sexta-feira, 25 de setembro de 2015




Ajuste fiscal e ‘maldade’ a conta-gotas: Dilma, definitivamente, não leu Maquiavel

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Isolados os contextos e os conselhos ao pé da letra, é possível analisar o anúncio do ajuste econômico do governo Dilma a uma anti-leitura deO Príncipede Maquiavel*.
Reeleita em outubro de 2014 em uma disputa acirrada, a presidenta levou em banho-maria o significado da expressão “governo novo, equipe nova”.
Cozinhou Guido Mantega, ministro da ala desenvolvimentista, e foi buscar no mercado um nome para implementar as duras medidas que já se desenhavam em nuvens. Deu a Joaquim Levy uma tesoura sem ponta e levou o tal pacote de maldades a uma área mista de espera e especulação. Sabia-se que a fatura de decisões anteriores, como o represamento de preços de serviços básicos, estava a caminho, mas não estava claro quem pagaria a conta: os ricos, com a taxação de suas fortunas, ou os pobres, com o corte de investimentos sociais?
Dilma e sua equipe apostaram numa decisão salomônica. Pensaram que ganhar tempo era a melhor estratégia. A parcimônia produziu o pior dos mundos: a agenda negativa, que todos tentam decifrar há quase um ano, passou a ser noticiada a conta gotas e se transformou num assunto onipresente. O medo do que viria é antes um estado psicológico. Quem tinha dinheiro resolveu esperar. Quem não tinha se apavorou.
A hesitação do governo, que o obrigou a calcular e recalcular um orçamento entre um superávit improvável e um déficit inaceitável para o ano seguinte, levou à deterioração do capital político da presidenta e, de lambuja, à perda do grau de investimento pela Standard & Poor’s.
Como a recuperação do primeiro é condição fundamental para a recuperação do segundo, o cálculo, neste cenário, virou impasse. Dilma precisará de sua base política para aprovar a reforma exigida pelo mercado. Resta saber se deputados e senadores, sensíveis à gritaria já ensaiada nas bases sociais (do funcionalismo aos movimentos de moradia, passando pelos empresários), assinarão a coautoria de medidas como a recriação da CPMF e o corte de repasses ao sistema S.
Crueldades são crueldades em qualquer contexto, mas em política elas podem ser mal ou bem usadas, diria Maquiavel ao governante disposto a ouvi-lo. Mal usadas, ensina o filósofo e diplomata renascentista, mesmo poucas a princípio, as maldades aumentam com o decorrer do tempo.
Atualizado o conselho para os dias atuais, é possível dizer, sem a anuência de marqueteiros políticos, que governar é distribuir ofensas, e elas devem ser feitas todas de uma só vez, a fim de que, pouco degustadas, ofendam menos sem a necessidade de serem renovadas a cada dia. Quem diz isso é Maquiavel.
“Quem age diversamente, ou por timidez ou por mau conselho”, alerta o autor de O Príncipe, “tem sempre necessidade de conservar a faca na mão, não podendo nunca confiar em seus súditos, pois que estes nele também não podem ter confiança diante das novas e contínuas injúrias”.
A construção da confiança sobre alicerces confusos, inclusive para cimentar a base de apoio e separar aliados de oportunistas, gerou um clima de beligerância entre a presidenta e seus súditos. Uns abandonam o barco. Outros ensaiam a rebelião. Outros apenas observam.
Num Estado democrático de Direito, obviamente, ninguém mais toma o poder com a faca na mão. Mas, se a receita incorporada pelo ajuste fiscal é de fato um remédio amargo (não deveria ser, mas cá está), Dilma faria melhor se dedicasse tempo aos conselhos mais óbvios da História. Em resumo: a maldade se faz de uma vez. Pois, enquanto demorava a anunciar as medidas, súditos e opositores haviam convertido o tempo em fortuna.

* Depois de escrito este post, soube que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já havia feito, num contexto diferente, um comentário parecido em relação ao governo: “estão fazendo Maquiavel ao contrário, estão fazendo o mal aos poucos, e pior: sem concretizá-lo”.
É duro concordar com o sujeito, mas sua sentença é também sintomática para entender quem hoje pinta e borda enquanto o governo tenta se equilibrar entre gregos e troianos sem agradar nem a uns nem a outros. 
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