Análise: Impeachment vai ser bom ou ruim para o mercado?
Josué Leonel
- Eduardo Anizelli/Folhapress
O fato de a presidente Dilma não conseguir nem sequer formar quorum no Congresso
para manter seus vetos contra aumentos de gastos leva parte do mercado a
questionar se o impeachment não seria positivo para a economia. Afinal,
a entrada de um novo presidente geraria a perspectiva de maior eficácia
tanto na política quanto na economia.
Situação atual é diferente da que levou Itamar ao poder
É sempre lembrado nessas horas o exemplo de Itamar Franco, que lançou o
Plano Real, acabando com a hiperinflação, apenas dois anos após
substituir o primeiro presidente destituído em processo de impeachment
no Brasil.
Um eventual processo de impeachment
hoje, contudo, traz mais incertezas do que no processo que tirou
Fernando Collor do poder em 1992, diz Rafael Cortez, analista político
da Tendências Consultoria.
Para começar, há
diferentes cenários no caso de Dilma sair: por desdobramentos da ação do
TCU, que levaria o vice Michel Temer à Presidência, ou do TSE, que
poderia levar a novas eleições. Em 1992, Itamar era o único sucessor
possível.
Outra diferença entre 2015 e 1992 é que
Collor era um "outsider", pertencia a um pequeno partido, o PRN. Hoje,
Dilma é do PT, ainda o segundo maior partido do país, apesar do desgaste
causado pela crise e pela operação Lava Jato.
Cortez considera que há um risco considerável de reação dos movimentos
sociais contra um impeachment, embora, segundo ele, a maioria da
população seja favorável à saída da presidente.
Nota do Fiat Elba X pedaladas fiscais
A questão legal também torna o impeachment hoje mais complexo, ainda
que as decisões do Congresso sejam políticas, e não jurídicas. Em 1992, a
evidência definitiva contra Collor foi a nota do Fiat Elba, uma prova
prosaica, mas clara.
No caso do TCU, o fato em
julgamento, as pedaladas fiscais, é muito mais complexo. Além disso,
juristas se dividem sobre se fatos de uma administração anterior podem
ou não embasar a perda de mandato.
Temer e Aécio: nada de baixa ambição
A Tendências calcula em 30% as chances de impeachment.
Ainda que o processo se torne inevitável, restará ainda ao novo
presidente os mesmos desafios enfrentados por Dilma, de cortar gastos e
aumentar impostos para desviar o país do desastre fiscal. E isso em um
cenário de disputa política que vai se acirrar com eleições municipais
no ano que vem e gerais em 2018.
A formação de um
"governo de união nacional", como fez Itamar, certamente será tentada.
Mas, aqui, o ex-vice de Collor também levou vantagem. Ele era visto como
um político pouco ambicioso e não pertencia a um partido forte, o que
ajudou a desarmar os rivais.
Baixa ambição, hoje,
não é o que se poderia atribuir a nomes como Michel Temer ou Aécio
Neves, dois entre os políticos que eventualmente poderiam herdar a
Presidência.
Desafios continuarão com novo líder
Mike Moran, chefe de pesquisa econômica do Standard Chartered em Nova
York, diz que continua cauteloso em relação à possibilidade de um
impeachment, ainda que a situação política esteja evoluindo contra o
governo.
Se houver o impeachment de Dilma, que
não é o cenário-base de Moran, o mercado poderá ter algum alívio
momentâneo, mas o novo governo terá que fazer escolhas difíceis.
Dilma pode até sair, mas os desafios fiscais não sairão junto com ela.
(Com a colaboração de Paula Sambo em São Paulo)
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Livro
da ex-primeira-dama: A ex-primeira dama Rosane Collor anunciou em 2012
que preparava um livro de memórias em que revelava que o ex-marido
participava de rituais de magia negra na residência oficial do casal. No
ano seguinte, porém, Rosane disse que desistira do projeto Juan Esteves/Folhapress - 15.03.1990