Limpinhos x Corruptos: Como Eduardo Cunha ajudou a enterrar uma falsa polarização
Matheus Pichonelli – qui, 5 de nov de 2015
No
dia 26 de outubro completamos um ano do encerramento de uma eleição que
não acabou. Da acirrada disputa entre a petista Dilma Rousseff e o
tucano Aécio Neves uma leitura surgiu como unanimidade: o país saía das
urnas dividido pela polarização entre os dois principais partidos da
disputa.
Dessa leitura presumia-se que dois projetos distintos,
representados por grupos distintos, assentavam-se em polos nitidamente
opostos. Não era uma interpretação de toda errônea, já que os eleitores
pareciam consumidos por uma guerra declarada ao outro lado. Quem votou
em um jamais votaria em outro, e essa polaridade parecia reforçada pelo
mapa da votação e os recortes, nem sempre fieis à realidade, entre sul x
norte, pobres x ricos, etc.
Com
a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, que levou à cadeia políticos e
empresários ligados ao PT e partidos aliados, um novo componente
polarizador somou-se à narrativa. De um lado estariam os corruptos; de
outro, os bons gestores interessados na moralização da administração
pública. Derrotados nas urnas, eles pareciam indispostos a baixar a
guarda. E não baixaram.
Não era apenas um debate, contínuo após a
eleição, sobre projetos (mais ou menos Estado, mais ou menos
intervenção, mais ou menos programas sociais), mas um debate calcado na
moralidade. Este debate era reforçado pelos holofotes das páginas
políticas e policiais. Em fevereiro esta narrativa começou a ser bagunçada. Vinha do PMDB, e não do PSDB, a corporificação de um desejo: o combate aos desmandos, assim nomeados, do governo federal, àquela altura bombardeado pelas suspeitas na Petrobras e pela contradição entre promessas de campanha e anúncios de ajuste fiscal.
Eleito presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi logo abraçado pelos movimentos pró-impeachment, que ganhavam força com protestos de rua no começo do ano, como o profeta responsável pela travessia do mar vermelho: com um cajado, ele abriria caminho pelas águas em direção à salvação.
O protagonismo assumido pelo deputado no posto, e a ameaça de abrir o processo de impeachment contra a presidenta reeleita, com quem nunca se bicou, fez com que os aparentes polos opostos passassem a pisar em ovos. Uns porque queriam a radicalização do processo. Outros porque queriam barra-lo. Ambos passaram a se esfregar nas pernas do presidente da Câmara como um felino quando quer algo.
Do lado da oposição e dos grupos pró-impeachment, as poses para fotos oficiais denotavam uma sintonia em direção a uma fábula: ao lado de Cunha, eles destronariam um governo implicado em uma série de acusações (de pedaladas fiscais, a abuso de poder econômico na campanha, passando por desvios provados na Petrobras e à memória recente do mensalão) e instaurariam um regime harmonioso e incorruptível.
Dedos para cima, a militância anticorrupção, com as lideranças tucanas como papagaios de pirata ao fundo (nada constrangidos por esquemas similares em seus redutos, como o mensalão mineiro), sorriam para a foto ao lado do deputado com quem gostariam de caminhar juntos.
Faltou combinar com os investigadores da Lava Jato, que expuseram ao sol a real bronca de Eduardo Cunha com o Planalto: ele perdera a boca na Petrobras, com a troca de guarda em uma diretoria sob seu domínio, e foi à guerra. O ex-diretor indicado por ele está preso, e levou junto uma leva de novos acusados que agora relatam a suposta participação de Eduardo Cunha no esquema. Parecia intriga da oposição (ou da situação, como vendia o próprio deputado), até que surgiram evidências de contas secretas mantida por ele na Suíça, negada em plenário numa mentira agora lustrada como meia-verdade: eram dele, mas não completamente.
Ou seja: os baluartes da moralidade, com ou sem mandatos eletivos, associaram-se a um acusado de corrupção para combater a …corrupção. Não se estranha, portanto, a perda de fôlego dos movimentos de rua, agora inclinados a registrar o que resta de força com totens simbólicos, como o tal Pixuleco: não é uma multidão na rua, mas rende foto no jornal.
Um
ano e alguns dias depois da eleição, portanto, seguimos lambendo
feridas de uma campanha de agressividade evidente, e ninguém, nem os
eleitores mais fiéis de Dilma, está satisfeito com os rumos do governo,
mas o tema “corrupção” já não serve como baliza para separar as opções
políticas. Essa baliza, em vez disso, evidencia uma mera indignação
seletiva – o que, neste e em outros aspectos, aproximam tucanos e
petistas na mesma disposição. Ser contra a corrupção, como costuma dizer
um amigo, equivale a ser contra a gripe ou a malária: não há outra
opção.
Menos do que gostariam seus apoiadores, as opções
políticas se confundem e se embrenham conforme convém a cada parte, e a
Eduardo Cunha, opositor filiado a um partido aliado, pode ser atribuída
essa confusão de princípios. Sua ascensão e sua eventual queda são
educativas neste sentido.Pois se há, de fato, uma polarização entre grupos políticos no país hoje ela não é partidária. Não apenas. Ela se configura na luta por espaço político entre grupos hegemônicos e grupos minoritários, mobilizados a partir de um déficit de visibilidade na sociedade e de representação no sistema político. É o que permite que grupos hiper-representados no Congresso (empresários, religiosos, homens em sua maioria) determinem como o restante da população, plural e diversificada, deve se enquadrar em conceitos de normal e patológico, a começar pela constituição das famílias, passando pela liberdade dos próprios corpos. O absurdo observado na semana passada, quando homens adultos brancos debatiam como mulheres violentadas, muitas delas jovens, devem ser atendidas em um hospital, é a maior evidencia desse déficit.
Cunha
é resultado de um movimento de contenção: ele representa a ojeriza à
ampliação da participação política que começa a explodir. E cresceu no
momento em que os dois principais partidos do país se digladiavam,
dentro da burocracia do Estado, numa falsa polarização que os levava a
abandonar as origens e as bases de seus compromissos e movimentos.
Isso
talvez explique a desconfiança do empresariado sobre tucanos
apreciadores das pautas-bomba e a perda de influência de lideranças
petistas na periferia – em detrimento das lideranças pentecostais, das
quais Cunha e seus aliados são também tributários. Mas isso é tema para a
próxima conversa.Na foto, dólares são jogados para o alto durante entrevista coletiva do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, no Salão Verde da Câmara. (Lula Marques/Agência PT)
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