Dilma e Cunha têm que morrer abraçados, OU mudando o gênero do filme
Por Alex Antunes | Alex Antunes – 10 horas atrás
A
geração de malucos que reinventou o cinema hollywo- odiano entre o fim
dos anos 60 e meados dos 70 não era bom exemplo pessoal para ninguém.
Quer dizer, nunca ninguém em Hollywood foi bom exemplo de comportamento,
mas esses não eram hipócritas: um monte de drogados abusivos,
inconstantes, mas rebeldes e sagazes. Este livro aqui, com tradução da minha amiga Ana Maria Bahiana,
tem ótimos relatos de como a contracultura salvou uma narrativa
idiotizada, passando a enxergar conspirações e manipulações em tudo. E,
principalmente, lidando com finais infelizes, ou finais abertos.
O
que nós estamos enxergando estas duas últimas semanas, com a casa de
Eduardo Cunha caindo, é, por assim dizer, a mudança de gênero do filme.
Assim como a Hollywood atual, que voltou a ser majoritariamente babaca, a
narrativa “dirigida” por João Santana na reeleição de Dilma foi uma
bobagem simplória, piegas, rala, binária. Mesmo assim, um eleitorado
acorreu em massa para votar no “coração valente”, contra a ameaça do
vilão Aécio.É óbvio que Aécio é um playboy babacão e abusivo. Mas o que a eleição “comprou” não foi apenas uma candidata ruim, politicamente inábil e, sim, vamos falar claro, bastante lesada – senão o país continuaria indo em frente, como sempre. Noventa e tantos por cento dos nossos políticos parecem ser lixo humano, e a vida continua. Mas o que o eleitorado comprou foi uma narrativa insustentável.
Ao contrário de Dilma, Lula nunca foi burro. Apesar de despreparado formalmente, tem – ou tinha – uma intuição política fantástica. E também uma ética bastante (para ser polido) “flexível”. O senso narrativo de Lula não estava totalmente errado quando ele escolheu Dilma – ainda que Marina (as duas eram suas ministras à época) fosse uma escolha politicamente (e intelectualmente) mais consistente. Hoje sabemos o que o emblemático embate das duas, em torno da liberação da construção da usina de Belo Monte, significava aos olhos de Lula: muita propina para o caixa dois. Para ficar nas metáforas cinematográficas, digamos que Lula cometeu um “erro de Glauber”.
Assim como Lula, Glauber Rocha puxou um movimento com um slogan simples, “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, mas que não funcionava tão bem com discípulos não-sagazes e de uma verve tão fulminante como ele mesmo. Se fosse esse gênio todo, Lula teria entendido que tinha que voltar à disputa no ano passado, e não patrocinar a reeleição. De novo, hoje sabemos que as razões podem ter sido as piores possíveis: continuar a trabalhar abrindo frentes no exterior para as empreiteiras nacionais, tendo ao mesmo tempo influência nos financiamentos do BNDES, e recebendo por fora sua parte na “patriótica” triangulação.
Seja como for, Lula foi obrigado a jogar todos os seus trunfos quando a militância petista acordou, na véspera da eleição, de um longo sono, e ajudar a vender a lorota (assim como agora foi obrigado a voltar ao centro do poder, com a reforma ministerial, para sustentar a lorota). A parte não-ficcional tinha ficado lá atrás, nas manifestações de 2013, que, mesmo com toda sua tecnologia de rua, o PT não teve como cooptar.
Se existe uma semelhança entre Dilma e o impichado Collor é essa: vencer uma eleição a bordo de uma fantasia épica, e absolutamente insustentável. Em boa parte por estarem ambos com o rabo preso exatamente com o que se prometeu exterminar, os marajás e as iniquidades, nos dois casos (o famoso “mudar para ficar como está”). Pouco antes das manifestações de 2013, apenas havia começado uma campanha da Caixa Econômica Federal, estrelada por Regina Casé, de uma linha de crédito para comprar móveis e eletrodomésticos, que foi abandonada logo em seguida. Como disse um petista histórico, Frei Betto, esse “consumismo cosmético”, rebaixando o debate político à mera questão do acesso a bens de consumo (o que também era um mote de Collor) foi o principal erro petista. Deu no que deu.
A
grande novidade, agora, é que com o curso de destruição de Eduardo
Cunha, com a comprovação de suas contas na Suíça, a narrativa fica
forçosamente mais realista. O “nós contra eles” vai virando uma admissão
de que “nós e eles somos a mesma m*” (o que, aliás, era a vaibe
subjacente aos protestos de 2013. Tentar canalizar a energia política de
insatisfação para as eleições, destruindo a nova militância, não só não
resolveu nada, como criou uma bomba-relógio política). Na verdade esse
“nós contra eles” já estava acontecendo numa camada altamente fictícia,
dado que Eduardo Cunha é do PMDB, da base do PT. Cunha é expoente do
lixo fisiológico que o PT teima em abraçar desde o primeiro momento do
mandato de Lula, em 2003, como eu discuto neste texto, O “sagrado” e o “profano” no PT.
A
transformação da narrativa da vitória épica de
coração-valente-contra-o-mal em uma narrativa em que ela e Cunha morrem
abraçados significa uma sensacional mudança de gênero. Vai da catarse
tipo moralista de uma novela besta da televisão para um final
inquietante e sombrio, digno de uma trama de conspiração e paranoia
dirigida, digamos, pelo Coppola de A Conversação (foto, 1974), o Pollack de Três Dias do Condor (1975), o Penn de Um Lance no Escuro (1975) ou o Pakula de A Trama (1974). Até um personagem boboca como o filho Lulinha ameaça pesar na história.
Amanhã, terça feira, talvez já tenhamos mais um passo no sentido da
abertura do processo do impeachment de Dilma por Cunha – e mais um passo
no sentido da sua própria destruição, com o aprofundamento das delações
e investigações. Esse certamente é um filme mais adulto e próximo da
vida real.Siga-me no Twitter (@lex_lilith)