terça-feira, 6 de outubro de 2015




“Acabou o diálogo. Não temos outra opção”

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É difícil, nas rodas de conversas informais entre amigos do trabalho, do bairro ou do futebol, encontrar quem não esteja tão revoltado quanto desorientado quando o assunto é política. É difícil, inclusive, passar mais de uma hora sem esbarrar em qualquer debate político. Tudo começa com um comentário inocente sobre um jogo de futebol. Depois sobre os dirigentes esportivos. Depois sobre as obras da Copa. Em segundos, a conversa já adentrou ao chamado submundo da política, dos figurões investigados pela polícia à estrutura viciada dos partidos – ou de um único partido, como é quase sempre o caso, e a depender do lado.
Política, nos lembra o filósofo Vladimir Safatle, é uma questão de mobilização de afetos. Natural, portanto, que uma conversa sobre questões políticas se transforme em conversas sobre o que nos diz respeito – e nos faz sentir e sofrer de determinadas formas.
À política são atribuídos os nossos infortúnios, muitos deles justificados, como os efeitos práticos da crise econômica. Muitas vezes, porém, o discurso é resultado da mais vulgar das paranoias, como uma suposta perda de direitos em detrimento da ascensão de determinados grupos – justamente os que não davam as caras em nossos campos de conforto até bem pouco tempo atrás. Caso das universidades, por exemplo. Ou dos shoppings centers (alguém se lembra dos rolezinhos?).
Desamparo, esperança e medo, diz Safatle, são afetos determinantes do campo político. Eles nos movem e nos imobilizam: votamos com a esperança (ou o medo) de uma gestão salvadora (ou de uma tragédia administrativa). E vendemos nosso desamparo a um comando – quando na verdade, pontua o filósofo, a ação política é a afirmação de um desamparo.
Alheios a uma relação espectral do tempo que comprime a História e determina o presente (os nascidos depois de 1985, por exemplo, são filhos da reabertura democrática, mas convivem, como todos, com as estruturas e discursos remanescentes e atuantes da ditadura) e convictos de que somos indivíduos dotados de propriedades (não apenas físicas, mas subjetivas), tendemos a depositar no futuro soluções salvadoras e a associar o outro como alguém capaz de nos tirar o que nos é próprio.
Entra aqui a relação com o campo político. O distanciamento entre representantes e representados pode ser atribuído, grifo meu, à associação dos primeiros a um grupo instalado no poder para destituir o que nos pertence e governar para o “outro” por quem não nutrimos qualquer empatia. Alguém que jamais precisou de política afirmativa, por exemplo, terá uma certa disposição em associar programas sociais ou de cotas a uma estratégia dos governos para tirar recursos do seu trabalho e financiar ou fidelizar sua base eleitoral. Daí a implicância comum em relação a políticos, os programas sociais e os beneficiários dos programas: eles não os atingem.
Pelo contrário, “nos tomam”, justificam os revoltados online e offline – e não importa que estes recursos representem, para o orçamento geral, uma fração do que o mesmo governo gasta com juros da dívida, Previdência, pensão a algumas dezenas de filhos bem nascidos ou com empréstimos e isenções a determinados grupos econômicos.
Esse distanciamento em relação a um governo que ampara quem se “vitimiza”, com leis e programas sociais, mas não nos ampara (“nós, que trabalhamos e entramos na faculdade por nossos méritos sem precisar de ninguém”), se transforma em ódio mortal nos períodos mais turbulentos. Por exemplo, quando o dinheiro acaba, a fonte de recursos seca, e, para piorar, representantes do governo e do partido do governo são presos e investigados por corrupção. É quando eleitor passa a alimentar a ideia de que o sistema político não só não lhe representa em ideias como está tomado por cupins dispostos apenas a lhe pilhar.
É um raciocínio incompleto, mas lastreado por evidências noticiadas e nem sempre conectadas. Num país com uma carga tributária tão alta, pensa este eleitor, políticos acumulam patrimônios incompatíveis com a sua renda e têm acesso a benesses que nós, pagadores de impostos, jamais teríamos. É nosso dever, portanto, destituí-los. E destituir quem os apoia.
A dissolução moral de partidos políticos que se associaram a grupos econômicos para se autofinanciar contribui para essa impressão. Mas, ao se questionar, esse eleitor nem sempre tem em mente que a evidência de escândalos políticos e econômicos é resultado do fortalecimento de instituições como a Polícia Federal, a Controladoria Geral da União e o próprio Tribunal de Contas da União, que está prestes a rejeitar as contas de 2014 do governo Dilma. Pode-se questionar as pressões políticas do momento, ou que o expediente agora julgado fora utilizado por outras gestões, mas a longo prazo é possível prever um zelo maior em relação a malabarismos fiscais como as tais pedaladas promovidas pela presidenta.
Em vez disso, a aparente ausência de novos atores e saídas políticas para a crise reforça a rejeição a tudo o que é associado à política. É quando assumimos a disposição de jogar a água suja com o bebê dentro.
Essa ansiedade é alimentada a cada quatro anos por marqueteiros e comandos de campanha criadores de narrativas que estimulam o medo e a esperança dos eleitores. “O candidato rival vai tirar a comida da mesa dos trabalhadores”. “Vai espalhar um mar de lamas sobre nossas famílias”. “Nosso candidato vai abrir o Mar Vermelho e liderar o povo em direção à prosperidade – a única ação a ser feita é segui-lo”.
É evidente, portanto, que o reforço de um certo paternalismo na narrativa política, que condiciona a participação do eleitor ao apoio em período eleitoral, tem um preço alto quando as coisas saem de controle. Ou quando, diante de um sistema partidário cada vez mais fragmentado, o governante sinaliza que o Ministério da Saúde, por exemplo, é menos importante do que a manutenção da governabilidade. Ou quando, em nome de um projeto político (a guerra ou o armistício), governo e oposição aceitam que um detentor de contas na Suíça denunciado à Justiça dê as cartas na presidência da Câmara sem a ele dedicar um pio.
Para o eleitor, a desorientação é semelhante à da galinha nas cenas iniciais de “Cidade de Deus”: para onde se olha, a ordem é correr. Mas para onde?
Em tempos de crise política, uma das possibilidades que se abrem é justamente aprofundar as bases do sistema democrático, identificar suas brechas para o abuso do poder econômico, o oportunismo de legendas fisiológicas, ampliar as formas de controle, a participação, o acesso à informação e as cobranças por transparência.
No mundo ideal, estaríamos, neste período de turbulência, prestes a dar um salto qualitativo na representatividade à medida que tentamos compreender (e transformar) as fragilidades ainda evidentes do sistema. Pensar a democracia como um regime que não dá a possibilidade de aderir ou não ao resultado das urnas, como ensina o cientista político Vitor Amorim de Angelo, pode ser o começo do fim de um acirramento inócuo entre os manifestantes do medo ou da esperança.
Este acirramento tem levado amigos a constrangerem em público e associar a crise e a sucessão de escândalos ao amigo que votou diferente dele. E a retirarem o direito de políticos em quem eles não votaram de circular com a família pelas ruas. Ou a resgatarem do baú discursos de que somente com mãos de ferro e autoridade a ordem seria reestabelecida.
O conflito narrado na coluna Mônica Bergamo no último domingo, na Folha de S.Paulo, é simbólico sobre como começa este acirramento. Inconformado, com suas razões, com as notícias de envolvimento do PT em escândalos de corrupção, o morador de um prédio em Perdizes, em São Paulo, iniciou uma campanha curiosa para consertar os rumos da nação: constranger e humilhar, com gritos, panelaços e xingamento, quem votou no partido que ele não suporta. Ainda que, do outro lado (bem ao lado, no caso), esteja alguém que tem conhecimento de causa suficiente para sustentar a decisão (possivelmente APESAR, e não em razão, dos escândalos envolvendo seus dirigentes). Um dos moradores declarados inimigos pelo justiceiro do condomínio era a autora de um livro sobre o impacto do programa Bolsa Família na vida das mulheres beneficiadas.
Mas votar no PT ou fazer contrapontos à narrativa envolvendo o partido equivale, hoje, a colocar amizades (e a segurança) em risco. E a receber em troca a redução de anos de estudo e argumentos com o selo de “burro”, “bandido”, “corrupto”, “vendido” – como se qualquer outro partido passível da simpatia do antipetista não estivesse igualmente envolvido em outras investigações.
Não adianta, porém, tentar pedir calma: segundo o vizinho, “acabou o diálogo, não temos outra opção”. “ A maioria silenciosa não aguenta mais. Só que agora não é mais silenciosa”, argumenta.
Na própria reportagem, é possível identificar a razão, de fundo, da bronca: o Bolsa Família criou uma horda de vagabundos pelo país e ficou impossível encontrar gente disposta a trabalhar. A sentença, lida em alguma busca rápida no Google, tem a profundidade de um pires, mas o ódio não é adepto de embasamento: por isso ele circula tão facilmente em redes sociais e correntes de WhatsApp. É quando o confronto com a realidade vira agressão à realidade. (Em tempo: não é menos violento espalhar bandeiras do Estado de São Paulo com a imagem de um burro no lugar do mapa e atribuir a culpa pela crise hídrica a qualquer eleitor tucano que, APESAR do racionamento, decidiu votar em Geraldo Alckmin).
Na guerra de todos contra todos, incentivada diariamente pela incapacidade de aceitar que alguém vote ou pense diferente, tentamos garantir o nosso (ou o que nos afeta) não com o confronto, mas com o discurso da eliminação. Seja pelo constrangimento, seja pelo terror.
À margem da legalidade, agimos ou aceitamos ações autoritárias que prometem nos proteger de quem a política não nos protege. Para começar a decidir, por si, quem pode ou não circular nos espaços públicos (por exemplo, uma praia da zona sul do Rio) é um palito.
O ataque em duas frentes a tudo o que é relacionado à política dá a dimensão não apenas da nossa insatisfação, mas da nossa desistência – quando deveríamos zelar, ampliar e reforçar as saídas pela legalidade, agimos, na ânsia, para destituí-la. A saída pela política e pelo fortalecimento da participação política (o direito ao voto, por exemplo) pode levar mais tempo, mas é a única forma de garantir o surgimento de novos atores políticos. E evitar a transformação de nossas revoltas pessoais em sinal verde para a agressão, o patrulhamento e o extermínio.

Em tempo: 
Ao fim deste texto, descobro que, durante o funeral de José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT morto no último domingo, foram espalhados cartazes com os dizeres “petista bom é petista morto”. É disso que estamos falando.

Foto: Cena do filme “Um dia de Fúria”