Acusado de corrupção atendeu as ‘ruas’: impeachment de Dilma está encaminhado
Matheus Pichonelli – 2 horas 47 minutos atrás
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), acaba de abrir as comportas para o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT). A decisão de Cunha nada tem a ver com os decretos presidenciais que atropelaram a meta de superávit e autorizaram o aumento de gastos do governo, conforme a ação assinada pelos juristas Miguel Reale Júnior e Hélio Bicuto.
Tem a ver com a decisão de três deputados petistas de votar pela abertura do processo contra o peemedebista no Conselho de Ética da Câmara. Em outras palavras: Cunha esperou o primeiro tiro para revidar.
E a resposta tem potencial destrutivo para o Planalto.
A cena final de Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino, nunca foi tão verossímil.
Uma vez aceito, o pedido será agora apreciado pelos deputados. O processo tem prosseguimento se for aprovado por dois terços da Casa – neste caso, a presidenta é afastada e o pedido é analisado pelo Senado em 180 dias. Em uma segunda votação, comandada pelo presidente do STF, a presidenta teria o direito de se defender das acusações numa espécie de tribunal. O pedido de impeachment deve ser aprovado por dois terços do Senado. Neste caso, a presidenta seria afastada e se tornaria inelegível por oito anos. Michel Temer, do mesmo PMDB de Eduardo Cunha, assumiria.
Em sua conta no Twitter, Cunha, acusado de cobrar propina e de manter contas secretas na Suíça, se gabou de ter atendido os pedidos da rua. Puro teatro. Sua ação é motivada pela mais fria vingança. Por ironia, os paneleiros que pediam a saída da presidenta desde o começo do ano foram indiretamente ajudados pelo trio petista do Conselho de Ética que se negou a salvar um acusado de corrupção.
Vale lembrar que entre tantas acusações que hoje pesam sobre o Partido dos Trabalhadores e ex-integrantes do governo, nenhum se refere diretamente à presidenta. Não há indícios de que ela tenha se beneficiado pessoalmente do esquema de desvios que levou políticos, lobistas, empreiteiros e até um banqueiro para a prisão.
Já contra Eduardo Cunha os indícios proliferam. É a ele que as ruas, a oposição e os juristas ligados à oposição jogaram a responsabilidade de decidir sobre o futuro de uma presidenta reeleita há pouco mais de um ano.
Pelas derrotas consecutivas sofridas pelo governo, apesar da ampliação de espaço para o PMDB em meio à crise política, chega a ser impossível prever qualquer desfecho favorável à petista. Ironia número 2: os presidentes das duas Casas que agora decidirão seu futuro poderão se tornar réus, em breve, no julgamento da Lava Jato.
Cunha deve durar pouco tempo como presidente da Câmara. Já havia sido abandonado pela oposição. Terá sorte se passar os próximos dias como homem livre. De onde estiver, poderá acompanhar o desfecho de uma crise que imobilizava o país e jogava óleo na tentativa de evitar o colapso econômico agora evidente. Seu mandato à frente da Câmara foi educativa do quanto oportunismo, vingança, chantagem e desfaçatez são determinantes para a decisão do jogo político.