Moreira Franco e a tinta fresca do reformismo brasileiro
Matheus Pichonelli – ter, 22 de set de 2015
A condenação de João Vaccari por envolvimento em desvios na Petrobras investigados na Operação Lava Jato deixou o Partido dos Trabalhadores em uma condição delicada para qualquer disputa eleitoral daqui em diante. Trata-se do segundo ex-tesoureiro do partido condenado por corrupção em menos de três anos. Com um agravante: se antes alguém se fiava no argumento de que a legenda havia aprendido com os erros do passado, a narrativa ficou descabida a partir da nova condenação – em que pese a diferença de contextos e responsabilidades nos dois casos. Não há João Santana que dê conta do remendo.
É razoável, portanto, prever as consequências da Lava Jato nas urnas a partir do ano que vem. Não seria injusto nem inexplicável.
Injusto seria se a Lava Jato e a consequente crise política desencadeada por ela premiassem quem não está nem um pouco dispostos a fazer diferente – e que bebeu até o último gole as benesses da mesma estrutura, neste e em outros governos.
Na Espanha e na Grécia, para citar dois exemplos, a incapacidade das velhas lideranças de se livrar do peso da própria história e dos próprios vícios levou ao fortalecimento de novas forças políticas. Não é tarefa fácil construir esse ponto de inflexão, e o caso grego é simbólico desse conflito. Mas não deixa de ser o começo de um movimento.
Por aqui, o impasse, mais do que a crise, é configurada pela seguinte situação: as novas forças políticas não têm lastro o suficiente para destronar as velhas forças. E as velhas não são mais capazes de apresentar respostas. Tem-se, então, o pior dos mundos, no qual as velhas forças brigam entre si para apresentar novos figurinos sem qualquer disposição ou compromisso de radicalizar o processo. (Quando digo radicalizar é colocar as mãos em vespeiros como os custos de campanha, a fragmentação do sistema multipartidário, os critérios de nomeações para cargos-chave da administração, as bombas no Orçamento, as regalias do Judiciário, do Legislativo e da cúpula do funcionalismo, as portas giratórias das agências reguladoras, o lobby incrustrado de setores empresariais para concorrer em condições desiguais, as concessões de rádio e TV nas mãos de velhas raposas, etc).
Pelo contrário. As saídas reformistas, até aqui, resultaram em um trabalho semelhante à da senhora que tentou restaurar a tela Ecce Homo, de Elías García Martínez, e a desfigurou. A diferença é que lá a reforma virou piada.
Por aqui, enquanto as investigações avançam na Justiça, parlamentares, sobretudo na Câmara, correm para emplacar mudanças e garantir que tudo permaneça como está. A mini-reforma política é exemplar desse movimento. Qualquer proposta de mudança de fato (alguém se lembra da Agenda Brasil?) ou é rascunho ou é teatro.
A parte tragicômica é ver nomes como Moreira Franco, o ex-governador que nos anos 1980 se envolveu no escândalo da Proconsult e recebia bicheiros no Palácio da Guanabara, vender aos leitores e eleitores sua ideia de mundo novo. Faltou ao braço direito de Michel Temer vestir boné, keds e óculos descoladinhos para chamar a presidenta de “broto”.
A desfaçatez chega ao ponto de apontar os erros do governo como se o seu partido não fizesse parte dele ou de suas decisões (spoiler: faz. E tanto faz que pode levar agora o Ministério da Saúde). E de dizer que não há, em 50 anos, participação orgânica do PMDB em casos de corrupção – como se seu antigo operador de campanha, Eduardo Cunha (segredo: do mesmíssimo PMDB), não figurasse na lista de acusados da Lava Jato. Ou o ex-governador de seu estado, Sérgio Cabral. Talvez o nome de Fernando Baiano, lobista preso e acusado de intermediar os interesses do partido na Petrobras, o ajude a restaurar a memória.