O que explica a ‘paixão’ por José Dirceu?
Matheus Pichonelli – ter, 4 de ago de 2015
Para o bem ou para o mal, José Dirceu entrou para a história política recente como o personagem capaz de despertar os instintos mais primitivos nos brasileiros – e não apenas em seu algoz, Roberto Jefferson, delator do mensalão.
Ninguém - com a exceção de seu partido, que até o fim do dia não havia se manifestado - parece indiferente a ele.
Quem o odeia o odeia com convicção e por motivos óbvios. A prisão dentro da prisão e as notícias sobre enriquecimento pessoal dão munição a quem jamais engoliu o pragmatismo petista e, em tese, invalida o discurso de quem defende o partido a partir de uma narrativa monocórdica: a de que a legenda, contra tudo e contra todos, foi criada pelo povo e para o povo tem servido. Ainda assim, Dirceu é um sobrevivente. Primeiro, da ditadura e do exílio. Depois, de um julgamento apontado por seus defensores – constituídos ou não – como exagerado, pirotécnico, político e injusto. O ex-ministro, por algum motivo, se encaixa numa lógica narrativa sobre causas e sacrifícios digna de um herói que nunca foi.
Julgado e condenado, Dirceu se entregou à carceragem da Polícia Federal com um ato de resistência: o punho levantado para cima, como quem diz não se dobrar. Jurava ter sido condenado sem provas, e isso insuflou parte da militância a sair em sua defesa mesmo após a condenação. Nesta narrativa, ele de fato não se entregou, não entregou ninguém, cumpriu parte da pena no semiaberto, voltou ao trabalho e depois para casa. Cumpriu o martírio como quem se sacrifica por um projeto. À boca pequena, não faltavam apoiadores para defender os fins sem, digamos, dar tanta importância aos meios. O projeto, afinal, era mais importante.
Nessa narrativa, como bem definiu Bernardo Mello Franco em sua coluna na Folha de S.Paulo, Dirceu era lembrado como quem foi condenado por agir “em nome da causa”. Não qualquer causa, mas a causa certa: o fim da ditadura, na juventude, e a luta por um projeto popular, na maturidade. Esta segunda envolvia uma empreitada não apenas contra os algozes políticos, mas também da imprensa, dos setores conservadores da sociedade, dos reacionários, das velhas oligarquias. Isso justificaria a ação e a alcunha de “guerreiro do povo brasileiro” – o guerreiro que segura as pontas e suja as mãos enquanto o rosto dessa causa, no pico da popularidade, colhia em público os louros do sacrifício.
Essa narrativa do guerreiro só funciona quando dialoga com nossos instintos mais primitivos. Na busca inconsciente de sentidos e proteção, pedimos o tempo todo vilões e heróis para lidar com nosso desamparo diante de um mundo sem referenciais. Esses instintos desconhecem nuances e contradições, por exemplo, do compartilhamento da causa nobre entre empreiteiros e oligarcas do PP e do PMDB, como José Sarney. “Era preciso, era necessário, era pragmático”.
Para justificar a segunda prisão de Dirceu, o juiz Sergio Moro parece ter amarrado os pontos de uma mitologia cheia de brechas. Como o fato de um ex-ministro, com acesso privilegiado ao governo que ajudou a eleger, ter recebido milhões de empresas com interesse em contratos públicos. E como essa relação profissional, em conflito até a medula, se transformou em dinheiro para campanhas, empresas de consultorias e favores pessoais – a reforma de um apartamento, por exemplo. Não qualquer reforma, mas uma reforma calculada em R$ 1 milhão.
Pode-se questionar, é claro, por que as brechas dessa narrativa causam espanto a uns e não a outros. E por que o mesmo critério não vale a outros personagens igualmente contraditórios da mesma Lava Jato, como Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o vilão/herói que pode ser denunciado/liderar o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, ou os réus do mensalão tucano em Minas Gerais, que correm tranquilos rumo ao esquecimento.
Ainda assim, só mesmo os instintos mais primitivos, os que não ligam os pontos da razão, podem explicar, ainda ontem, a defesa tão apaixonada de alguém com recursos suficientes para pagar os honorários de um dos melhores advogados da praça. Ou a comemoração em torno de uma prisão - como se ela, em si, libertasse um país inteiro de seus vícios mais primitivos.
Essa paixão instintiva tem justificado muitos erros, e tornado impossível dar início a qualquer conversa baseada em autocrítica ou lições. Não é só crise nem apesar da crise. É um impasse. Aqui os mitos e as narrativas em torno deles, seja para o herói, seja para o vilão, servem também como âncoras (inclusive ao direito de ser julgado, se defender e cumprir pena sem precisar ser linchado publicamente ao retomar a vida).
Isso vale não apenas aos apaixonados por José Dirceu, mas a todos os que esperam da sacada o retorno de qualquer Rei Sebastião (que para uns um dia foi Fernando Collor, e agora é Eduardo Cunha, e por aí vai).
A defesa apaixonada de nossos heróis inventados, sejam eles quem for, é sintomática de nossas carências.
Foto: Memória EBC