sábado, 17 de outubro de 2015



Se garantir sobrevida a Eduardo Cunha, governo será sócio de sua cruzada contra minorias e trabalhadores

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Em quase oito meses como presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) conseguiu emplacar projetos que colocavam em risco o direito do trabalhador, do eleitor, da juventude e das minorias.
Em sua gestão, aliados e paus-mandados se sentiram à vontade para dizer quem tem ou não o direito de pertencer a uma família (gay não pode), circular pelo plenário (decote não pode), educar estudantes (fazer pensar por meio de livros, vulgo “ideologia esquerdista”, não pode), ser reeducado (adolescente apreendido não pode), concorrer à eleição (quem não tem dinheiro de grandes empresas não pode) ou receber benefícios como férias, 13º e seguro-desemprego (precarizado, ou terceirizado, não pode). Teve tempo ainda de tirar da cartola, em meio à crise econômica, projetos para a construção do Parlashopping e aumentos vultuosos para a cúpula do Judiciário. Por pouco não estendeu o bolsa-avião aos acompanhantes dos deputados.
Em resumo: Eduardo Cunha teve tempo de provocar estragos e perpetuar seu grupo no poder com menos da metade de mandato como presidente da Câmara. Até 2017, terá tempo de transformar o Congresso num terreno desertificado.  
Tudo isso entre manobras para amarrar detratores, coagir advogados e inimigos em CPIs comandadas por seu grupo e tuítes para desancar quem não concordava com ele.
Espécie de Forrest Gump da política nacional, Eduardo Cunha, vale lembrar, teve o nome citado em inúmeras investigações desde que começou a colher os frutos de sua amizade com PC Farias e viu crescer sua influência em postos na Telerj, nos fundos de pensão e, depois, na Petrobras.
É ele, porém, quem pode dar ao governo o que o governo precisa: uma promessa de armistício. Denunciado ao Supremo por corrupção na esteira da Lava Jato e suspeito de manter contas secretas na Suíça, ele pode ser cassado pelos pares a qualquer momento. Mas escapa da degola se garantir o apoio de seu partido, o PMDB, e do PT. Em troca, juraria de pé junto que, enquanto estiver no comando, os pedidos de impeachment não avançarão.
A posição do governo, obviamente, é delicada. No Congresso, não há ninguém minimamente indignado com as chamadas pedaladas fiscais condenadas pelo TCU. Parte de seus opositores quer é rifar a presidenta do Planalto para poder repovoá-lo. Por isso há tantos interesses em fazer o governo sangrar após quatro derrotas consecutivas nas urnas (a última, bastante apertada e contestável pelos métodos, mas, ainda assim, derrota). Se o processo for aberto, não há nada que possa assegurar ou evitar a queda de Dilma, e as derrotas na tentativa de analisar os vetos das chamadas pautas-bomba é o termômetro mais fiel da fragmentação de seu apoio.
Se partir para a jugular do presidente da Câmara, portanto, este pode sair, mas antes vai abrir as comportas do naufrágio.
Agora, imagino ao leitor: para se salvar, Dilma e Eduardo Cunha terão de conviver, até pelo menos 2017 (com a remota possibilidade do deputado não emplacar um pau-mandado como sucessor), num casamento arranjado que pode ruir ao menor sinal de contrariedade. É como dar carta branca a um projeto que é a antítese do que o PT, em seus primórdios, um dia defendeu - e defende, ao menos a cada quatro anos - como bandeira: mais direitos, mais participação, mais tolerância aos grupos historicamente marginalizados. Cunha joga, e tem jogado, contra todos eles desde que chegou ao comando da Câmara.
As condições para o armistício, ao que tudo indica, são essas: abrir mão das próprias bandeiras em nome da sobrevivência.  Não que o governo já não tenha maltratado suficientemente suas bandeiras com propostas de ajuste fiscal, práticas condenáveis, abrigo e coalizões com o que existe de pior na política. Mas oferecer sobrevida a alguém como Eduardo Cunha, deputado que promoveu uma cruzada contra direitos de trabalhadores, dos jovens e das minorias, é a falência simbólica de uma bandeira. É uma forma de tornar-se sócio desta cruzada - pelo silêncio.
Triste fim para quem jurou, em sua fundação, levar ao poder os anseios dos pobres e dos oprimidos.
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil