tese, o veredicto pode levar à destituição de Dilma e do vice-presidente Michel Temer. Dessa decisão caberia um recurso para o STF de Lewandowski.
Outro assunto que pode morrer na Suprema Corte é o parecer que o Tribunal de Contas da União emitirá em agosto sobre a contabilidade do governo Dilma referente a 2014. São grandes, muitos grandes, enormes as chances de o TCU rejeitar a escrituração do governo. Algo que, no limite, poderia levar à abertura no Congresso de um processo de afastamento de Dilma pela prática de crime de responsabilidade.
Foi contra esse pano de fundo que Dilma conversou com Lewandowski e Cardozo em Portugal. Descobertos pelo repórter Gerson Camarotti, eles tentam emplacar uma fantasia que não faz nexo. Nessa versão, difundida pelo ministro da Justiça, sua chefe e o presidente do Supremo conversaram sobre o projeto que concedeu aos servidores do Judiciário reajuste salarial médio de 59,5%.
Veja bem: Dilma e Lewandowski trabalham em prédios vizinhos, um defronte do outro, com a Praça dos Três Poderes de permeio. Poderiam conversar sobre salários de servidores numa audiência oficial, em Brasília. Mas querem convencer a plateia de que, tendo cruzado o Atlântico, alguma razão inadiável levou-os a dialogar sobre a folha do Judiciário num furtivo encontro noturno, no faustoso hotel de Portugal. A esse ponto chegamos: o absurdo adquiriu uma doce, persuasiva, admirável naturalidade.
O brasileiro é um sujeito de poucos espantos. Horroriza-se pouco, é verdade. Mas convém não cutucar a paciência alheia com vara tão curta. Dilma estava a caminho da Rússia. Aterrissou em Portugal a pretexto de reabastecer o jato presidencial. Em vez de Lisboa, preferiu o Porto. Lewandowski e Cardozo estavam na cidade de Coimbra. Participavam de um seminário de nome sugestivo: “O Direito em Tempos de Incertezas.”
Na versão oficial, Lewandowski soube por Cardozo que Dilma faria escala em Portugal. E pediu ao ministro da Justiça que intermediasse o encontro com a presidente. Em Brasília, o mandachuva do STF poderia cruzar a praça a pé para chegar à sala de Dilma. Em Portugal, teve que vencer os cerca de 120 quilômetros que separam Coimbra do Porto. E querem que ninguém faça a concessão de uma surpresa. É certo que o brasileiro baniu dos seus hábitos o ponto de exclamação. Mas há limites para o cinismo.
Em agosto de 2007, quando a denúncia da Procuradoria da República sobre o escândalo do mensalão foi convertida pelo STF em ação penal, Lewandowski foi o ministro que mais divergiu do voto do relator Joaquim Barbosa. Foram 12 divergências. Discordou, por exemplo, do acolhimento da denúncia contra José Dirceu e José Genoino por formação de quadrilha.
A despeito das diferenças, o Supremo mandou ao banco dos réus todos os acusados. Terminada a sessão, Lewandowski foi jantar com amigos numa casa de repastos chamada Expand Wine Store. Em dado momento, soou-lhe o celular. Era o irmão, Marcelo Lewandowski.
O ministro levantou-se da mesa e foi para o jardim externo do restaurante. Para azar de Lewandowski, a repórter Vera Magalhães, acomodada em mesa próxima, ouviualgumas de suas frases. Coisas assim: “A imprensa acuou o Supremo. […] Todo mundo votou com a faca no pescoço.” Ou assim: “A tendência era amaciar para o Dirceu”.
Lewandowski insinuou que, no seu caso, o amaciamento não traria prejuízos à imagem: “Para mim não ficou tão mal, todo mundo sabe que eu sou independente”. Deu a entender que, não fosse pela “faca no pescoço”, poderia ter divergido muito mais: “Não tenha dúvida. Eu estava tinindo nos cascos.”
Convertidas em manchete, as frases de Lewandowski produziram constrangimento no STF. Presidente do tribunal na época, Ellen Gracie, hoje aposentada, divulgou uma nota. Nela, escreveu:
“O Supremo Tribunal Federal – que não permite nem tolera que pressões externas interfiram em suas decisões – vem reafirmar o que testemunham sua longa história e a opinião pública nacional, que são a dignidade da Corte, a honorabilidade de seus ministros e a absoluta independência e transparência dos seus julgamentos. Os fatos, sobretudo os mais recentes, falam por si e dispensam maiores explicações.”
Dos oito ministros indicados por Lula, Lewandowski foi o primeiro cujo nome seguiu para o Diário Oficial depois da explosão do mensalão. O escândalo ganhou o noticiário em maio de 2005, quando Roberto Jefferson jogou o esquema no ventilador numa entrevista à repórter Renata Lo Prete. E Lewandowski chegou ao tribunal em fevereiro de 2006.
Professor com mestrado e doutorado na USP, Lewandowski era desembargador em São Paulo quando Lula o escolheu. Formara-se na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, berço sindical e político de Lula. A família Silva não lhe era estranha. A mãe do ministro fora vizinha de Marisa Letícia, a mulher de Lula. No julgamento do mensalão, mostrou-se solidário sempre que topou com petistas graúdos.
Considerando-se o cargo em que está investido no momento, seria recomendável que Lewandowski narrasse aos colegas de toga e ao país, em sessão pública, transmitida pela TV Justiça, o que sucedeu entre as quatro paredes do Sheraton, na cidade do Porto, na noite da última terça-feira, dia 7 de julho. Seu silêncio pode levar as almas mais desconfiadas a supor que Lewandowski continua “tinindo nos cascos''.
Quanto ao resto dos brasileiros, entre eles os deputados que ouvirão José Eduardo Cardozo na CPI da Petrobras na próxima quarta-feira, ai dos que ousarem encarar os fatos sem horror. Sobretudo depois que ficou entendido que, a partir de agora, tudo é epílogo. Pode ser um epílogo curto ou longo. Só não pode ser medíocre.
- TODOS
- MAIS CURTIDOS
- ESCOLHA DO EDITOR
JSLemos
4 dias atrásA imprensa se calou sobre este fato, salvo raríssimas exceções como Josias de Souza e O Antagonista. A "oposição" está muda. Isto é uma vergonha!!! É o escancaramento de que o Supremo, na figura do seu presidente que eu me recuso a pronunciar o nome, assim como as outras instituições estão de joelhos diante do Executivo. A paciência do povo está no limite!!!lll Esquerda Inimiga do Brasil lll
4 dias atrásALERTA TOTAL : Os comunistas e esquerdistas vendo seu mundo desabar, vão tentar junto com a CNBB,MST, MTST, PSOL, PSTU, PCO e a coligação de partidinhos vendidos, dar o golpe no BRASIL. TOTAL PROTEÇÃO AO JUIZ MORO E A PF, mande e-mail para a câmara e o senado! ESTA INFÂMIA , ESTA PROMISCUIDADE ENTRE O STF E O GOVERNO ILEGÍTIMO TEM QUE PARAR AGORA!13582196
4 dias atrásisso é prova de que o Lewandowski, o Tofolli e o Fachin são juízes tendenciosos, mancomunados com o PT!
Guilhardo Castro
4 dias atrásHá algo de podre no reino da Dilmadowski
Gouvea Romulo
4 dias atrásOnde está a oposição. Onde está o PSDB...Veve.
4 dias atrásÈ um encontro secreto entre dilma e lewandovsk, ou entre executivo e judiciário? O STF precisa vir à público esclarecer isso! lewandovsk representava a si mesmo, ou representava o judiciário?DeCastanho
4 dias atrásA "UNIDADE DA CORJA" na escuridão da noite!!!REAÇA REAGINDO A TUDO QUE NÃO PRESTA
4 dias atrásComo todos puderam ler, vejam só o PERIGO EM QUE ESTÁ O BRASIL nas mãos deste pessoal do STF aparelhado pelo governo comunista e inimigo do Brasil. É hora dos Brasileiros responderem apoiando a imprensa livre e a VERDADEIRA JUSTIÇA!Cesar Marcelo de O Paiva
4 dias atrásNão é a primeira vez que isso acontece e que o ministro da Justiça esteja envolvido. Uma coincidencia infeliz? Muito dificil acreditar. Segundo os especialistas, "um raio nao cai no mesmo lugar vezes". Infelizmente, e é com grande tristeza que afirmo isso, nao estamos sendo governados por poderes Institucionais. O pais esta nas maos, na pior das hipoteses, de um "sindicato do crime". O jornalista foi impar em definir a situação: bastava atravessar a rua para fazer a reuniao com a presidente. Não precisava atravessar o Atlantico para discutirem um assunto domestico cujos custos, alem dos valores eticos e da decencia, foram altos para o contribuinte brasileiro. Coisa de transformar o PCC e o CV em OGNs sem fim lucrativo.silveste
5 dias atrásJosias,meu grande mestre Josias,por mais que a canalhice brade dizendo o contrário... Eu do alto brado de humor patriótico exclamo:Viva o que resta da nossa corajosa,soberana,justa imprensa brasileira;viva!Mil vezes viva.Boa parcela da sadia sociedade brasileira não terá,como sempre não tive,mais dúvidas do que hoje representa a nossa Suprema Corte pra já tão combalida justiça brasileira.Hoje ela,a Suprema Corte,já está quase bolivarianizada,pois esta é a grande meta do lulopetismo para o povo brasileira.Graças,também,corajoso Cunha,com "PEC da bengala" este surto foi,espero,momentaneamente estancado...Viva,também,ao Presidente da Câmara,Eduardo Cunha.
Os comentários não representam a opinião do portal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Leia os termos de uso
Leia os termos de uso