Crise: o culpado é o padre de passeata
Por Claudio Tognolli | Claudio Tognolli – seg, 21 de set de 2015
Saiu na mídia: “A Caixa Econômica Federal apertou a cobrança das prestações atrasadas. Passou a ligar e a enviar SMS para os beneficiários logo após os primeiros dias de vencimento. A inadimplência do faixa 1, voltada à população mais carente, fechou o primeiro semestre deste ano em 22%, dez vezes superior aos atrasos dos financiamentos imobiliários tradicionais”.
Saiu na mídia: “Sem anúncio nem alarde, o governo federal começou a passar a tesoura nos programas sociais. O Bolsa Família, carro-chefe da administração petista, sofreu neste ano o mais profundo corte desde que foi criado, há onze anos. Apenas no primeiro semestre de 2015, 782.313 famílias deixaram de receber o benefício. Governo já cortou quase 800 mil famílias do Bolsa-Família”.
Enquanto isso, pipocam cada vez mais os pedidos de impeachment contra Dilma, calcados nas chamadas pedaladas fiscais. A saber: ela usou lastro pétreo da grana pública, dinheiro "imexível”, para vitaminar, artificialmente, os programas sociais que tantos votos deram ao PT – e que, agora, são ceifados a rodo.
Bem: o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, reuniu empresários no Palácio dos Bandeirantes e condenou um eventual impeachment da presidente Dilma Rousseff provocado por um motivo fútil, como as chamadas pedaladas fiscais. No encontro, que teve representantes de empresas como Bradesco, Brasil Foods e Riachuelo, ele afirmou ainda que há exemplos de “pedaladas” em estados e municípios e também afirmou que qualquer pretexto poderá ser usado para tirar governantes do cargo.
Perfeito: todo mundo pedala e isso é desculpável, nota Geraldo. Imagina-se o efeito de tamanho apoio no (como se diz agora) “psiquismo” de Dilma: a ideia de perdão irrefreável lhe brota co uma musiquinha soando na cachola: “Os Alckimistas estão chegando”.
Como ninguém, em política, segue mesmo o aforisma de Steven Spielberg (““Para quê pagar um dólar por um marcador de livro? Por quê não usar o dólar como marcador de livro?”), a grana pública rola solta por uma questão tipicamente latina: a ética do padre de passeata.
Sobre ele, estabeleceu Nelson Rodrigues:
“O verdadeiro Cristo? É o Cristo verdadeiro. O falso cristo é o cristo dos padres de passeata. Há um cristo de passeata que é mais falso do que Judas. É a igreja dos padres de passeata. Eu sou cristão, mas não me venham falsificar Cristo como uísque nacional”.
O que o padre de passeata tem a ver com o atual estado de cousas?
Max Weber notava que só os países protestantes conheceram o capitalismo em essência. Era o barato, o bag, a chávena, a seguir alguns preceitos: não há vida após a morte, e o verdadeiro paraíso é conquistado em terra, com riquezas acumuladas a base da tríade trabalho, sacrifício, realização; fuja de grana pública e de autoridade pública: crie sua riqueza no toma-lá-dá-cá que é cair e se levantar sozinho; fuja das coletividades.
Os canalhas da Companhia de Jesus vieram para cá nos infectar com o contrário: a vida é um mar de lágrimas (vide o trecho da reza Salve Rainha, a dizer: “A vós brandamos os degredados filhos de Eva; a vós suspiramos, gemendo e chorandoneste vale de lágrimas… ); é pecado ter ideias ímpias e irreverentes; a vida de fato só ocorre no Paraíso após a morte; mas padres, reis e burocratas podem nos salvar por aqui, com alguma graninha que se lhes dermos –porque, de resto, são mestres em administrar nosso barato por aqui, enquanto aguardamos a morte e o consequente paraíso…
Vejam o imposto embutido: é criação desses cutrucos medievais de Lisboa: tudo feito para que o tiozinho acredite, demencialmente, que quem lhe deu a rede de esgotos foi El Rey. Em outros países os impostos sobre o consumo é baixo; nos Estados Unidos em média o consumidor final paga 6% a 7%, já no Brasil paga-se em média 32%: ICMS, IPI, PIS, COFINS e ISS, chamados de impostos sobre as vendas ou impostos indiretos.
Algum morador de bairros populares sabe disso?
A ética do padre de passeata é facilmente explicável: ela é a responsável pelo atual estado de cousas.
As alvíssaras de O Manifesto do Partido Comunista ou A Ideologia Alemã (nesta, em particular, diz-se que com a supressão do capital poderei, enfim, “de manhã caçar, de tarde pescar, de tardinha criar gado, depois da comida criticar, sem me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico, do modo como eu tiver vontade) dão as mãos para o Sermão da Montanha: o homem rico proibido de entra no reinos dos céus é jesuiticamente irmão espiritual do comunismo: Marx e Cristo se dão as mãos no quesito fuzilar o capital. Ambos os sistemas sonham com a supressão da fricção – de resto, segundo Benedetto Croce o verdadeiro motor da história…
Veja bem: Marx e Jesus se unem sob a túnica do padre de passeata.
O padre de passeata é herdeiro presuntivo da Companhia de Jesus: sonha com um estado intra-uterino, sem fricção, expresso seja na ó tão sonhada supressão do capital, ou no Paraíso post mortem.
Esse espírito de padre de passeata encontrou no capitalismo de estado do PT seu ovário perfeito, seu fototropismo ideal: um sol de igualdades, ainda que geradas a custa das pedalas fiscais só hoje a fundo conhecidas.
Mas nem o padre de passeata, nem o desvalido (outrora abrigado pelos programas sociais) desconfiavam que a igreja na qual rezavam era um cenário de ópera bufa: verossimilhante, mas de papelão, cartolina e galalite.
Foi-se o sonho: ficaram as dívidas públicas e os escândalos.
E agora, sem centro cinético, sem Cristo, sem Marx, sem Dilma, sem o Diabo enfim, o desvalido se pergunta: de quem é a culpa?
É claro: a culpa é da burguesia: que tem de pagar a contra com o CPMF…
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