segunda-feira, 5 de outubro de 2015


Porque a operação-estabilização de Dilma não deve dar certo, OU o jogo triplo de Lula

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Já foi bastante explorado nas análises políticas o fato de que a reforma de Dilma tem a assinatura de Lula (inclusive na minha postagem anterior). É do ex-presidente a leitura de que não dá para governar sem o PMDB, principal força do congresso. Lula sabe do que está falando: foi ele que, em 1993, quando deputado, falou que lá (no congresso) “há uma maioria de 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”. Desde então possivelmente só piorou.
Também foi em reunião no início de sua primeira gestão, dez anos depois dessa declaração, que o governo decidiu comprar os picaretas. É o que conta Miro Teixeira. Segundo o então ministro, em uma reunião com quatro pessoas, ele e Antonio Palocci foram voto vencido em tentar o apoio ideológico do PSDB para projetos politicamente importantes. Venceu a proposta de obter a maioria ganhando o “congresso burguês” com orçamentos – ou seja, foi a gênese dos acordos com as bancadas fisiológicas e do mensalão.
José Dirceu estava com certeza nessa reunião. Provavelmente o próprio presidente Lula fosse o quarto presente – de qualquer maneira, essa decisão teve o aval dele. Ou seja, de lá para cá o congresso só piorou – e com a conivência do próprio PT. Ou seja, o que volta a vigorar no governo petista é o pragmatismo extremo, que joga com a ilegalidade. O que trouxe Lula de volta foi o fracasso de Dilma em tentar “remendar” esse funcionamento, sem ter cacife político para acabar com ele.
Estes dias, vazou um mail da Odebrecht em que se atribui à ex-presidente da Petrobrás Graça Foster, em julho de 2014, pressão para atrapalhar Paulo Roberto Costa e outros ex-diretores em suas defesas na Lava Jato. O empreiteiro Marcelo Odebrecht reage espantado: “Ou seja, ela quer detonar o PR (Paulo Roberto)? Não apenas não ajudar como atacar? Acha que não tem refluxo? Isso é suicídio, só vai prejudicar o governo e empresa”. Ou seja, Dilma patrocinava o saneamento da empresa, mas sem ter força para escancarar a situação e colocar os corruptos na cadeia.
Do mesmo modo, no início deste seu segundo mandato, Dilma e Mercadante colocaram em movimento, com Gilberto Kassab e Cid Gomes, manobras de configuração partidária para “desidratar” a importância do PMDB na sustentação do governo (o termo foi utilizado numa reveladora entrevista de um dos principais interlocutores do vice-presidente Temer, o ex-ministro Moreira Franco). A estratégia com Kassab – a recriação de um partido, o PL – só foi enterrada esta semana, com a sanção da reforma política que fechou a “janela” de migração partidária de parlamentares com que Kassab estava contando.
Ou seja, Dilma até que tentou desmontar alguns arranjos lulistas (e dircelistas), mas sem ter força acumulada para tanto. O que coloca Dilma não como diretamente corrupta, mas apenas uma beneficiária eventual (nas doações às campanhas políticas, por exemplo) dos esquemas do PT – e certamente uma operadora política desastrada. Mas por que a simples volta de Lula não consegue devolver o “equilíbrio fisiológico” à base governamental? Porque, enquanto Dilma fazia seus movimentos desajeitados, os componentes econômicos e policiais (mais do que políticos) da crise avançaram a um ponto de não-retorno.
Do ponto de vista econômico, Lula agora tem que instabilizar e derrubar (como derrubou Mercadante) o ministro Joaquim Levy – mas sem desautorizar Dilma. Faz isso encomendando ataques de movimentos sociais (com atos anteontem e ontem, sábado) e dos economistas petistas (que publicaram manifesto na terça feira) contra a política econômica. Fica complicado, no entanto, convencer alguém de que a crise econômica não foi alimentada pelo próprio governo, como comenta Demétrio Magnoli nesta boa análise.
Do ponto de vista das investigações, Lula também quer derrubar o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Mas tem que realizar essas suas manobras: a) sem enfraquecer Dilma mais ainda, agora que o TCU – Tribunal de Contas da União deve rejeitar as contas do governo, fornecendo uma justificativa legal para o impeachment; b) acalmando gente como Eduardo Cunha, que entrou na linha do chumbo grosso da exposição da corrupção; c) recuperando o apoio do capital.
O problema é que essas missões (política, econômica e jurídica) não são exatamente coerentes entre si. Não há como deter as investigações – e Cunha já avisou que vai morrer atirando, levando um monte de gente junto. O PMDB está circunstancialmente mais calmo, mas não tem como garantir o que o governo considera medida essencial para o reequilíbrio das contas: a criação de um movo imposto do tipo da CPMF. O novo ministro da Saúde, o peemedebista Marcelo Castro, está todo animadão com o novo imposto: quer que ele seja permanente (não provisório), e que incida duas vezes (!) nas movimentações financeiras, para quem paga e para quem recebe.
Mas, em um daqueles casos raros, os donos da grana e a maioria da população humilde concordam neste momento com um pressuposto: o de que não há a menor condição de se criarem novos impostos. A retomada de poder do PMDB no governo não o livra da pecha de partido corrupto; até alimenta a percepção contrária. E Lula, que já deu mostras de sua genialidade (e de sua sabonetabilidade) política, teve que se enfiar de vez dentro desse governo Dilma em crise terminal, metendo todos os seus trunfos na operação de salvação, mandando Dilma para uma posição de quase espectadora. Resta ver como seu jogo duplo – ou triplo – vai tentar dar conta da encrenca.