quarta-feira, 23 de setembro de 2015


O que fará Dilma se a vaca tossir?

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“Líquidos não têm uma forma, ou seja, são fluídos que se moldam conforme o recipiente nos quais estão contidos”. Leio esta definição na internet, em uma resenha sobre a obra do filósofo Zygmunt Bauman, autor de Modernidade Líquida, e penso imediatamente na situação de Dilma.
O envio para o Congresso do orçamento com déficit e, nesta semana, o anúncio da proposta de criação de impostos e o corte de gastos de R$ 26 bi – atingindo em cheio os servidores públicos – parecem fatos que encaminham o governo para uma espécie de batalha final. Como quase todas as medidas dependem do Congresso, como são todas medidas impopulares, e como todas parecem necessárias para as contas públicas “fecharem”, o que acontece se os congressistas disserem não? Como um fluído, Dilma se adaptará a novas situações ou, como querem os opositores, será apenas o fim? Se fim, começo de que exatamente e em quais condições?
Ao longo dos anos Dilma tem demonstrado capacidade de sobrevivência. No início da campanha eleitoral, em 2014, com o governo já mal avaliado (não tanto como agora), dificilmente alguém apostaria em sua vitória. Ganhou, embora que por muito pouco. Ganhou, porém, omitindo o que faria a seguir: o ajuste. Que governaria segundo a receita dos seus adversários. Paga um preço altíssimo pelo erro político. Não por acaso, os bancos são os únicos a aplaudirem as atuais medidas, voltadas para que o país, afinal, continue a honrar seus compromissos com credores. O rebaixamento da nota da dívida soberana do país (do Tesouro Nacional, em dólares) pela Standard & Poor´s foi um aviso, um tapa com luva de pelica, digamos.
O tempo passou e aquele comercial de TV da campanha de Dilma mostrando um grupo de banqueiros rindo e confabulando enquanto a mesa do pobre se esvaziava de comida – associando a maldade aos adversários – agora se concretiza. Só que sob a batuta daquela que defenderia os trabalhadores e que não mexeria em direitos nem que a vaca tossisse.
Por ora, é verdade, não se mexeu no limite de um salário mínimo para as aposentadorias da Previdência Social (maior programa social do Brasil, particularmente para as áreas rurais). Até aqui o salário mínimo ainda reajusta as aposentadorias. Até o presente momento as receitas para saúde continuam vinculadas, vale dizer, garantidas pela Constituição em um determinado patamar. Aparentemente também não se mexeu no Bolsa Família e muito pouco no Minha Casa Minha Vida, compromissos básicos de campanha e cujas verbas o governo busca preservar alterando suas fontes no orçamento (o que o Congresso pode interpretar como fazer bondade com o chapéu alheio).
A vaca pode até não ter tossido ainda e se tossir significará sobretudo perdas para os mais pobres. No que diz respeito a Dilma, porem,  até onde vai sua capacidade de adaptação, sua capacidade líquida de se moldar às situações?
De todas as medidas pretendidas, a que atinge no imediato a base de apoio da presidente e do PT é a que adia o reajuste dos servidores públicos. Se o Congresso aprovar e o governo implementar o congelamento de salários dos servidores, aí, para muitos, a vaca terá tossido.
Haja liquefação.
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