quinta-feira, 1 de outubro de 2015


A reforma ministerial e a venda (sem garantia) da governabilidade

Em oito anos de governo Lula, Aloizio Mercadante, um dos principais quadros do PT no período, jamais foi nomeado ministro. O agora ex-braço-direito de Dilma Rousseff tinha uma explicação para o desencontro: entre 2003 e 2010, a incumbência dada a ele pelo ex-presidente era trabalhar, estrategicamente, na liderança do governo no Senado.
Na versão acredita quem quiser, mas a ascensão controversa de Mercadante no governo Dilma dá a noção das diferenças de propostas da presidenta e de seu antecessor. Duas vezes derrotado na disputa pelo governo paulista, o ex-senador chegou à Esplanada como ministro da Ciência e Tecnologia e, pouco depois, da Educação.
Professor licenciado de Economia da PUC-SP e da Unicamp, Mercadante foi alçado a gerente do governo em janeiro de 2014, quando Gleisi Hoffman, então titular da Casa Civil, foi cuidar da campanha (fracassada) ao governo do Paraná.
imageFoto: Wilson Dias/Agência Brasil
A dobradinha Dilma-Mercadante alimentou, a partir de então, relatos diários sobre conflitos entre aliados dentro do governo e fora dele. A imagem da suposta (e noticiada) má vontade da dupla em relação ao PMDB, que se articulava para tomar o controle do Congresso antes de avançar sobre o governo, foi flagrada em fevereiro deste ano pelo fotógrafo Sergio Lima, da Folhapress, quando Mercadante estendeu, em aparente contragosto, a mão em cumprimento a Eduardo Cunha, que acabava de se eleger presidente da Câmara.
Cunha jamais engoliu o esforço do governo em barrar a sua ascensão, que se solidificava à revelia das suspeitas de seu envolvimento na Lava Jato (até agora, nada menos do que cinco investigados citaram as suas digitais nos crimes apurados).
Quando a relação azedou de vez, o vice Michel Temer tentou atuar como bombeiro ao assumir para si a articulação política, mas Mercadante seguiu, sempre segundo o noticiário, como o contraponto da distensão. Em quase dois anos, o ex-senador já não tinha apoio de qualquer ala peemedebista, e passou a ser fritado por colegas do próprio PT. Agora entende-se por que Lula, aparentemente pouco simpático ao ex-senador, jamais o nomeou ministro.
Em pouco tempo, a antipatia da base aliada com a dupla Dilma-Mercadante virou aversão e a aversão, um gatilho para introjetar, entre as fileiras de deputados inimigos e apoiadores pero no mucho, a tese de impeachment. Dissolvida, a base parlamentar deixava de servir como barreira de segurança da presidenta à medida que a crise econômica avançava, Dilma se contrariava, sua popularidade definhava e os grupos oposicionistas se organizavam e tomavam as ruas.
O enfraquecimento de Dilma era a hora certa para o PMDB aumentar o pedido de resgate e remover do caminho um dos últimos obstáculos de suas pretensões. A aposta do Planalto agora é que Jaques Wagner, substituto de Mercadante na Casa Civil, sirva como aparador dos pontos de tensão. Um deles começa a ser desmontado: em troca do cessar-fogo, a ala peemedebista da Câmara está prestes a levar o Ministério da Saúde, cujo antigo titular, Arthur Chioro, acaba de ser demitido por telefone. Em seu lugar deve assumir um novato cuja principal credencial é ser amigo de Eduardo Cunha, a quem Mercadante (que deve voltar para a Educação) dera as mãos a contragosto. (leia mais AQUI)
O rearranjo ministerial, agora costurado por Lula, é a compra, sem qualquer garantia, da governabilidade a um mandato que não começou.