sábado, 28 de novembro de 2015



Matheus Pichonelli

Antes da prisão, líder do governo no Senado tentou constranger jornalistas e negociou "silêncio” de delator

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Há uma semana, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) ameaçou acionar a recém-sancionada Lei do Direito de Resposta caso a Folha de S.Paulo noticiasse um depoimento do lobista Fernando Soares, o Baiano, no qual o parlamentar era citado como um suposto beneficiário do esquema de desvios na Petrobras.
Havia motivos para temer a divulgação. O esquema, segundo o delator, funcionou na área internacional da Petrobras a partir de 2006 e contava com a participação do ex-diretor Nestor Cerveró, preso e investigado na Operação Lava Jato, os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), Jader Barbalho (PMDB-PA) e o ex-ministro Silas Rondeau, além de Delcídio.
A suspeita sobre Delcídio não surgiu ontem nem anteontem. Em setembro de 2014, um jornal de Campo Grande já havia relatado a tensão do então candidato a governador do Mato Grosso do Sul com o vazamento de um depoimento do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa. Em uma entrevista a um programa de TV, Delcídio se irritou com as perguntas do apresentador a respeito do depoimento.
Até então, a acusação era baseada em um “ouvi dizer”: segundo Costa, foi Delcídio, ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras entre 1999 e 2001, no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, quem indicou a diretoria comandada por Cerveró – um dos epicentros das irregularidades investigados da Java Jato.
Delcídio fora indicado ao cargo à época pelo então senador Jader Barbalho (PMDB-PA). Cerveró era seu principal assessor e Costa, gerente de logística, conforme reportagem da Folha de S.Paulo. Daquela diretoria surgiram as principais suspeitas sobre os peemedebistas investigados na Lava Jato, entre eles o hoje presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
O “ouvi dizer” de Costa se tornou acusação a partir do depoimento de Fernando Soares, que relatou à Procuradoria-Geral da República ter feito pagamentos de ao menos US$ 1 milhão ao senador por meio de um amigo de infância do petista identificado como “Godinho”.
Delcídio é acusado de participação em desvios envolvendo a compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA).
Preso nesta quarta-feira, 25/11, pela Polícia Federal, Delcídio é a peça que pode encaixar os pontos entre a compra da refinaria, o enriquecimento dos diretores e as suspeitas sobre o seu partido. De acordo com a colunista Mônica Bergamo, ele é acusado de sugerir a fuga de Cerveró, mais R$ 50 mil mensais, para não fechar o acordo de delação premiada. A oferta por seu silêncio perante a Justiça foi gravada por um filho do ex-diretor e chegou às mãos da PF. 
A conduta foi enquadrada com obstrução de investigação, e baseou o aval do Supremo Tribunal Federal para a prisão. O mesmo argumento foi usado para a prisão de André Esteves, presidente do banco BTG Pactual.
Foi Cerveró, vale lembrar, quem preparou o relatório, em 2006, pela compra da refinaria americana por um preço acima do valor de mercado. O relatório foi classificado como “falho” pela presidenta Dilma Rousseff, à época ministra de Minas e Energia e presidente do Conselho de Administração da petroleira.
A história mal contada da compra da refinaria, que contou com o aval (baseado em um relatório falhou ou não) do conselho presidido por Dilma, é o grande calcanhar de Aquiles da presidenta – bem mais do que as pedaladas consideradas irregulares pelo Tribunal de Contas da União.
O primeiro senador em exercício preso em uma operação da Polícia Federal era também o líder do governo na Casa. Entre outras missões, era ele quem mantinha contato permanente com os opositores tucanos Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) por um armistício para votar projetos de interesse do Planalto no Senado. Ele articulava também a retomada do processo de apreciação do projeto de repatriação de recursos depositados ilegalmente no exterior, numa tentativa de elevar a arrecadação da União em tempos de crise.
Os planos ficam suspensos até segunda ordem. A situação do governo, que voltara a ser tensa, ficou ainda pior. A prisão do senador petista acontece um dia após a Polícia Federal deter o pecuarista José Carlos Bumlai, que se aproximou do PT – e, em seguida, do ex-presidente Lula – no fim dos anos 1990 por intermédio de outra figura sul-matogrossense controversa: Zeca do PT. Bumlai, que chegou a integrar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do primeiro governo Lula, é suspeito de intermediar empréstimos ao PT em troca de contratos com o governo e recursos do BNDES. Antes, já havia sido acusado de participação em um ataque a um acampamento indígena guarani-kaiowá em Dourados (MS) e de integrar um esquema de propina de corrupção na Prefeitura de Campinas.
Se, na véspera, a prisão do “amigo do Lula” foi interpretada como a aproximação do cerco em torno do núcleo petista, a detenção do líder do governo no Senado é um tiro no peito: acontece no momento em que o governo via desanuviar a hipótese do impeachment da presidenta. Os estragos, desta vez, mal começaram a ser calculados.
Foto: Geraldo Magela/ Agência Senado (18/08/2015)
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista e cientista social. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, Gazeta Esportiva, portal iG e CartaCapital, onde mantém uma coluna sobre sociedade, cinema e comportamento. Neste blog, analisa as ações e discursos comuns de políticos e eleitores em um país ainda sequestrado pelo sufixo “ismo”: o racismo, o patrimonialismo, o machismo, o sexismo e o paternalismo