Antes da prisão, líder do governo no Senado tentou constranger jornalistas e negociou "silêncio” de delator
Matheus Pichonelli – qua, 25 de nov de 2015Havia motivos para temer a divulgação. O esquema, segundo o delator, funcionou na área internacional da Petrobras a partir de 2006 e contava com a participação do ex-diretor Nestor Cerveró, preso e investigado na Operação Lava Jato, os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), Jader Barbalho (PMDB-PA) e o ex-ministro Silas Rondeau, além de Delcídio.
A
suspeita sobre Delcídio não surgiu ontem nem anteontem. Em setembro de
2014, um jornal de Campo Grande já havia relatado a tensão do então
candidato a governador do Mato Grosso do Sul com o vazamento de um
depoimento do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto
Costa. Em uma entrevista a um programa de TV, Delcídio se irritou com as
perguntas do apresentador a respeito do depoimento.
Até então, a acusação era baseada em um “ouvi dizer”: segundo Costa, foi Delcídio, ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras
entre 1999 e 2001, no segundo mandato do presidente Fernando Henrique
Cardoso, quem indicou a diretoria comandada por Cerveró – um dos
epicentros das irregularidades investigados da Java Jato.
Delcídio
fora indicado ao cargo à época pelo então senador Jader Barbalho
(PMDB-PA). Cerveró era seu principal assessor e Costa, gerente de
logística, conforme reportagem da Folha de S.Paulo. Daquela
diretoria surgiram as principais suspeitas sobre os peemedebistas
investigados na Lava Jato, entre eles o hoje presidente da Câmara dos
Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
O “ouvi dizer” de Costa se
tornou acusação a partir do depoimento de Fernando Soares, que relatou à
Procuradoria-Geral da República ter feito pagamentos de ao menos US$ 1
milhão ao senador por meio de um amigo de infância do petista
identificado como “Godinho”.Delcídio é acusado de participação em desvios envolvendo a compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA).
Preso
nesta quarta-feira, 25/11, pela Polícia Federal, Delcídio é a peça que
pode encaixar os pontos entre a compra da refinaria, o enriquecimento
dos diretores e as suspeitas sobre o seu partido. De acordo com a
colunista Mônica Bergamo, ele é acusado de sugerir a fuga de Cerveró,
mais R$ 50 mil mensais, para não fechar o acordo de delação premiada. A
oferta por seu silêncio perante a Justiça foi gravada por um filho do
ex-diretor e chegou às mãos da PF.
A
conduta foi enquadrada com obstrução de investigação, e baseou o aval
do Supremo Tribunal Federal para a prisão. O mesmo argumento foi usado
para a prisão de André Esteves, presidente do banco BTG Pactual.
Foi
Cerveró, vale lembrar, quem preparou o relatório, em 2006, pela compra
da refinaria americana por um preço acima do valor de mercado. O
relatório foi classificado como “falho” pela presidenta Dilma Rousseff, à
época ministra de Minas e Energia e presidente do Conselho de
Administração da petroleira.A história mal contada da compra da refinaria, que contou com o aval (baseado em um relatório falhou ou não) do conselho presidido por Dilma, é o grande calcanhar de Aquiles da presidenta – bem mais do que as pedaladas consideradas irregulares pelo Tribunal de Contas da União.
O primeiro senador em exercício preso em uma operação da Polícia Federal era também o líder do governo na Casa. Entre outras missões, era ele quem mantinha contato permanente com os opositores tucanos Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) por um armistício para votar projetos de interesse do Planalto no Senado. Ele articulava também a retomada do processo de apreciação do projeto de repatriação de recursos depositados ilegalmente no exterior, numa tentativa de elevar a arrecadação da União em tempos de crise.
Os
planos ficam suspensos até segunda ordem. A situação do governo, que
voltara a ser tensa, ficou ainda pior. A prisão do senador petista
acontece um dia após a Polícia Federal deter o pecuarista José Carlos
Bumlai, que se aproximou do PT – e, em seguida, do ex-presidente Lula –
no fim dos anos 1990 por intermédio de outra figura sul-matogrossense
controversa: Zeca do PT. Bumlai, que chegou a integrar o Conselho de
Desenvolvimento Econômico e Social do primeiro governo Lula, é suspeito
de intermediar empréstimos ao PT em troca de contratos com o governo e
recursos do BNDES. Antes, já havia sido acusado de participação em um
ataque a um acampamento indígena guarani-kaiowá em Dourados (MS) e de
integrar um esquema de propina de corrupção na Prefeitura de Campinas.
Se,
na véspera, a prisão do “amigo do Lula” foi interpretada como a
aproximação do cerco em torno do núcleo petista, a detenção do líder do
governo no Senado é um tiro no peito: acontece no momento em que o
governo via desanuviar a hipótese do impeachment da presidenta. Os estragos, desta vez, mal começaram a ser calculados.Foto: Geraldo Magela/ Agência Senado (18/08/2015)
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Matheus Pichonelli
Matheus Pichonelli é jornalista e cientista social. Trabalhou em
veículos como Folha de S.Paulo, Gazeta Esportiva, portal iG e
CartaCapital, onde mantém uma coluna sobre sociedade, cinema e
comportamento. Neste blog, analisa as ações e discursos comuns de
políticos e eleitores em um país ainda sequestrado pelo sufixo “ismo”: o
racismo, o patrimonialismo, o machismo, o sexismo e o paternalismo
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