Sobre demônios, radicalismo e 'destruição’ do PT: uma análise da entrevista de FHC
Matheus Pichonelli – 8 horas atrás
É preciso apreciar com moderação o papel de voz moderadora assumido, ao menos em público, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na atual crise política. Sua fala é quase sempre carregada de deslizes ambíguos, esquecimentos ocasionais e mensagens a amigos e adversários. É preciso amassá-la, apertá-la e espremê-la para separar o que é análise pura e o que é conveniência – esta última não o constrange, por exemplo, a criticar Dilma Rousseff por se vender ao diabo (o novo nome dado pelo ex-presidente ao PMDB), como se, entre apertos de mãos e orgias consumadas com o pefelismo de Antonio Carlos Magalhães e com o mesmo peemedebismo que hoje se assanha, não tivesse loteado a alma, o espírito e empresas estratégicas ao Tinhoso.
Fernando Henrique é a figura macunaímica que, não por acaso, diz observar em Lula. A diferença é que um se apresenta como mais esperto do que realmente é e o outro, menos ingênuo do que demonstra a realidade.
Na entrevista concedida à Folha de S.Paulo, por exemplo, FHC alterna o figurino de sociólogo com o de ex-presidente (“eu já estive lá”) para atualizar (novamente) sua análise sobre o impasse político. Chega a defender a renúncia de Dilma Rousseff, aliás sua adversária política, desde que ela deixe a casa em ordem para o sucessor – que ele não vê em outro horizonte se não em seu partido. Na frase seguinte, diz não defender a destruição do PT por entendê-lo como “um partido importante, necessário, que canaliza setores da sociedade que precisam ser canalizados”. E pontua: “o pior são os que não são partido e têm legenda. Esses sim são mais nocivos, porque são o cupim da democracia”.
FHC, como seu partido, obviamente, tem todo o interesse em assistir à derrocada, prevista por ele, do PT. O que é diferente de fazer coro à sua “destruição”. Sabe o que espera por seu PSDB se um novo raio cair no mesmo lugar após 23 anos da renúncia de Collor, quando os tucanos aproveitaram o vácuo de um governo que ruíra para se instalar num “novo bloco de poder”, liderado por Itamar Franco, e pavimentar, de dentro, a caminhada até as urnas. O que espera o seu partido – e qualquer um que se candidate a desatar o nó da crise atual – é um momento tal de polarização, radicalismo e ansiedades que qualquer isqueiro aceso pode detonar uma nova explosão.
Pois engana-se quem vê nos dois principais polos políticos da atualidade a essência dessa radicalidade e da impaciência que já transbordam para as ruas. Hoje é preciso dividir o debate entre radicais e moderados, e eles se agrupam e se afastam mesmo estando em espectros políticos opostos. Em outras palavras, tomar posição, hoje, não é simplesmente escolher um dos lados da disputa de poder, mas o método. Enquanto uns gritam “pega, queima, arrebenta”, outros dizem “calma lá”. Estes últimos, do qual o ex-presidente reivindica agora uma certa responsabilidade, sabem que a euforia de grupos pró-impeachment de hoje pode se voltar contra um futuro “bloco de poder”, para citar uma expressão do próprio FHC, na primeira guinada à esquerda, por assim dizer, se ela vier. Por exemplo, a manutenção, por conveniência ou convicção, de projetos como o Mais Médicos, os programas de distribuição de renda e as ações afirmativas.
Entre os que sobem hoje em carro de som para pedir a cabeça da presidenta, vale lembrar, está o deputado que manifesta vontade de estuprar ou não mulheres conforme suas atribuições estéticas. E que já defendeu o fuzilamento do próprio FHC. Nem todos os que estão nas ruas pedindo a saída de Dilma, vale lembrar, são radicais. Mas, vale lembrar também, todos os radicais estão lá - da bala e da Bíblia, sobretudo.
Quem hoje desfila ao lado de nomes como Jair Bolsonaro parece não se importar com as consequências de insuflar as vozes já suficientemente radicalizadas das ruas. Nem com a estratégia de explodir o Orçamento e rasgar o receituário usado pelo próprio partido nos tempos de governo.
Esta ala não perdeu apenas a referência do passado. Perdeu o cálculo da história, e esta tem implicações graves no futuro – no presente, a eliminação do outro, e dos direitos do outro, já é decidida em votação no Congresso sobre quem tem direito ou não de formar uma família; ou nas ruas, onde populares decidem por si quem pode ou não circular pela praia.
O coro ao destempero e ao extermínio, portanto, não é apenas simbólico no campo político. É a ressonância de um período marcado pela deterioração acelerada da empatia, da alteridade e do apelo à violência como solução.
A atual crise política não tem consequências apenas na organização de um partido, mas na ideia de que o Estado tem responsabilidades na correção de assimetrias históricas sobre minorias e grupos marginalizados. Por um tempo, o PT conseguiu se organizar em torno desta demanda. Hoje, com todos os deméritos, essa capacidade está em xeque. Mas uma coisa é contestar a ação, outra é eliminar a ideia e seus representantes. O apelo ao extermínio, parece saber FHC, nunca acerta apenas o adversário mais visível.
Foto: Wilson Dias/ Agência Brasil