Cunha: monstro ou sintoma de um Brasil que desponta?
Por Rogério Jordão | Rogério Jordão – qua, 4 de nov de 2015Eduardo Cunha foi a principal novidade política de 2015. Até um ano atrás quem, fora do Rio de Janeiro, ouvira falar em Cunha? Um deputado a mais. Um defensor da família e militante antiaborto. Alçado à presidência da Câmara logo mostrou as garras, emparedando o governo e surfando na crise política. Rápido no gatilho aprovou no início do ano emendas que favoreceram os parlamentares, como o aumento do fundo partidário, antes que o “ajuste” virasse mantra. Depois, atingido pela Lava-Jato e denunciado pelo MP, detonou, coincidência ou não, uma série de pautas-bomba que se aprovadas detonariam as finanças do país.
Mas quem é Cunha, essa persona?
Certamente um homem da lei, do regimento e sobretudo de Deus. Suas opiniões vem quase sempre acompanhadas de explicações sobre ritos, prazos e requerimentos. Se vamos ao seu Facebook para tentar adivinhar-lhe o pensamento, nos deparamos com trechos bíblicos. Assim, Moisés proclamou para os filhos de Israel quando saíram do Egito: “Sigam única e exclusivamente a Justiça (….)”, conforme está no Deuteronômio, capítulo tal, versículo tal, ou seria no artigo II, inciso IV? Pois a Bíblia pode ser tão enigmática quanto as leis, que no Brasil, aliás, são frequentemente ambíguas, na medida para desembargadores e bacharéis, nossos homens de letras e $.
Eduardo Cunha tem o espírito, a anima, do desembargador. Se não fosse político profissional, caberia bem no figurino de (antigo) dono de cartório (dos tempos da hereditariedade).
Mas Cunha não está só, muito pelo contrário. Embora nublado pelas denúncias de contas na Suíça e recebimento de propinas, Cunha é a cara de um Brasil qualquer que emerge – ainda bebê ou mesmo embrião. Um país com feições simultaneamente liberais (no campo econômico) e messiânicas e que havia encontrado em Cunha uma promessa de síntese, pelo menos até a Lava-Jato.
Um Brasil que se faz representar na Câmara, eleita (sempre bom lembrar) e que aprovou a redução da maioridade penal com mais de dois terços dos votos. Em cujas comissões avançam projetos que instituem homem e mulher como núcleo familiar, que quer o “cidadão de bem” portando armas, que restringe a demarcação de terras indígenas. A agenda, aparentemente majoritária, das chamadas bancadas BBB, da Bíblia, Bala e Boi.
No que diz respeito a seus aspectos morais é uma agenda messiânica no sentido dicionarizado da palavra: “relativo a um movimento ideológico que prega a missão de que estaria investido um homem (ou grupo de homens) na salvação da humanidade”. O que inferir quando se vai à pagina do Facebook do deputado e se depara, a cada 4 posts, com mensagens do Antigo Testamento?
Para os que pensam Cunha como monstro, este o é o no sentido de ideólogo & promotor do desmonte do caráter universal dos serviços do Estado. Ou o fim do Estado laico. Um médico, por exemplo, poderá alegar convicções íntimas para não prescrever a pílula do dia seguinte; uma família talvez não seja considerada família aos olhos da lei, e assim por diante.
Mas
Cunha não é figura de fácil interpretação. Está mais para esfinge.
Mesmo seu caráter liberal é dúvida: as pautas-bombas vão no sentido
oposto ao do Estado mínimo e da máxima eficiência apregoados por esta
corrente de pensamento. Assim como todo o PMDB, diga-se, um partido que
há décadas faz da ambiguidade sua força motriz.
No atual
momento, a vaga messiânica enrosca-se a outras pautas em alianças
programáticas e pontuais: com maioria na Câmara, é preciso aprovar o que
for possível até o final da atual legislatura. Da restrição ao aborto
até flexibilizações econômicas, no limite dos interesses cartoriais
brasileiros. Cunha foi peça da engrenagem de uma agenda. Agora, é possível que caia. Sem ele, o que será?
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Imagem:Senado Federal/Flickr