Ciências humanas: a que será que se destinam?
Matheus Pichonelli – ter, 29 de set de 2015
A Mônica, provavelmente a estudante mais brilhante da nossa turma, tinha uma frase recorrente toda vez que o professor terminava a explicação em sala de aula. “Mas não pode ser o contrário?”
A pergunta tinha variações, mas a essência era a mesma. “E se eu fizer de outro jeito?”. “Por que não tentar dessa forma?”.
Tanto questionamento causava certo desconforto entre alguns professores e alunos, que já olhavam para o relógio da parede à espera do alarme de saída, mas não impedia que a nossa amiga tivesse a maior média da classe em qualquer disciplina, sobretudo as de exatas. Enquanto estávamos todos no esquema escola-cinema-clube-televisão, ela provavelmente já gostava do Bandeira e de Bauhaus, Van Gogh, de Mutantes, de Caetano e de Rimbaud, como a personagem homônima da música da Legião Urbana, que ela adorava.
Ao fim do ensino médio, então colegial, ela fez uni-duni-tê em todas as universidades para as quais foi aprovada e decidiu cursar psicologia.
Desde a nossa formatura, tenho recebido menos notícias dela do que gostaria – a última foi quando me enviou um convite para curtir a página no Facebook de seu Espaço de Psicologia em Londrina, onde deve estar, uma hora dessas, enchendo de vãs palavras muitas páginas e de mais confusões as prateleiras. E perguntando a qualquer um que lhe apresente uma resposta aparentemente definitiva sobre o mundo: “E se fosse o contrário?”
Por algum motivo, lembrei dela ao acompanhar a euforia, por aqui, sobre uma história ainda mal contada, vinda do Japão, de que o ministro da Educação local havia recomendado às universidades do país a cancelarem os cursos de ciências humanas e focarem nos cursos que “sirvam áreas que contemplem as necessidades da sociedade”.
De longe, fico imaginando o que diria a Mônica (e tantos amigos e conhecidos que optaram por sair por aí perguntando se as coisas não podem ser o contrário do que nos apresentam) sobre uma possível ligação entre tal disposição e os sintomas de nossa crise humanitária – que leva, por exemplo, à comoção com a imagem de um menino sírio morto em uma praia da Turquia sem qualquer esforço para entender como ele foi parar ali.
Nessa, caminhamos a passos consideráveis para nos tornar o guarda turco que serve à sociedade de seu país e só recolheu o corpo do garoto após anotar, burocraticamente, os detalhes do incidente como se anotasse a placa de algum veículo. Aquele menino só chegou ali porque, em algum momento da História, potências de pretensões colonialistas aplicaram matemática pura, com traços e fronteiras em linhas retas, em áreas de conflitos humanos geograficamente turvos. E quem se importa? Mais: quem se importa em compreender? De que serve, aliás, a compreensão?
Por aqui, a medida do governo japonês chegou a ser celebrada em colunas de jornalões como o fim do incentivo à masturbação mental chamada pensamento. Literatura, história, arte, músicas, teses sobre literatura, história, arte e música: tudo seria mais fácil se não houvesse tanta gente produzindo e questionando como fazia e segue fazendo minha amiga Mônica quando não se conformava com uma única resposta ou um único caminho até a resposta. “Não pode ser o contrário?”
Perguntar é lançar dúvida, e dúvida causa confusão, angústia, pânico, desorientação. É o que nos diferencia, por exemplo, de porcos, seres que crescem sem muitas pretensões ou questionamentos em currais estreitos e caminham resignados para o abate com a certeza de contemplar as necessidades da sociedade – no caso, uma necessidade alimentar. Convertidos em porcos, não temos qualquer articulação para evitar que outros porcos – de batina, de gravata, de avental ou de jaleco – nos alimentem como animais para garantir um pouco mais de ração aos seus.
É como se houvesse um apelo para vivermos apenas de estímulos e metas, e falar em limites éticos para a ação é atrapalhar o andamento das coisas. Somos, afinal, investidores de nós mesmos. Dedicamos tempo a nossos empreendimentos pessoais para trabalhar mais e ter mais condições de pagar a viagem ao fim do ano e ter o que fazer com o tempo que nos resta em direção ao fim. Qualquer pergunta no meio é perda de tempo e de energia em direção a nossos objetivos traçados antes mesmo do nosso nascimento.
Mas e se vivêssemos sem objetivos?, perguntaria a minha amiga, já com o dedo indicador levantado. E se nossos objetivos estivessem equivocados? E se nossos objetivos precisassem ser reformulados? E se a utilidade das coisas fosse justamente desnudá-las de utilidade? E se deixássemos de nos imaginar como elementos de servidão? E se minhas propriedades não fossem minhas? E se meus encontros com o mundo significassem não ganhos, mas perdas? E se a ideia de perda fosse ressignificada? E de tempo perdido? E se, como questiona o filósofo Vladimir Safatle, a miséria humana fosse justamente a obrigatoriedade do livre-arbítrio que nos limita a fazer escolhas? Como, por exemplo, estudar determinada ciência “útil” sem precisar saber quem foi Clarice Lispector – aquela autora estranha que conversava com baratas e inspirou outros seres estranhos a escreverem teses sobre um livro sobre baratas? E por que não podemos ser uma coisa E outra? Por que precisamos de falsos contrastes o tempo todo? Não podemos, afinal, fazer o contrário?
Desconfiar de tudo isso é criar incômodo. É virar do avesso. Pois é mais fácil (mais útil?) apertar parafuso do que saber montar a peça. Ou compreender o impacto da peça (ou de um empreendimento) em uma área habitada por…seres humanos. Ou investigar nossos limites humanos. Nossas tensões em direção a um fim inevitável. O massacre do envelhecimento. A angústia da finitude. A sensação de que nosso tempo dedicados a algo ou alguém não tem garantia nem taxa de retorno. Em tempo: um dos livros fundadores da Sociologia, essa ciência relegada à inutilidade pelos burocratas de sempre, é O Suicídio, de Émile Durkheim. No Japão, 29 mil pessoas se mataram em 2012, e em breve não haverá ninguém disposto a explicar o fenômeno para além da mera fatalidade.
Mas para que pensar em tudo isso? Para se entristecer, como diziam os personagens de Farenthein 451, de Truffaut, enquanto queimavam livros proibidos em espaços públicos?
Pois, se tudo correr como corre, os livros de história ou literatura, daqui a pouco, entrarão na mesma prateleira de obsolescências do disquete, do telefone discado e do pilão de café. E quem acreditou que a existência (a que será que se destina?) poderia ser algo a mais do que se ocupar em nascer, ganhar dinheiro e morrer está fadado ao desemprego.
Criados para sermos bons executores e andar em linha reta, aprenderemos então que não é preciso conhecer os livros nem a História para ser ministro da Agricultura, como ensinou em entrevista recente Katia Abreu, que só resolveu folhear Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, depois que a presidenta Dilma Rousseff lhe garantiu que não havia riscos de se tornar comunista.
Pois pensar, confrontar, contextualizar, relacionar fatos e propor outros caminhos são ações desnecessárias quando podemos tapear o tempo que nos resta (ou sobra) de vida com programas e gincanas de auditório na TV, memes de frases curtas sobre verdades definitivas da política, do dólar e das nossas relações afetivas - além, é claro, das bebidas e dos medicamentos para acelerar nosso desempenho ou amansar nossos transtornos.
Domesticados e indispostos a incomodar, teremos sempre mais facilidade para engolir sem questionar as caixinhas que nos vendem como latifúndio e solução para todos os males, inclusive ideias restritas e pouco afeitas à imaginação calculadas em estatutos da família e interpretação acrítica de livros sagrados e violências naturalizadas.
Em nossos últimos dias de colégio, lembro da empolgação da Mônica ao adentrar em um outro mundo, a partir da universidade, e ampliar o campo de visão com as perguntas de quando menina: “E se fosse o contrário?”.
Passados tantos anos, sobretudo quando os anos de faculdade terminaram, sinto ter encontrado cada vez menos pessoas como ela. É um ponto de aflição considerável descobrir que envelhecer é conviver com pessoas cada vez menos interessantes e incapazes de conversar sobre qualquer assunto que não as velhas receitas, as velhas rotinas, as velhas dores físicas. O que elas precisam é de mais gente como a Mônica. Para nos tirar do velho conforto de não precisar pensar nem nos confrontar com nossos dilemas mais complexos. “E se fosse o contrário?”
