No encontro entre “velhos amigos” FHC, Temer e Gilmar, a reforma principal não está no cardápio
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Reparem no cardápio do almoço da última quarta-feira, 12 de outubro, Dia das Crianças e da Padroeira, noticiado como um encontro entre amigos no Palácio do Jaburu, a residência ora oficial do ora presidente.
No centro da mesa estava Michel Temer, condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) por ter doado dinheiro a campanhas acima do limite legal em 2014, inelegível, até segunda (ou terceira) ordem, pelos próximos oito anos e alvo de uma outra ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre abuso de poder político e econômico na eleição de 2014, quando foi eleito vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff. Naquele ano, o seu partido, o PMDB, recebeu R$ 10 milhões em dinheiro da Odebrecht, a pedido, segundo o empresário Marcelo Odebrecht, do próprio Temer, feito durante um jantar no mesmíssimo Palácio do Jaburu - que em outros tempos costumava receber também as visitas frequentes de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a chave-mestra do processo deimpeachment. A ação é movida pelo PSDB, um fenômeno a ser estudado tanto pela capacidade de escapar de condenações judiciais quanto pela habilidade de nomear em seus governos auxiliares ligados ao Judiciário e vice-versa.
Desta vez entre os convivas estava o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, figura principal do partido que moveu a ação quando Temer era um simples vice decorativo. Estava também o presidente do TSE, Gilmar Mendes, subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil e Advogado-Geral da União no governo FHC, responsável pela indicação do ex-auxiliar ao Supremo Tribunal Federal, onde não tem exatamente a atuação destacada pelo comedimento, pela discrição e pelo princípio de jamais emitir opinião sobre aliados ou desafetos fora dos autos.
Fechava o encontro entre amigos Geddel Vieira Lima, ministro dos governos Dilma e Temer suspeito, segundo mensagens interceptadas pela Polícia Federal, de usar sua influência política para atuar em favor de interesses da construtora OAS na Caixa Econômica Federal, da qual foi vice-presidente, na Secretaria de Aviação Civil e na prefeitura de Salvador.
O magistrado, que eventualmente poderá ajudar a decidir o futuro dos colegas à mesa, definiu o prato principal do encontro como uma avaliação do momento, regado pelo otimismo com o “bom resultado da eleição” e da aprovação, pela Câmara dos Deputados, da PEC do Teto dos Gastos Públicos, que vai, nas palavras do ministro, “refazer a situação muito difícil do Brasil”.
“Foi uma conversa de velhos amigos”, resumiu o magistrado, que assim costuma assim responder quando questionado sobre a ação no seu TSE contra o velho amigo e anfitrião: “O futuro a Deus pertence”.
No Brasil de 2016, até Deus mudou de nome.
Foto: Anderson Riedel/ VPR