Cristovam votará pela admissibilidade do impeachment: "Só as urnas unem"
Senador pelo Distrito Federal propõe eleições presidenciais em outubro
postado em 19/04/2016 07:12
Cristovam participou ontem do programa CB Poder, veiculado na TV Brasília: "Se houver crime, voto pelo impeachment. Se não houver, voto contra"
Desconfortável com as reações que pode causar a escolha pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) acredita que a melhor saída para o país neste momento é a realização de novas eleições. No fim da tarde de ontem, ele e mais seis colegas (leia ao lado) anunciaram que estão construindo o texto de uma Proposta de Emenda à Constituição para que sejam realizadas novas eleições presidenciais em outubro deste ano. “As ruas despertam a gente, mas dividem também. Só as urnas unem.”A ideia é que a PEC tramite junto ao processo de impeachment. Entretanto, Buarque alerta que, para ela dar certo, é necessário que haja um “acordão” pelo bem do país. Em conversa com o Correio, o professor afirma que votará pela admissibilidade do processo no Senado, mas ainda não tem opinião formada sobre o mérito. “Se houver crime, voto pelo impeachment. Se não houver, voto contra.”
Como fica o país agora, depois da votação do impeachment na Câmara?
Ruim de qualquer jeito. Estamos vivendo um período no deserto, talvez com abismos adiante e vendados. Está havendo o esgotamento de um modelo que foi construído com a redemocratização. Vivemos um processo de decadência porque democratizamos sem educar. A gente fez um gesto corretíssimo. Abrimos. A universidade está passando um pouco por isso. Nós aumentamos o número de universitários; claro, isso é muito bom, mas não preparamos. O país não está apenas em uma crise provisória, está em um processo de decadência.
O Brasil está assim por causa da corrupção?
A corrupção do comportamento, mas é também por causa de outra. A corrupção nas prioridades das políticas. Não só tem político levando dinheiro para o bolso, mas a política não está colocando dinheiro nos projetos que gerariam a uma nova sociedade. E aí vamos falar com franqueza. Essa corrupção das prioridades não é só a de fazer estádio em vez de escola. É, por exemplo, gastarmos mais dinheiro com a Previdência Social do que com a escola. Gastamos mais dinheiro com os velhos do que com as crianças. Gastamos mais dinheiro para pagar dívidas e os erros do passado do que os sonhos do futuro. Essa é uma corrupção também.
Essa hipótese de novas eleições é possível?
As ruas despertam a gente, mas dividem também. Só as urnas unem. Agora, estamos nas ruas. De um lado, amarelo; de outro vermelho. Estamos tão divididos que tivemos que fazer um muro. Esse muro é um símbolo da realidade. E não fui contra não, viu? Muita gente bateu… Acho que estava precisando de algo assim porque há uma divisão profunda. A gente não consegue nem dialogar mais com quem pensa diferente. Eu perdi a capacidade de convencer e não tenho vocação para converter. Aí a gente termina se retraindo entre nós. São línguas diferentes. Não é época de gente que gosta de diálogo. E, se você demora a tomar uma posição, é morista. Você não é reflexivo. Se a Dilma continuar, vai ser um desastre para o país. Se o Temer entrar, tem uma probabilidade alta de que seja um desastre. E a razão é por causa da instabilidade política. Primeiro, porque quem vai às ruas pedir a saída da Dilma não apoia o Temer. Segundo porque o PT que está na rua para apoiar a Dilma vai para a rua contra o Temer. Então, vai ter muito mais gente na rua contra o Temer do que hoje tem. Agora, some a isso o processo de impeachment que já existe contra ele. Como também ainda tem outros contra a Dilma. Então, está na hora de fazer eleição. Entre Dilma e Temer, vamos escolher um terceiro, quarto, quinto. Com o povo. A melhor maneira seria a própria Dilma mandar um projeto de lei ao Congresso. Se ela não apresentar, apresentaremos uma PEC. Mas a nossa tem um problema. Se ela ou o Temer entrar na Justiça, podem barrá-la. Podem alegar uma cláusula pétrea de que a eleição não pode ser modificada no mesmo ano dela. Teria de ser um grande acordão e ninguém provocar o Supremo. Se fosse feito, nós poderíamos fazer uma eleição por dois anos, um mandato tampão. Provavelmente, os candidatos não vão ser nomes de destaque na política. É uma saída.
E a sua posição?
A admissibilidade do impeachment vai passar. Eu vou votar a favor porque há suspeitas suficientes para abrirmos o processo. Além disso, depois que a Câmara, por mais vergonhosa que tenha sido a sessão, aprovou com aquele número, ficaria muito feio o Senado dizer “não aceitamos”. No julgamento, não tomei posição ainda. A minha posição está tomada. Se houver crime, voto pelo impeachment. Se não houver, voto contra. O que não sei é se da para dizer que isso é crime e se o povo vai entender que é crime. São duas coisas. Tem que ser crime e o povo tem que entender que foi crime. Se não, no processo democrático político, não vale o crime. É preciso convencer. Hoje, eu não tenho argumentos sólidos para convencer de que as pedaladas foram crime.
Mas não é a pedalada que está em jogo.
No meu voto vai estar. Não vou votar só porque tenho certeza de que a Dilma é uma péssima presidente e mentiu na campanha. Não votei nela. Votei no Aécio e rompi com metade dos meus amigos por causa disso. E votei dizendo que o Aécio tem três coisas. Primeiro, não é culpado pelo desastre. Segundo, tem mais competência para enfrentar. E, terceiro, ele vai levar a gente, da esquerda, para a oposição. A gente precisa ir para a oposição para construir um sonho novo. Ninguém sonha utopias dormindo nos leitos dos quartos dos palácios. E eu estava certo. Mas agora, desta vez, temo perder muita coisa qualquer que seja a minha posição. Porque não adianta mais argumentar. Hoje, quem pensa muito, dança. O pensamento virou uma música. Temo que muitos de nós soframos também um impeachment na política. O político tem dois tipos de eleitores. O eleitor da urna e o eleitor do boteco, da igreja, do café, da casa, da turma, a patota. Essa eleição tem um complicador grande, porque o eleitor da urna quer o impeachment. Ele não vai entender eu dizer ‘não houve crime e por isso eu voto não’. E o eleitor da turma, o da patota, não vai entender o voto sim. Vai me chamar de golpista. Então, talvez seja um período que não só o PT seja enterrado. Todo esse grupo que a gente chama de esquerda pode estar sendo enterrado. E, ao mesmo tempo, é um momento tão rico. Caiu o muro de Berlim brasileiro. O PT era a esquerda brasileira. Ruiu. Ruiu pela corrupção, pela incompetência, pelo aparelhamento do Estado. Então, era o momento de a gente fazer surgir uma nova esquerda.
O senhor se sente desconfortável?
Claro, não me identifico com essas pessoas que estavam na Câmara pedindo o impeachment. Não é a minha turma. Essa é uma das razões pelas quais desejo, às vezes, descobrir que não houve crime, porque aí voto não com a consciência tranquila e não serei responsável pelo governo Temer.
“Se a Dilma continuar, vai ser um desastre. O Temer é um provável desastre, por causa da instabilidade política. Quem vai às ruas pedir a saída da Dilma não apoia o Temer. Está na hora de fazer nova eleição”
PEC das novas eleições
A proposta apresentada ontem no Senado por um grupo de seis senadores é de realizar novas eleições presidenciais na mesma data da disputa municipal deste ano: 2 de outubro. Com isso, eles avaliam que as tensões entre os grupos pró e contra o impedimento de Dilma Rousseff poderiam ser amenizadas. “Asseguro que a ideia é iniciar o processo para uma saída negociada da crise, que pelo confronto não se resolve. É preciso uma saída pactuada, negociada”, defendeu o senador João Capiberibe (PSB-AP), um dos articuladores da ideia. Além dele, assinam o documento os senadores Walter Pinheiro (sem partido-BA), Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Lídice da Mata (PSB-BA), Paulo Paim (PT-RS) e Cristovam Buarque (PPS-DF). Os detalhes da PEC, no entanto, não estão fechados. Ainda não se sabe, por exemplo, se o novo presidente eleito ficaria apenas até o fim do atual mandato ou se seria um novo e, a partir de então, as eleições municipais, estaduais e nacionais coincidiriam.
Ruim de qualquer jeito. Estamos vivendo um período no deserto, talvez com abismos adiante e vendados. Está havendo o esgotamento de um modelo que foi construído com a redemocratização. Vivemos um processo de decadência porque democratizamos sem educar. A gente fez um gesto corretíssimo. Abrimos. A universidade está passando um pouco por isso. Nós aumentamos o número de universitários; claro, isso é muito bom, mas não preparamos. O país não está apenas em uma crise provisória, está em um processo de decadência.
Saiba mais
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O Brasil está assim por causa da corrupção?
A corrupção do comportamento, mas é também por causa de outra. A corrupção nas prioridades das políticas. Não só tem político levando dinheiro para o bolso, mas a política não está colocando dinheiro nos projetos que gerariam a uma nova sociedade. E aí vamos falar com franqueza. Essa corrupção das prioridades não é só a de fazer estádio em vez de escola. É, por exemplo, gastarmos mais dinheiro com a Previdência Social do que com a escola. Gastamos mais dinheiro com os velhos do que com as crianças. Gastamos mais dinheiro para pagar dívidas e os erros do passado do que os sonhos do futuro. Essa é uma corrupção também.
Essa hipótese de novas eleições é possível?
As ruas despertam a gente, mas dividem também. Só as urnas unem. Agora, estamos nas ruas. De um lado, amarelo; de outro vermelho. Estamos tão divididos que tivemos que fazer um muro. Esse muro é um símbolo da realidade. E não fui contra não, viu? Muita gente bateu… Acho que estava precisando de algo assim porque há uma divisão profunda. A gente não consegue nem dialogar mais com quem pensa diferente. Eu perdi a capacidade de convencer e não tenho vocação para converter. Aí a gente termina se retraindo entre nós. São línguas diferentes. Não é época de gente que gosta de diálogo. E, se você demora a tomar uma posição, é morista. Você não é reflexivo. Se a Dilma continuar, vai ser um desastre para o país. Se o Temer entrar, tem uma probabilidade alta de que seja um desastre. E a razão é por causa da instabilidade política. Primeiro, porque quem vai às ruas pedir a saída da Dilma não apoia o Temer. Segundo porque o PT que está na rua para apoiar a Dilma vai para a rua contra o Temer. Então, vai ter muito mais gente na rua contra o Temer do que hoje tem. Agora, some a isso o processo de impeachment que já existe contra ele. Como também ainda tem outros contra a Dilma. Então, está na hora de fazer eleição. Entre Dilma e Temer, vamos escolher um terceiro, quarto, quinto. Com o povo. A melhor maneira seria a própria Dilma mandar um projeto de lei ao Congresso. Se ela não apresentar, apresentaremos uma PEC. Mas a nossa tem um problema. Se ela ou o Temer entrar na Justiça, podem barrá-la. Podem alegar uma cláusula pétrea de que a eleição não pode ser modificada no mesmo ano dela. Teria de ser um grande acordão e ninguém provocar o Supremo. Se fosse feito, nós poderíamos fazer uma eleição por dois anos, um mandato tampão. Provavelmente, os candidatos não vão ser nomes de destaque na política. É uma saída.
E a sua posição?
A admissibilidade do impeachment vai passar. Eu vou votar a favor porque há suspeitas suficientes para abrirmos o processo. Além disso, depois que a Câmara, por mais vergonhosa que tenha sido a sessão, aprovou com aquele número, ficaria muito feio o Senado dizer “não aceitamos”. No julgamento, não tomei posição ainda. A minha posição está tomada. Se houver crime, voto pelo impeachment. Se não houver, voto contra. O que não sei é se da para dizer que isso é crime e se o povo vai entender que é crime. São duas coisas. Tem que ser crime e o povo tem que entender que foi crime. Se não, no processo democrático político, não vale o crime. É preciso convencer. Hoje, eu não tenho argumentos sólidos para convencer de que as pedaladas foram crime.
Mas não é a pedalada que está em jogo.
No meu voto vai estar. Não vou votar só porque tenho certeza de que a Dilma é uma péssima presidente e mentiu na campanha. Não votei nela. Votei no Aécio e rompi com metade dos meus amigos por causa disso. E votei dizendo que o Aécio tem três coisas. Primeiro, não é culpado pelo desastre. Segundo, tem mais competência para enfrentar. E, terceiro, ele vai levar a gente, da esquerda, para a oposição. A gente precisa ir para a oposição para construir um sonho novo. Ninguém sonha utopias dormindo nos leitos dos quartos dos palácios. E eu estava certo. Mas agora, desta vez, temo perder muita coisa qualquer que seja a minha posição. Porque não adianta mais argumentar. Hoje, quem pensa muito, dança. O pensamento virou uma música. Temo que muitos de nós soframos também um impeachment na política. O político tem dois tipos de eleitores. O eleitor da urna e o eleitor do boteco, da igreja, do café, da casa, da turma, a patota. Essa eleição tem um complicador grande, porque o eleitor da urna quer o impeachment. Ele não vai entender eu dizer ‘não houve crime e por isso eu voto não’. E o eleitor da turma, o da patota, não vai entender o voto sim. Vai me chamar de golpista. Então, talvez seja um período que não só o PT seja enterrado. Todo esse grupo que a gente chama de esquerda pode estar sendo enterrado. E, ao mesmo tempo, é um momento tão rico. Caiu o muro de Berlim brasileiro. O PT era a esquerda brasileira. Ruiu. Ruiu pela corrupção, pela incompetência, pelo aparelhamento do Estado. Então, era o momento de a gente fazer surgir uma nova esquerda.
O senhor se sente desconfortável?
Claro, não me identifico com essas pessoas que estavam na Câmara pedindo o impeachment. Não é a minha turma. Essa é uma das razões pelas quais desejo, às vezes, descobrir que não houve crime, porque aí voto não com a consciência tranquila e não serei responsável pelo governo Temer.
“Se a Dilma continuar, vai ser um desastre. O Temer é um provável desastre, por causa da instabilidade política. Quem vai às ruas pedir a saída da Dilma não apoia o Temer. Está na hora de fazer nova eleição”
PEC das novas eleições