quinta-feira, 1 de outubro de 2015



Dilma ameaça a ‘herança’ de Lula?

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À medida que crescem dentro do PT as críticas ao ajuste na economia (o movimento “fora Levy”), ganha relevância a pergunta: e Lula? De suas movimentações no tabuleiro político dependerá, em grande parte, o futuro de Dilma.
No domingo (27/9), em entrevista ao jornal O Globo, o cientista político André Singer, ex-porta voz de Lula no primeiro mandato do petista, à pergunta se Dilma estaria dilapidando o legado lulista, respondeu: “Não acho que ela esteja dilapidando, mas a política que foi adotada (por Dilma) está ameaçando o que foi construído no período Lula. Nesses primeiros nove meses de 2015 houve um retrocesso, mas esse retrocesso ainda pode vir a ser muito maior. É urgente interromper esse processo”.
O legado central de Lula, ao menos na narrativa governista, foi a ascensão social e de consumo. Em seus governos (2003-2010) cerca de 29 milhões de pessoas ingressaram na chamada ‘nova classe média’, aqueles que tem renda familiar entre dois e cinco salários mínimos, em um período de crescimento econômico. É isto que está sob ameaça na ótica da crítica de parte do PT a Dilma. Este é o retrocesso central. E de fato: segundo dados divulgados recentemente pela Fecomercio, 1,2 milhão de famílias caíram de categoria de renda/consumo nos últimos doze meses.
A equação não fecha, porém, quando parte do PT apela para que se interrompa “esse processo”. O processo é tudo aquilo que Dilma disse que não faria durante a campanha eleitoral e agora está fazendo. Sob a anuência de Lula e do próprio PT, diga-se. Fechadas as urnas em outubro de 2014, logo começou a articulação para a mudança na política econômica, com o sistema financeiro sendo sondado para a ocupação do Ministério da Fazenda. Resultou dessas conversas a nomeação de Joaquim Levy, até aquele momento executivo do Bradesco. 
Lula parece viver o dilema de acenar para suas bases sociais e políticas – grosso modo “os trabalhadores” – e sustentar uma política de ajuste na qual os trabalhadores justamente perdem renda e empregos. O próprio Lula já fez este malabarismo em 2003, quando promoveu um forte ajuste nas contas de governo logo que assumiu, embora tenha sido favorecido pelos bons ventos da economia internacional.
Agora, é óbvio, o jogo é outro. 
Dificilmente alguma solução para a crise política brasileira deixará de passar por um acordo com Lula. Goste-se ou não dele, o ex-presidente é das poucas figuras de expressão nacional que ainda preserva, do ponto de vista individual, forças para desequilibrar o jogo da política. Em caso de saída de Dilma – e no quadro atual de fragmentação de forças políticas – quem gostaria de assumir a agenda do ajuste tendo Lula como opositor? 
Principal eleitor em 2014, Lula, segundo sondagens do Ibope de agosto, ainda tem popularidade para colocar na mesa: venceria Aécio entre os muito pobres em uma eventual disputa eleitoral e bateria o governador paulista Alckmin na faixa até dois salários mínimos (base do que se convencionou chamar de lulismo). De certa forma, são números surpreendentes, se se levar em conta o desgaste sofrido pelo PT com a Lava Jato, as seguidas denúncias e, principalmente, a crise econômica que corrói a renda e o emprego dos trabalhadores, exatamente sob o governo de sua sucessora. Para a maioria dos brasileiros, ainda de acordo com pesquisas, Lula foi o melhor presidente que o país já teve. Não é pouca coisa.
Para Lula e o PT não resta dúvida de que o melhor no cenário atual seria estar na oposição. Mas para isso seria necessário girar a Terra ao contrário e voltar no tempo, abrindo, em 2014, para o eleitorado, a real situação do país, e colocando em disputa o que seria feito dali para frente, uma campanha que girasse em torno a quem poderia gerir melhor o necessário ajuste na economia. Ou então que compartilhasse com o eleitorado as demais opções existentes, elevando o nível do debate político e, aí sim quem sabe, colocando em choque as divergências e os diferentes projetos de país, se é que de fato estes existem! 
Seja como for, Dilma, o próprio Lula (que busca esgueirar-se por entre os escombros e estilhaços) e principalmente o PT pagam no momento o preço pelo erro político da campanha de 2014. Até onde vai a conta? 
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