Abandonai toda esperança: o fim de ano será um inferno
Matheus Pichonelli – 2 horas 14 minutos atrás
É quase um milagre natalino. Perto das festas de fim de ano, tudo indica que o assunto mais falado nos encontros entre amigos e familiares não será a receita do Peru, o especial do Roberto Carlos, a temporada do time do coração, as tiradas do pavê ou pra comer ou as lições gastro-comportamentais do tipo não importa o que comemos entre o Natal e o Réveillon, e sim o que comemos entre o Réveillon e o Natal.
Pelo contrário, e a exemplo de 2014, vamos gastar a língua e os dedos na passagem do ano explicando aos infiéis que a solução A, e não a B, é a melhor para o futuro político do Brasil. É tudo muito lógico e democrático: sabemos o que é melhor para o Brasil com base no que nós achamos ser o melhor para o Brasil. E saber o que é melhor para o Brasil requer saber o que é pior. Neste caso, basta remover as barreiras tóxicas do caminho para que, no ano seguinte, todos possamos voltar a falar sobre amenidades, de preferência com o preço do peru menos salgado. Alguns anteveem homenagens gloriosas a Dante Alighieri: “Abandonai toda esperança: esse Natal será um inferno”. Ou adesivos bem-humorados ao estilo “Boas Festas. Feliz treta política”.
Se nosso plano infalível der certo os preços cairão, os juros voltarão a patamares civilizados, o dólar recuará, a gasolina será troco de bala, pontes, estádios e refinarias serão construídos sem um centavo a mais, helicópteros oficiais não serão usados para agradar amigos e ninguém mais vai estacionar na vaga para deficiente nem vai ultrapassar pela direita nem ensinar o filho a mentir a idade para não pagar entrada no parque de diversões.
Fim de ano serve para reavaliar condutas e desejar coisas melhores. E é bom finalmente compreender que as discussões políticas são elementos centrais para que tudo se realize no ano que vai nascer, com muito dinheiro no bolso e saúde pra dar sem vender.
Mas uma coisa é discutir política à mesa ou no Facebook; outra, bem outra, é se guiar pela paixão. É ela, travestida de elemento cívico, que tem levado meio mundo a falar/escrever demais e a ouvir/observar de menos. Sobre isso ensinava Chico Buarque com ironia fina: “a prudência dos sábios não ousou conter nos lábios o sorriso e a paixão”.
O recado é batido, mas não custa repetir: política não é futebol. Ambos podem e devem ser discutidos, assim como a religião; o que não se recomenda é subir na arquibancada para fazer papel de tiete.
Qualquer discussão baseada em paixão é um embate de verdades-prontas e divulgadas até a metade. Mas as verdades estão aí para serem desconstruídas, e eis aí uma diferença primária entre paixão política e clubística: em política, se te dizem que o jogo está 2 a 1, não comemore; desconfie.
Enquanto Dilma Rousseff e Eduardo Cunha se engalfinham em uma guerra antiga e só agora declarada, os animadores de torcida tentam vender a ideia de que estamos assistindo a ruína e a reconstrução dos pilares da civilização.
É o que permite minimizar o fato de um acusado de receber propina e manter contas secretas na Suíça abrir na Câmara um processo de impeachment no mesmo dia em que o partido da presidenta se nega a jogar para ele a boia salvadora. Ou proclamar como mártir a presidenta que flexibilizou uma determinação fiscal e agora é vítima de um plano meramente vingativo.
Nem tanto ao mar nem tanto à terra: o que estamos observando é uma guerra política, com uma luta fratricida para reocupação de espaços abertos pela retração do capital político gasto pela presidenta entre a reeleição e a posse.
Essa retração fez com que grupos políticos acomodados no papel de coadjuvantes se animassem a exigir um protagonismo improvável em tempos de eleição. A disputa por espaço e poder é basicamente essa, mas é narrada como se fosse uma sessão de exorcismo: expulsos os demônios, o céu se abrirá para a passagem de anjos, arcanjos e suas harpas.
Aos que acreditam em anjos e demônios, um recado: não é a ética, o espírito público, a indignação diante da irresponsabilidade fiscal ou a vontade de mudar estruturas que movem seus atores. É a luta pela conquista ou manutenção de espaços. É isso o que explica a crise detonada dentro do próprio governo. É isso que explica a disposição de um deputado à beira da cassação de ir agora para a guerra (ela já estava armada quando lançou sua candidatura para o posto).
Aos que acreditam em soluções indolores para o impasse, uma má notícia: o melhor que este ou o próximo governo tem a fazer é evitar qualquer interferência nos trabalhos da polícia, do Ministério Público, da Justiça. O senador Delcídio Amaral (PT-MS) tentou embolar as instâncias e acabou preso.
O prosseguimento das investigações é, talvez, a prova de uma maturidade institucional que agora se tenta atingir. Para isso bastaria um ministro da Justiça digamos mais sensível aos apelos dos amigos investigados. Ou um procurador-geral da República mais afeito a gavetas do que a apurações. É por estes postos que grupos políticos igualmente viciados pela própria regra (e não pela exceção) do jogo político agora se atropelam.
Em um Congresso atingido no peito pela Lava Jato, o risco é que a alternativa à chamada letargia (também conhecida como erro de cálculo, boicote ou agenda sequestrada) seja uma tentativa de influenciar ou interromper qualquer apuração, a partir de agora, de cima para baixo.
É lícito querer outro presidente para conduzir os rumos do país. E é pouco atribuir a um golpismo barato a simpatia pelo dispositivo do impeachment. Mas a batalha pela Presidência é tudo menos uma batalha por um mundo mais justo: a médio e longo prazos, a crise de hoje fatalmente retornará no colo de quem seguiu o mesmo caminho prometendo mudanças de rumo. Estas só virão por caminhos distintos.
Nas festas de fim de ano, o tema “impeachment” será um bom termômetro para saber quem está na torcida pelo time de coração e quem está disposto a debater essas mudanças. O impasse atual abriu um caminho alargado para quem se dispuser a mudar o sistema político de dentro para fora. Isso requer uma discussão descontaminada de paixões a respeito da limitação de partidos políticos, teto para gastos de campanha, transparência na relação entre financiadores e candidatos, mudança na contratação de fornecedores pelos órgãos públicos e sobre o déficit de participação popular e representação.
É preciso rediscutir as arestas e o cerne do presidencialismo de coalização, enfim. O resto é cosmético. É mais do mesmo. Venha da cor que quiser. Política não é futebol, mas, antes de fazer papel de bobo útil a um dos muitos lados da história (acredite, não são só dois), seria salutar ouvir a velha lição dos antigos sobre as agruras esportivas: “Enquanto você torce, sofre e chora, eles faturam milhões”.