A prisão e as prisões de José Dirceu, o onipresente
Matheus Pichonelli – seg, 3 de ago de 2015
José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, foi preso na 17ª fase da Operação Lava Jato enquanto cumpria prisão domiciliar no mensalão. Condenado em um julgamento classificado por ele como “político” e “sem provas”, ele é acusado, agora, de criar e chefiar o esquema de desvios na Petrobras ainda no primeiro governo Lula. Se dois raios não caem no mesmo lugar, Dirceu é o para-raio que esteve em todos.
A prisão dentro da prisão é o elemento simbólico dessa fase da operação, batizada de “Pixuleco”. Segundo o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC e suposto chefe do cartel das empreiteiras investigadas na Lava Jato, era assim que o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto se referia à propina que recolhia das empresas com contratos com a Petrobras.
A se fiar pelas investigações, não se trata de uma história que se repete. Trata-se de uma mesma história. No despacho do juiz Sérgio Moro, segundo noticia o site Congresso em Foco, o ex-ministro é citado como beneficiário de um “mensalinho” de R$ 96 mil desviados da Petrobras entre os anos de 2004 e 2013 – antes, durante e depois, portanto, da revelação, da denúncia e do julgamento do mensalão.
Dirceu, para quem não se lembra, deixou o governo no auge do escândalo. Retomou a vaga de deputado e foi cassado. Submergiu desde então, mas não desapareceu. Segundo o procurador federal Carlos Fernando dos Santos Lima, da força-tarefa da Lava Jato, Dirceu recebia propina do esquema da Petrobras mesmo após ser preso. Foi ele, de acordo com o procurador, quem instalou os diretores do esquema nos cargos de direção na estatal. Os esquemas, afirma, tinham o mesmo DNA.
Quando deixou o governo, Dirceu abriu uma consultoria, pela qual recebeu dinheiro de diversas empresas agora investigadas – algo em torno de R$ 9,5 milhões. Os serviços foram prestados, segundo ele, mas na era do trabalho imaterial, em que o volume produzido não é mensurado na balança ao fim do experiente, tudo entra num campo confuso, para alegria de muitos, entre lobby, informação privilegiada, prospecção, recompensa, garantia de contratos e serviços prestados.
Símbolo do pragmatismo petista para chegar ao poder, Dirceu é acusado de receber R$ 4 milhões em dinheiro vivo do ex-executivo da Toyo Setal Julio Camargo, o mesmo delator que afirmou à Justiça ter pago US$ 5 milhões ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Cunha segue solto, mas, nessa fase da operação, não se sabe até quando.
A prisão de Dirceu deixou a oposição – a mesma que se apoia em Eduardo Cunha para sangrar o governo – em polvorosa. Para o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), os fundamentos da acusação são motivos suficientes para estender a investigação sobre Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que substituiu Dirceu na Casa Civil e se credenciou para disputar o Planalto em 2010. Nunes é um dos políticos citados por Ricardo Pessoa como beneficiários de doações sinceras e desinteressadas para campanha. Ele recebeu R$ 200 mil, mas alega que foram legais.
Ronaldo Caiado, líder do DEM no Senado, celebrou a nova fase da Lava Jato, “que não se restringe a intermediários e finalmente começa a chegar aos cabeças pensantes, elaboradores de todo esse esquema corrupto dentro do Palácio do Planalto alimentado por ‘pixulecos'”. “Falta pouco agora”, disse ele, em referência à possibilidade de Lula e Dilma serem diretamente envolvidos.
Agosto começou como prometido para o governo da presidenta Dilma Rousseff. Tenso e imprevisível.
Na volta do recesso parlamentar, a Câmara, sobre o qual o Planalto já não tem o menor controle, deve ser a arena onde Eduardo Cunha, bancado pela maioria dos líderes partidários, e a oposição, não exatamente nesta ordem, prometem sufocar o governo com novas CPIs sobre os Fundos de Pensão e empréstimos do BNDES e as pautas-bomba para o orçamento. A atual, sobre a Petrobras, é hoje o maior guarda-chuva do presidente da Casa, a ponto de levar a advogada dos empreiteiros delatores, convocada a falar sobre seus honorários, a abandonar a carreira para se proteger de ameaças veladas.
Enquanto isso, malucos seguem agredindo quem ousar vestir vermelho pelas ruas. O Instituto Lula é alvo de ataque a bomba na madrugada – com o aplaudo dos malucos de sempre que juram fortalecer a instituições democráticas detonando-as. Há panelaços programados para esta semana. E manifestações marcadas para o dia 16.
Agosto, mês maldito para a política brasileira, mal começou. Não se sabe se terminará um dia.
Foto: Divulgação TV Brasil