quarta-feira, 20 de julho de 2016


Bloqueio do WhatsApp tumultua rotinas e negócios

São Paulo - Com o bloqueio do WhatsApp, pessoas que usam o aplicativo para trabalhar tiveram de buscar rapidamente outras alternativas para não ter prejuízos, mas alguns enfrentaram dificuldades para conseguir se comunicar.
A coach Miyoko Sandra Isogawa Nishida, de 50 anos, tinha três reuniões para fechar contratos terça-feira, mas só conseguiu falar com dois clientes. "Mandava as mensagens e as pessoas não recebiam (por causa do bloqueio). Liguei, mas não consegui falar com a terceira pessoa. Justamente hoje (19) tinha agendado esses encontros para explicar quanto custa e como iria funcionar. Quase perdi três negócios e é isso que me sustenta", conta.
Miyoko diz que usa o aplicativo diariamente não só com as pessoas que atende. "Tenho 12 grupos com clientes, família. Todo mundo usa porque o WhatsApp, além de registrar a conversa, é mais rápido."
O empresário Tadeu Garcia, de 34 anos, tem uma produtora artística na área de eventos e também encontrou dificuldades para manter a agilidade no trabalho que realiza. "Uso bastante para falar com a minha equipe e com os clientes. Tenho grupos ativos para a entrega de material de eventos. Como é um meio de comunicação rápido e ágil, deixo o e-mail em segundo plano."
Garcia diz que já tinha instalado o Telegram e pediu para que o restante da equipe também começasse a usar o aplicativo. Mesmo assim, não conseguiu evitar que perdesse mais tempo ao fazer contato com os clientes. "Estou mandando e-mail e ligando. Uma mensagem de WhatsApp demora cinco segundos para mandar. Uma ligação dura dois a três minutos e, ao longo do dia, a gente perde duas horas. Mas estamos voltando a usar a função original do celular, que é como telefone."
O empresário, que também usa o aplicativo para falar com a família e com os amigos, afirma que os bloqueios deveriam ter alvos específicos.
"Não sei se essas empresas não têm acesso aos dados, mas isso deveria ser mais direcionado, com um bloqueio parcial ou individual."
Organização
Vocalista da banda Vó Tereza, Natan Kurata, de 27 anos, conta que várias decisões tomadas pelos sete integrantes do grupo são feitas pelo WhatsApp. "Nós nos conhecemos desde a faculdade e usávamos o Orkut e grupos de e-mail. O WhatsApp é rápido e dinâmico, conseguimos mandar áudios e vídeos. Como somos muitos, facilita a comunicação."
Ele conta que a banda começaria a conversar sobre o lançamento do novo CD, previsto para novembro, quando o aplicativo foi bloqueado. "Temos grupos que já ficam em stand by para quando o Whats tem o problema. Temos um grupo no Facebook e outro no Telegram. Quando falha, a gente vai para lá.
Não chega a prejudicar a ponto de parar a gente, mas o WhatsApp virou rotina e, quando tem de migrar, tem de mudar os hábitos", explica.
A modelo Leila Miana, de 31 anos, estava viajando de Juiz de Fora (MG) para São Paulo quando as informações sobre o bloqueio do aplicativo começaram a ser divulgadas.
"Não estava acompanhando as notícias e, quando abri, vi que não estava funcionando. Como fui pega de surpresa, fiquei um pouco perdida." Ela viajou para participar de um evento com foco em tatuagens e para fazer um ensaio fotográfico, mas a falta do aplicativo desorganizou a sua agenda.
"Não sei se o ensaio que vou fazer no horário do almoço está de pé e não consegui resolver. Tentei por outros meios, não recebi uma confirmação. A gente está muito dependente da ferramenta", afirma a modelo.
Leila diz que, das outras vezes, estava mais preparada e instalou outros aplicativos. Ela não concorda com os bloqueios da ferramenta. "A situação fica tumultuada e acaba nos punindo por um erro que não é nosso."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Criptografia impede 'grampo' em conversa no WhatsApp

Os três bloqueios do aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp no Brasil têm algo em comum: as justificativas da empresa norte-americana, de propriedade do Facebook, para explicar a falta de colaboração com a Justiça brasileira. Em todos os episódios, alegou-se não ter os dados solicitados pelas autoridades. Por trás da negativa, porém, está uma tecnologia de segurança avançada, que impede de que até mesmo a companhia tenha acesso às mensagens trocadas por seus mais de 1 bilhão de usuários em todo o mundo: a criptografia.
"Qualquer mensagem enviada por meio de um canal público, como a internet, pode ser interceptada por terceiros", explica a professora de Ciências da Computação da Universidade Federal do ABC, Denise Goya, em entrevista ao Estado. "A criptografia permite cifrar essas mensagens para que só o dispositivo que tem a chave possa decifrá-las."
O WhatsApp começou a criptografar as mensagens trocadas pelos usuários em 2012. O conteúdo só era codificado durante o breve período em que "passava" pelos servidores da empresa; depois, as mensagens circulavam de forma aberta pela internet. Em 2014, a companhia mudou de estratégia e decidiu adotar a chamada criptografia de ponta a ponta. A tecnologia, chamada de Signal Protocol, permitiu que as mensagens passassem a ser codificadas no aparelho do remetente e só pudessem ser abertas no dispositivo do destinatário, com o uso de uma senha composta por 32 caracteres alfanuméricos (256 bits). Somente os dois indivíduos que participam da conversa têm a chave - nem mesmo o WhatsApp pode decifrar a correspondência.
Após cerca de um ano e meio de trabalho, o WhatsApp anunciou, em abril deste ano, que todas as conversas feitas por meio do aplicativo são criptografadas de ponta a ponta. "A criptografia de ponta a ponta ajuda a tornar a comunicação via WhatsApp privada, como uma espécie de conversa cara a cara", disse o cofundador e CEO do WhatsApp, Jan Koum, ao anunciar o recurso de segurança.
De acordo com Marco Konopacki, coordenador de projetos do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio), a chave de 256 bits é forte, o que torna difícil, mesmo para especialistas em segurança, decifrar as mensagens. Na prática, mesmo se as autoridades interceptarem uma mensagem, teriam de gastar muito tempo e dinheiro para conseguir decifrá-la - e repetir o esforço a cada nova mensagem enviada. "Demoraria nove anos para quebrar o código usando um computador comum e três meses, se fosse um supercomputador", explica Konopacki.
Alternativa
Uma das possibilidades técnicas possíveis para permitir que as autoridades possam monitorar conversas de suspeitos seria criar uma espécie de "porta dos fundos" (back door, em inglês). Isso permitiria que as mensagens fossem "desviadas" para outro servidor, antes mesmo de serem criptografadas pelo aparelho.
Segundo os especialistas consultados pelo Estado, é improvável que o WhatsApp aceite fazer essa modificação no serviço. "A empresa teria o esforço de criar uma versão específica para o Brasil", diz Konopacki. "E isso não garantiria que os criminosos não iriam usar outras formas de acessar a versão americana do aplicativo."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.