Pulverizadas-repressivas-e-insuficientes-entidades-criticam-programas-federais-anticrack.
Trechos da matéria publicada na Uol em 11/06/2016 - copiado de: Clayton Freitas Colaboração para o UOL, em São Paulo 11/06/201704h00
Apesar de ser um problema que flagela o
país há mais de duas décadas, o primeiro grande projeto anticrack foi anunciado
pelo governo federal em 2010, último ano da gestão do ex-presidente Lula (PT).
Até então, a questão do crack não era alvo de programa específico. À época, dos
R$ 430 milhões anunciados para criação de propostas, apenas 30% foram
utilizados.
Mais tarde, no primeiro mandato da
ex-presidente Dilma Rousseff (PT), foi lançado o programa "Crack, É
Possível Vencer", que consistia em aportes de R$ 4 bilhões. Destes, apenas
R$ 3,5 bilhões foram reservados e, ao final, só R$ 1 7 bilhão foi gasto de
fato. Metade disso, segundo levantamento da FNM (Federação Nacional dos
Municípios), foi usada para capacitação de pessoal.
Se a avaliação das entidades era de
insipiência nas gestões Lula e Dilma, o governo Michel Temer (PMDB) recebe
críticas ainda mais firmes. "Hoje em dia não existe um trabalho
específico. Existem ações pulverizadas e não coordenada que não fazem frente à
necessidade de uma política nacional de prevenção", segundo o presidente
da federação dos municípios, Paulo Ziulkosk.
Rubens Adorno, professor da Faculdade de
Saúde Pública da USP e também presidente da Abramd (Associação Brasileira
Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas), ataca uma dessas ações pulverizadas,
o Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência).
"Temos escatologias político-ideológicas como o Proerd, que me parece uma
cópia da política de guerra às drogas dos EUA e tem, na sua proposta, talvez
resquícios e herança do governo militar", afirma.
Adorno sustenta essa afirmação a partir da
conclusão de que o "fenômeno drogas" é algo sensível à sociedade e,
devido a isso, "as políticas são apenas setoriais, acabando por expressar
a tendência política vigente no país"..
Ainda segundo Adorno, o governo federal
sempre viveu uma contradição, já que mantinha programas de redução de danos,
oriundos de propostas de movimentos sociais, e, por outro lado, sofria pressões
de grupos conservadores --tais como os
das bancadas evangélica e católica na Câmara dos Deputados--, ao criar o
"Crack, É Possível Vencer"....
"Foi a resposta do governo federal a
essas pressões, alocando quantia razoável de recursos para financiar programas
locais", diz Adorno
"Higienismo social praticado no
século 19"
O programa "Crack, É Possível
Vencer" prioriza ações em municípios com mais de 200 mil habitantes. Ele
foi lançado em 2010, logo após um estudo conjunto da Fiocruz (Fundação Oswaldo
Cruz) com a Senad apontar que existiam no país 29 cracolândias espalhadas por
17 Estados. À época, eram 2 milhões os usuários da droga no país
Sua essência consiste num tripé composto
por prevenção, cuidado e segurança. Além de criar rede de atendimento e
acolhimento, também fornecia veículos para monitoramento de concentrações de
tráfico e uso de drogas
Entre outros veículos, foram entregues aos
municípios um total de 197 ônibus equipados com câmeras, monitores, frigobar e
outros dispositivos para que as equipes pudessem monitorar os locais onde eles
eram estacionados... Destes, 54 (mais de um quarto) tiveram problemas e foram
encostados, segundo um balanço da Federação Nacional dos Municípios feito em
2016.
Solange Moreira, diretora do Cfess (Conselho
Federal de Serviço Social), afirma que o conselho fez duras críticas ao
programa desde a época de seu lançamento. "Isso porque o mesmo, apesar das
três vertentes que propõe (cuidado, prevenção e autoridade), tem focado na
autoridade, ou seja, na linha repressiva e violenta, deixando os outros dois
eixos em segundo plano", afirma....
"Em nome de uma 'segurança', grupos
populacionais estão sendo retirados dos centros urbanos e levados para
depósitos de pessoas; residências são invadidas, pessoas são recolhidas, dentre
outras situações de violação de direitos, como o recente caso da região da Luz
em São Paulo, denominada pela imprensa como 'cracolândia'", critica
Solange
O que fica explícito, segundo ela denomina,
"é a retomada do higienismo social praticado no século 19, hoje revestido
de acolhimento, que se traduz em recolhimento compulsório"....
A médica Ana Cecília Marques, coordenadora
da Comissão de Dependência Química da ABP (Associação Brasileira de
Psiquiatria), afirma que a entidade se debruça sobre a questão desde que o
crack começou a ser discutido com mais frequência no país, no início dos anos
2000. À época foi elaborado um guia a ser distribuído em Caps (Centros de
Atenção Psicossocial). Ele é o resultado de estudos científicos a respeito de
como lidar com a questão e i ntegra o projeto "Diretrizes", da AMB
(Associação Médica Brasileira)....
Ela afirmou que a capacitação dos
profissionais demorou para começar e diz que as ações são apenas pontuais.
"Sabemos muito pouco para onde foi o dinheiro. Eu não vi nada disso
[programa anticrack] acontecer para valer. Precisa ser permanente e não pontual", afirma....
Ana afirma que a vertente de só tratar quem
está nas ruas é falha. "Nós não vamos acabar com as drogas. Não adianta
ter tratamento só para quem está nas ruas. Tem sim que haver repressão [aos
traficantes]. Do jeito que a coisa está, é o mesmo que oferecer um doce a um
diabético. Ele vai ficar na fissura. É o que ocorre na cracolândia [em SP],
onde as tendas estão sendo montadas perto de onde existe uma 'feira' de
drogas", afirma....
A coordenadora da ABP ainda afirma que são
poucos os médicos especializados em tratamento aos dependentes químicos nos
centros de atenção psicossocial e serviços congêneres. "É
multiprofissional [o atendimento]. É para todos os pro fissionais, entretanto,
se não tiver médico, não é tratamento de qualquer tipo de droga",
afirma....
Internação involuntária
A internação involuntária --quando o
dependente é levado para o serviço com o consentimento da família-- ou a
compulsória --determinada pela Justiça-- divide o Conselho Federal de Serviço
Social e a coordenadora da Associação Brasileira de Psiquiatria....
Para a assistente social Solange Moreira,
do Conselho Federal de Serviço Social, esses tipos de tratamento são
"proibizantes, medicalizantes e punitivos de usuários de
drogas". Para a entidade, o tratamento adequado seria os oferecidos
nos serviços especializados e usando métodos tais como o de redução de
danos. ...
A psiquiatra Ana tem opinião diferente e
diz ser a favor das duas. "Cada caso é um caso. Isso integra as diretrizes
de tratamento. Depende da gravidade da situação", avalia.
Saúde mental...