De onde surgiu essa gente careta e covarde?
Matheus Pichonelli – sex, 6 de nov de 2015De onde surgiu essa gente careta e covarde?
Matheus Pichonelli – sex, 6 de nov de 2015
Por telefone, a estudante me
pergunta se vejo alguma perspectiva de mudança política significativa no
país em meio à crise atual. Penso um pouco. E respondo: “Acho que sim,
mas o resultado não virá agora”.
O
restante da conversa, que compartilho neste post, foi mais um mea culpa
do que uma explicação. Enquanto falava, percebia que vai ser preciso
esperar mais alguns anos para que as transformações no sistema político
sejam encaminhados por…políticos. Para isso falta um detalhe: elegê-los.
Em
entrevistas recentes para justificar as barbaridades recentes
protagonizadas pelo Congresso, sobretudo na Câmara dos Deputados
(revogação do Estatuto do Desarmamento, Estatuto da Família,
Heterofobia, terceirização, redução da maioridade penal, Parlashopping,
lei antiterrorismo para enquadrar manifestantes, proibição de discussões
sobre gênero e política nas escolas etc), representantes eleitos
democraticamente pela maioria da população dão como justificativa o fato
de terem sido eleitos democraticamente pela maioria da população. Seria
como uma carta-branca para emplacar qualquer tipo de projeto, inclusive
os que, em nome da segurança nacional, prometem espalhar armas nas mãos
de uma sociedade já suficientemente violenta (fico pensando como um
projeto como este pode alterar o nível de letalidade das discussões no
trânsito ou entre vizinhos malucos que já se matam verbalmente todos os
dias).
O argumento deixa exposto uma visão distorcida da ideia de
representação – “fui eleito pela maioria, logo, dane-se o que pensa (e
como vive ou morre) a minoria”. Mas não só. Por trás do argumento
escondem-se forças determinantes da eleição, como o peso desigual de
recursos investidos em diferentes candidatos. O sistema atual permite que sejam eleitos representantes não apenas dos interesses públicos, mas de interesses de corporações que os financiam. É uma fragilidade e tanto de um sistema que permite a hiper-representação de determinados grupos em detrimento de outros. O resultado é um Congresso predominantemente rico e masculino em detrimento de uma população diversificada e sub-representada – sobretudo mulheres, negros e e população LGBT.
A série de manifestações contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ) puxada não por partidos políticos rivais, mas por mulheres, na última semana, é consequência direta desse déficit de representação: é dele um projeto, relatado por outro homem, que visa a dificultar o atendimento em hospitais a mulheres vítimas da violência sexual.
Esse déficit é resultado de um lapso: o lapso de uma geração acomodada na ideia de que política não se discute. Nascida ou criada no fim da ditadura, a minha geração chegou à vida adulta avessa a qualquer debate público. Daí o mea culpa dos parágrafos acima.
O caos dos debates sobre qualquer vaga na garagem do prédio é sintoma dessa inabilidade: saímos da ditadura enferrujados e até agora não aprendemos a dialogar.
Crescemos em um contexto em que as ideologias ruíam. Éramos a geração desinteressada de teorias, fantasias ou no algo mais. O que não necessariamente é ruim – no caso do apego às respostas prontas de um lado e de outro da Guerra Fria, é ótimo. Só que, diferentemente da música de Belchior, amar e mudar as coisas também não estavam nos planos: à sombra da violência urbana e das doenças sexualmente transmissíveis, construímos trincheiras para limitar e proteger nossas projeções de sonhos, geralmente resumidos a viagens de férias, festa de casamento paga em prestações vitalícias e TV de plasma com 200 canais.
Para financiar essas trincheiras, gastamos as atenções e as energias em projetos de voo solo. Em vez de lutas, o curso de MBA. Em vez dos clássicos, as dez lições para se dar bem. Em vez da chácara, o shopping. Em vez da rua, a academia. Em vez da periferia, o mochilão pela Europa. (Isso, claro, entre os colegas de classe média universitários criados nos centros da cidade; em outras franjas a realidade foi bem outra).
Nossos sonhos estavam associados às conquistas individuais. Completar trajetos era obter estágio na empresa dos sonhos. Vestir a camisa dos sonhos. O tênis dos sonhos. Éramos o público alvo de um imperativo contemporâneo da revista Você S.A.
Preocupados em bater metas, chegar lá e garantir, no intervalo, uma ideia de qualidade de vida, nos afastamos a passos largos da vida pública. A decepção com a reabertura democrática, marcada pelo impeachment do Fernando Collor, a compra de votos para a emenda da reeleição de FHC e, mais à frente, o mensalão, nos levou a pensar que não havia saída para a vida se não cuidar da própria. O coletivo, ou a reflexão de nossas ações diante do mundo, saíram de pauta. A ideia de política como o caminho natural das transformações saiu de cena, assim, quase naturalmente.
Poucos amigos da nossa turma se filiaram a partidos ou movimentos. Poucos se interessaram em acompanhar os rumos políticos. A pressionar grupos políticos. A acompanhar votações-chave. Poucos sonharam em se eleger. “Política”, para nós, era xingamento. “Isso é politicagem”. “Político é tudo igual”. “É tudo interesse político”. Era como se houvesse uma barreira invisível entre nós, que acordávamos cedo e trabalhávamos para carregar o país nas costas, e “eles”, que nos atrapalhavam com o interesse apenas de enriquecer em quatro anos.
Mas quem eram “eles”? Nunca nos perguntamos. Neste cordão sanitário instalado entre “nós” e “eles”, permitimos que grupos mais organizados (e mais espertos) passassem a ditar as normas, inclusive da perpetuação do poder. De dentro, eles agora não parecem ter o menor interesse em alterar o sistema de financiamento de campanhas ou colocar uma clausula de desempenho para limitar a atuação de legendas que não têm qualquer projeto político a não ser morder o fundo partidário ou as migalhas em troca de benesses no segundo turno.
Se hoje o ambiente é desolador a culpa não é só de quem transforma o Congresso num reinado careta e covarde. A culpa é de quem dormiu no ponto. De quem “deixou chegar”, como se diz no futebol. De quem levantou copos de cerveja na área gourmet e fez discursos recheados de indignação – e foi dormir crente de que estavam todos, em Brasília, apavorados com nossos vitupérios.
Enquanto dormíamos, quem aproveitou o vácuo em direção às esferas do poder foram os grupos religiosos, os grupos empresariais, os fazendeiros, os saudosos de velhos regimes. Estes se elegeram aos montes enquanto o debate público se resumia à escolha, a cada quatro anos, do prefeito ou do presidente (atire a primeira pedra quem não deixou para definir o voto para deputado ou vereador para a última hora, e só então decorou o número do bonitão que espalhou placas e cartazes por toda a cidade).
Estes bonitões forraram, assim, um Congresso caracterizado por bancadas, e não por projetos políticos partidários. São os velhos (não de idade, mas de mentalidade), insensíveis a valores contemporâneos como diversidade e compartilhamento, dizendo a uma nova geração – mais conectada, mais veloz, mais esperta e mais inconformada que a minha – o que é bom pra tosse. Elegem-se não apesar, mas em razão dos discursos do ódio e do medo.
Essa história começa a mudar. Nas últimas semanas, fui convidado a participar de uma série de debates entre estudantes de quatro universidades em São Paulo, duas elas públicas. Na plateia, encontrei grupos cada vez mais interessados em política. Cada vez mais interessados em saber como a situação chegou aonde chegou. Cada vez mais interessados em descobrir, como fez a estudante do primeiro parágrafo, o que deve ser feito para mudar.
A resposta não é fácil e, quando me apresento, deixo claro que vou decepcioná-los: aos 33 anos, tenho mais dúvidas do que tinha aos 18. Mas algo parece estar surgindo. Nas escolas, coletivos feministas começam a discutir, desde cedo, questões como relações abusivas e violência sexual. Na internet, tenho visto contribuições de pessoas cada vez mais jovens sobre assuntos como visibilidade, representação, ação política, etc. Na idade deles eu ainda comia terra. Na idade adulta, tomei partido na bifurcação e fui cuidar da carreira, essa ideia de projeto privado em beneficio de ninguém a não ser a mim.
Nas últimas semanas as consequências das escolhas da minha geração (e a anterior e, aparentemente, a seguinte) pela letargia ficaram mais evidentes. Com um ponto didático pelo menos: ao fazerem o que querem e como querem, os deputados confortáveis com a autoridade conferida pelo voto compraram briga com quem começa a se interessar, ou se interessar novamente, pelo “fazer política”.
Eis uma característica da geração nascida perto ou depois dos anos 2000: ela tem um interesse considerável por saber como as coisas são feitas e como participar dos processos. Tem uma ânsia em se religar com algo que deixamos para trás.
Essa geração é menos ligada a marcas e vozes de comando, e o acesso às informações via internet dá a elas o repertório necessário para sofisticar a formação da própria subjetividade. E para entender melhor o seu papel no mundo – inclusive com transmissão, em tempo real, do impacto da nossa presença no mundo para os desastres ambientais.
Vem aí a geração que vai ao Google para confrontar a versão oficial, contada pelos pais, das histórias sobre bruxas, castelos e casamentos com finais felizes. É a geração profetizada por Gilberto Gil: uma geração que quer saber notícia mais séria sobre a descoberta da antimatéria e suas implicações. Pois agora sabe que saber é poder.
Essa mudança de percepção pode não surtir efeito exatamente agora. Nem em 2018. Mas é essa geração – muito mais informada e disposta a identificar o absurdo da situação atual, em que terceirizamos as decisões sobre nossos direitos a grupos hegemônicos, para fingir dormir em paz – que deve, muito em breve, arrombar as portas dos canais de poder para provocar as mudanças de dentro para fora. A reação pode ser violenta, como está sendo, e o convívio com as vozes do atraso será sempre inevitável. A diferença é que elas não terão o monopólio das decisões.
Nesses
encontros com os estudantes, me perguntaram, a certa altura, se eu não
estava sendo otimista demais quando dizia que alguma coisa estava
acontecendo e dando as caras nas ruas, nas redes, nos corredores das
escolas. A letargia política da minha geração, respondi, não me deixou
qualquer espaço para mais pessimismo. Agora é mudar ou explodir.
Foto: Lula Marques/ Agência PT