O cálculo do impeachment é matemático. Moral é outra coisa
16 de abril de 2016
Em agosto de 2010, acompanhei um encontro do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva com empresários do Brasil e de El Salvador na sede da Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, na capital paulista. Faltavam cinco meses para o fim do seu mandato. O país estava prestes a registrar um crescimento econômico de 7,5% e o menor índice de desemprego em oito anos (6,7%).
O momento de euforia justificava o otimismo de visitantes e anfitriões. Tanto que o ex-operário parecia à vontade para desafiar, em público, os empresários presentes a dizer se tinham qualquer problema com o governo federal. “Todos ganharam muito dinheiro”, gabou-se Lula, para aplausos da plateia (eu vi, ninguém me contou).
Lula foi chamado pelo presidente de El Salvador, Mauricio Funes, como “melhor líder do mundo”. Recebeu afagos do presidente então em exercício da Fiesp, Benjamin Steinbruch. Lembrou, como algo distante, as desconfianças em torno da sua administração e ressaltou o bom relacionamento que manteve com o empresariado. Fez elogios a Antonio Delfim Neto, ex-ministro da Fazenda do regime militar, que o assistia na plateia. E arrancou risos quando disse: “Já vim mais para a Fiesp do que fui para a CUT, porque, certamente, santo de casa não faz milagre”, afirmou.
Quem estava naquele encontro e hoje vê a campanha da Fiesp e do grosso do empresariado pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que seria eleita naquele ano, corre o risco de dizer que não se trata do mesmo país, nem dos mesmos empresários, nem do mesmo grupo político. Os atores são os mesmos, mas os índices, não. A inflação, no ano passado, chegou a dois dígitos, o PIB caiu 3,8% e a tendência é que em 2016 o tombo seja ainda maior.
Os humores são bem outros desde aquela tarde em agosto, e parte disso é resultado da deterioração do ambiente político. Dilma terminou o primeiro mandato em pé de guerra com o mercado, que não engoliu as intervenções consideradas excessivas na economia, como o preço do combustível e da energia elétrica, e com a oposição e com a própria base aliada, que desde o primeiro dia se queixava de uma certa arrogância do governo, então no pico da popularidade, em relação às demandas dos parlamentares.
No limite, o distanciamento explica a ascensão, por exemplo, de uma figura como de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), rei do baixo clero, e a sucessão de trocas no comando da articulação política (que já foi, quem se lembra?, de Michel Temer) e econômica (três ministros em cinco anos) ilustra o ambiente nebuloso para quem precisa de um mínimo de visibilidade para fazer o carro andar. Este carro tem dois eixos, um econômico e outro político. Um não funciona sem o outro.
Em 2014, com os índices econômicos já frustrados, Dilma se reelegeu numa disputa tão violenta quanto apertada. Queimou pontes com aliados importantes no caminho, como o PSB, e assistiu a uma nova debandada de lideranças petistas, Marta Suplicy à frente. Hoje estão todos a favor do impeachment.
Enfraquecido, o governo ficou cada dia mais dependente do PMDB, aliado esfomeado que o amou por alguns meses, sete ministérios e muitos contos de réis. Em falta, o apoio ao governo sofreu um processo inflacionário e colocou a presidenta num dilema entre petistas que não queriam ceder e neoaliados que não se contentavam com o espaço oferecido.
Alguns deles já estavam enrolados até o pescoço na Lava Jato e já não viam no governo qualquer bote de salvação. Cunha puxou a retirada, mas não só: cuidou de espalhar dinamites pelas pontes e acendeu o fósforo. Ele chegou ao posto armado e a possibilidade de um tiroteio ao menor sinal paralisou qualquer agenda positiva do governo em meio à crise econômica. Quando o país travou, a impaciência dos empresários e dos aliados (até a segunda página) política passou a convergir com a impaciência das ruas e detonou uma série de revoltas organizadas. Dilma ficou só.