quarta-feira, 1 de abril de 2015


Na corrupção como espetáculo fica difícil distinguir culpados de inocentes


O telespectador que acompanha a novela Petrobras deve ficar atento para seus aspectos midiáticos. Prisões televisionadas em grande estilo e em datas simbólicas, vazamento selecionado de informações, depoentes em CPIs que espalham versões sem relação com fatos virando manchetes, inquéritos contra políticos que se arrastarão por dois anos apresentados como condenações, manipulação de valores de bens apreendidos na casa de investigados.
Na Lava Jato são 19 ações penais instauradas, 485 pessoas e empresas investigadas e mais de 110 inquéritos.
A tudo isso nos próximos meses o telespectador vai se deparar com o vazamento de contas na Suíça – as contas de mais de 8 mil brasileiros no HSBC no chamado Swiss Leaks. De novo informações que chegam ao público de forma fragmentária e, muitas vezes, com o intuito óbvio de ganhar audiência, quando são apresentadas imagens de “celebridades”, sem deixar claro se estas cometeram algum crime ou não (ter conta no exterior não é ilegal, desde que declarada no Brasil).
Some-se agora a este cipoal de acusações e dedos em riste, a Operação Zelotes, da PF sobre fraudes contra a Receita Federal, que iniciou sua carreira midiática esta semana.
Percebe-se que a corrupção vai virando daqueles temas tão grandes como o Universo. Acusadores e acusados (entre eles gente da oposição) começam a se mesclar em uma rede de interesses difícil de decifrar.
A corrupção como espetáculo é, antes de tudo, uma arma política. O objetivo imediato é manchar o nome do adversário ou tirá-lo do jogo. Em termos de investigação é uma catástrofe. No passado, diferentes provas e processos foram anulados exatamente por isso: perícias feitas atabalhoadamente, provas vazadas para a imprensa e inviabilizadas nos tribunais, grampos ilegais, filmagens secretas realizadas por cinegrafistas de grande emissora de TV apresentadas à Justiça como que feitas por policiais e por aí vai.
No Brasil atual, o cenário acusatório se soma, no noticiário, aos efeitos do ‘ajuste’ econômico – este um palco de disputas políticas e sociais por recursos que irão secar nos próximos meses.
Nestes termos, a semana vai terminando com boas notícias para Dilma. A principal foi a decisão da agência Standard & Poor´s (S&P) de não rebaixar a qualidade dos títulos do Brasil – o que traria uma série de complicações para a economia. Outro alento havia sido, na semana anterior, a aprovação pelo Congresso do Orçamento 2015, o que deve destravar pagamentos em atraso do governo.
São sinais de que o ‘ajuste’, para o bem e para o mal, começa a ser negociado (vale dizer incorporado) pela sociedade. O Congresso saiu na frente e garantiu seu quinhão de verbas votando assuntos de interesse próprio; os sindicatos foram às ruas contra as restrições ao seguro-desemprego e pensões por morte; os caminhoneiros protestaram contra o preço do diesel; em São Paulo os professores estão em greve; os governos estaduais e prefeituras querem arcar com menos dinheiro no pagamento de suas dívidas com a União; e por aí segue o barco.
No Brasil do ajuste, a briga é por dinheiro. A disputa sobre quem vai perder ou ganhar vai continuar com intensidade, mas ao menos se sabe que haverá briga – é uma imprevisibilidade a menos.
Disso tudo (brigas em torno ao ajuste + cipoal de corrupção) a oposição quer produzir uma tempestade perfeita que devaste o governo de Dilma.
Já Dilma pode ganhar uma trégua com a corrupção virando novelão de capítulos infinitos e o ajuste “negociado”. Com seu estilo alheio, a presidente pode até sair fortalecida da pororoca atual, deixando para trás um rastro de destroços.
Enquanto isso, o brasileiro aguarda por melhoras.
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